Dia do Professor: famílias celebram as alegrias e os desafios do ofício
Neste dia de justas homenagens, o Estado de Minas conta histórias de docentes, que, ligados pelo sangue ou pelo casamento, compartilham os perrengues da profissão, mas também exaltam o seu poder transformador
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Em família, todos os professores falam a mesma língua. E compartilham desafios, somam experiências, subtraem dúvidas, multiplicam conhecimento, celebram a profissão escolhida. Neste dia de homenagem aos docentes, o Estado de Minas conta a história de homens e mulheres de várias gerações, unidos por laços do casamento ou pelo sangue, que se dedicam a ensinar, indicar caminhos, formar cidadãos.
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No tricentenário Quilombo de Pinhões, em Santa Luzia, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), os primos Márcio, Daiana, Ana Carolina, Bárbara, Letícia e Andréa mostram porque os laços de família e afeto os tornam singulares em escala plural: se a educação tem poder transformador, querem ser agentes de boas mudanças.
Na mesma cidade, Truman e Piedade, casados há 40 anos, garantem que, mesmo aposentado, professor é sempre professor. “A base do nosso ofício, está no entendimento, no diálogo, então em casa um compreende o outro, pois vive praticamente as mesmas situações”, ressalta Piedade.
Longe dali, em Montes Claros, no Norte de Minas, Daniel, casado com a também professora Eloísa, destaca a importância da profissão, com seus perrengues e alegrias. “Fico feliz ao ver estudantes se formando e seguindo seu caminho”, diz o belo-horizontino que aprendeu a ler e a escrever com a avó, uma normalista alfabetizadora.
“Muito gratificante ver o início da caminhada de cada estudante... dali em diante, tudo é possível. Ser professor é uma das únicas profissões em que se pode vivenciar isso bem de perto. Cada ano, a cada formatura, a esperança do futuro se renova”
Daniel Braga, Professor, com a mulher, Eloísa Silva, também professora
AMOR PELA EDUCAÇÃO NO DNA
Foi na Festa de Nossa Senhora do Rosário no Quilombo de Pinhões, em Santa Luzia (RMBH), na Região Metropolitana de Belo Horizonte, que a equipe do EM teve a bela oportunidade de conhecer uma família com muitos professores. “E ainda estão faltando parentes de outras gerações. Neste momento, posando aqui para a foto, só estamos nós, cinco primas e um primo”, conta, num misto de orgulho e satisfação, a pedagoga Letícia Júnia Araújo Carvalho, de 27 anos, que trabalha na Escola Municipal “Ceçota Diniz”, em outro bairro da cidade.
“Sou professora de apoio e supervisora, em dois turnos”, explicou Letícia, para quem a profissão exige amor e muitas horas pensando em alunos, estudos, sala de aula e conteúdo das matérias. “Portanto, não é só transmitir conhecimento”, resume a jovem docente, que acalenta um sonho: mais valorização para o ofício e o crescente interesse dos estudantes.
Ao lado, fazendo coro às palavras da prima, Daiana Cristina dos Santos Carvalho, de 37, vê a educação como agente transformador de toda a sociedade: “Sou ‘quilombola de raiz’, cultuo as tradições e quero passar às próximas gerações as histórias que herdei dos meus pais e avós”. Também fazendo jornada dupla, Daiana lembra da correria no dia a dia ao conciliar vida familiar e profissional, pois trabalha na biblioteca da Escola Estadual “Padre João de Santo Antônio”, em Pinhões, e na Escola Municipal “Dona Quita”, no Bairro Adeodato. Casada com Gustavo Carvalho, que não é da área da educação, ela tem dois filhos: Bernardo de 13 e Maria Luíza, de 6.
Na escola, os alunos aprendem que Pinhões surgiu em 1708 com os escravizados que foram trabalhar na construção do Mosteiro de Macaúbas, distante 5 quilômetros. Depois, ficaram morando no local entre as antigas sesmarias de Macaúbas e Bicas. Em março de 2017, a comunidade foi reconhecida como quilombo pela Fundação Cultural Palmares, vinculada ao Ministério da Cultura. “Nossa história é muito rica, está no nosso sangue”, ressalta Daiana.
Para homenagear o dia 15 de outubro, Ana Carolina Rosária Barbosa, de 27, escreve na cartolina branca “Família de Professores”, juntando o desenho de um casal com uma criança e o nome Quilombo de Pinhões. “Você tem letra de professora, daquelas bem desenhadas!”, comenta o repórter, que recebe como resposta um sorriso agradecido de Ana Carolina. Docente de educação especial na “Dona Quita” e na Escola Estadual “Gervásio Lara”, no Bairro São Benedito, Carol, como é chamada pelas primas, tem uma teoria para a tradição familiar pela educação. “Sinceramente, penso que está no nosso DNA. O amor pela educação passa de geração em geração. Minha mãe e minha tia são professoras. Somos muito felizes neste vasto campo que é o ensino”.
Ouvindo as palavras, o único homem presente neste grupo, Márcio Eustáquio Diniz, de 45, revela que nunca teve dúvidas sobre a importância da carreira escolhida. Ainda mais por trabalhar com a educação especial (estudantes com deficiências física, auditiva ou intelectuais, Transtorno do Espectro Autista-TEA e superdotação). “A educação tem realmente o poder de transformar”, acredita piamente Márcio, casado com a supervisora de ensino Sara Araújo Diniz. Em família, as conversas do casal, que tem dois filhos, costumam girar em torno das atividades profissionais cotidianas. “Mas a gente sempre arranja um jeito de falar sobre outros assuntos”, brinca o professor das escolas “Padre João de Santo Antônio” e “Dona Quita”.
Ao ouvir Márcio sobre a “importância da educação”, Andréa do Carmo Diniz, de 38, casada, mãe de Felipe, de 17, e Gustavo Henrique, de 2, nascida e criada em Pinhões, acrescenta: “A educação é a base de todas as profissões. São os professores que ensinam àqueles e àquelas que, futuramente, vão estudar direito, medicina, engenharia e outros cursos superiores”. E quem te incentivou a seguir esse ofício?, quer saber o repórter. Sem pensar duas vezes, Andréa cita seu pai, Eugênio Pascoal Diniz.
Já a mais jovem do grupo, Bárbara Alves, de 23, se viu estimulada pelo filho Miguel Henrique, de quatro anos, a estudar pedagogia. “A vida é cheia de desafios e quero um mundo melhor para ele”, afirma Bárbara, enquanto abraça a criança. Trabalhando na Escola Municipal “Cônsul Antônio Cadar”, em Belo Horizonte, a jovem tem certeza de que o professor “faz a diferença na vida das pessoas”.
“Sempre sonhei em ser professora, orientar crianças e jovens, buscar a luz da sabedoria. Os mestres são sempre referência, modelo, exemplo, enfim, um espelho para os estudantes”
Piedade Henrique Machado dos Santos Professora, ao lado do marido, Truman Soares dos Santos, também professor
ALFABETIZAÇÃO COM A AVÓ
Também de uma família com muitos docentes, o belo-horizontino Daniel Braga, de 40, residente em Montes Claros, na Região Norte de Minas, vive imerso, desde criança, no mundo da educação. “Aprendi as primeiras letras, em casa, com minha avó, Marta Pires, que era alfabetizadora. Na época, se falava normalista. Minha tia, Mercês, também lecionava. Aprendi bastante com as duas”, conta Daniel, professor de educação superior no câmpus da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em Montes Claros.
Para completar a história, Daniel se casou com a engenheira ambiental Eloísa Silva, de 33, natural de Sabará, na Grande BH – os dois são pais de Dandara, de 2 anos. Eloísa leciona no curso de engenharia agrícola ambiental da UFMG, em Montes Claros. “Já pensou dois professores em casa? Claro que falamos sobre questões escolares, das alegrias aos desafios, mas temos a Dandara e muito mais para conversar”, afirma.
Ao longo dos anos, a experiência e o amor pelo ofício foram excelentes mestres: “Ouço muita gente reclamando da profissão, mas confesso ser difícil abandonar a sala de aula. Parece que tem um ‘bichinho’ morando dentro da gente e impede a saída”. Daniel observa que é preciso haver crescente valorização e reconhecimento. Ele teme pelo futuro, sobre um possível “apagão docente”, pois há previsão, já na próxima década, de déficit de mais 300 mil professores da educação básica, no país. “A situação nos preocupa”, alerta Daniel, que leciona no curso de formação de professores, na UFMG, em Montes Claros.
Junto ao prazer de estar em sala de aula, Daniel conhece outros que iluminam sua carreira. “Um dos momentos que me deixam mais feliz é quando estou na formatura de uma turma. Sinto a esperança renovada a cada ciclo. Muito gratificante ver o início da caminhada de cada estudante... dali em diante, tudo é possível. Cada sonho pode ser buscado, concretizado, alcançado. Ser professor é uma das únicas profissões em que se pode vivenciar isso bem de perto.”
LUZ DA SABEDORIA
Mesmo com os altos e baixos naturais do ambiente familiar, a convivência diária só traz benefícios aos professores, assegura Piedade Henrique Machado dos Santos, casada há 40 anos com Truman Soares dos Santos, residente no Bairro Carreira Comprida, em Santa Luzia (RMBH). “Estamos aposentados, mas professor é sempre professor. Somos voluntários na Organização não governamental ‘Solidariedade – Todos juntos sempre’, com ações em vários setores, incluindo a educação.”
“Lá em casa, somos três da área. Na família toda, há tios, primos e cunhados. Fui professora de língua portuguesa, em escolas pública e particular, e Truman, lecionou química. Ele trabalhava numa grande empresa de bebidas, em BH, e o incentivei a dar aula. Caroline, nossa filha mais nova, começou dando aulas de inglês, depois se formou em direito e trabalha como advogada. Já a Gabriela é fisioterapeuta.
Satisfeita com sua jornada na área do ensino, Piedade se considera realizada. “Sempre sonhei em ser professora, orientar crianças e jovens, buscar a luz da sabedoria. Os mestres são sempre referência, modelo, exemplo, enfim, um espelho para os estudantes. Portanto, além da vocação para o ofício, se torna fundamental ter responsabilidade para ensinar, principalmente no mundo de hoje com tantas informações, velocidade de notícias e apelos no universo virtual.”
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ORIGEM DA HOMENAGEM
Há quase 200 anos, em 15 de outubro de 1827, o imperador dom Pedro (1798-1834) decretou a criação do ensino elementar. Com isso, todas as cidades, vilas e lugarejos do Brasil deveriam ter suas escolas de primeiras letras. Está nesse decreto imperial uma das origens da celebração do Dia do Professor. Bem mais tarde, em 1947, portanto 120 anos depois, ocorreu a primeira homenagem aos docentes, com um dia específico para eles. Numa pequena escola de São Paulo (SP), quatro professores sugeriram uma pausa nas atividades para congraçamento e conversa com os pais dos alunos. Assim, foi escolhido o 15 de outubro, que entrou para o tradicional calendário dos estabelecimentos de ensino. No país, a data se tornou oficialmente feriado escolar pelo Decreto Federal 52.682, do presidente João Goulart, de 14 de outubro de 1963.