Uma advogada de Ponte Nova, na Zona da Mata mineira, é acusada de pedir R$ 4 mil a familiares de um homem investigado por tráfico de drogas. Segundo a denúncia, o dinheiro seria destinado a um perito da Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) para apagar ou suprimir dados extraídos de um celular apreendido durante a investigação.

Daniela Gomes Ibrahim é inscrita na Ordem dos Advogados do Brasil em Minas Gerais (OAB-MG) desde setembro de 2007 e está vinculada à subseção de Ponte Nova. Ela passou à condição de ré após a Justiça de Minas Gerais aceitar a denúncia contra ela pelo crime de tráfico de influência. A decisão é da 2ª Vara Criminal e de Execuções Penais da Comarca de Ponte Nova e foi proferida na sexta-feira (18/8).

Um vídeo que circula nas redes sociais registra uma conversa, durante uma ligação telefônica, atribuída à advogada e a uma mulher que seria parente do investigado. Na gravação, a interlocutora pergunta se o valor referente ao perito seria realmente de R$ 4 mil.

“O telefone que você falou, do perito, dos R$ 4 mil, seria só os R$ 4 mil mesmo? Eu consegui um dinheiro aqui, já está na mão, você entendeu?”, pergunta a mulher.

A pessoa identificada como “doutora” responde: “Sim, é só esse valor. Não tem outro, não.”

Na sequência, a mulher questiona se o perito que estava no caso conseguiria realizar o procedimento e se daria certo. A advogada responde: “Não, não tem nada a ver uma coisa com a outra. Ele puxa no sistema.”

A mulher então afirma que conseguiu o dinheiro por meio de um aplicativo e que estava com contas para pagar, mas que, se pudesse ajudar, entregaria o valor à advogada para que ela o repassasse ao perito.

A advogada, segundo a gravação, pede o nome completo, CPF, número de telefone e e-mail, afirmando que “a gente não pode perder nem mais um dia”.

A mulher diz que conversaria com os pais do investigado para tentar conseguir o restante do dinheiro. Na sequência, a advogada afirma que a situação seria “bem crucial” e acrescenta: “Se piorar mais a situação para a gente... Meu Deus.”

Acusação

De acordo com a decisão judicial, a acusação contra Daniela surgiu no curso de outro processo, no qual um homem responde por tráfico de drogas.

Segundo o Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), Daniela teria solicitado R$ 4 mil aos familiares do acusado com o objetivo de destinar o valor a um perito da Polícia Civil para apagar ou suprimir dados extraídos do celular apreendido no contexto da investigação.

A suposta interferência na prova teria como finalidade beneficiar o acusado no processo de tráfico de drogas.

O Tribunal reconheceu a existência de conexão entre os processos e decidiu que o caso deveria permanecer na 2ª Vara Criminal e de Execuções Penais de Ponte Nova.

Na avaliação do Tribunal, o suposto tráfico de influência estaria diretamente relacionado à tentativa de favorecer o homem investigado por tráfico de drogas. A decisão considerou que a suposta conduta teria sido praticada para conseguir vantagem ou impunidade em relação ao outro processo.

Na decisão, o juiz Guilherme Barros Dominato destacou que a acusação envolve, em tese, o uso da atividade profissional da advogada para a prática do crime.

“A medida encontra fundamento não apenas na gravidade abstrata do delito imputado, mas, sobretudo, na forma concreta pela qual a infração penal teria, em tese, sido praticada e na utilização direta das prerrogativas, conhecimentos, contatos e credibilidade inerentes ao exercício da advocacia criminal como instrumento para a prática delitiva”, diz trecho da decisão.

O magistrado também determinou o prosseguimento da ação penal. A defesa deverá apresentar a resposta à acusação no prazo de 10 dias, conforme determinação judicial.

Segundo o processo, a intenção seria retirar ou suprimir informações que poderiam ser utilizadas como prova.

O Tribunal de Justiça considerou que existe relação entre os dois processos porque, em tese, a suposta prática de tráfico de influência teria sido realizada justamente para beneficiar o investigado no processo de tráfico de drogas.

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A reportagem entrou em contato com a defesa da ré, com a Polícia Civil de Minas Gerais e com a OAB-MG para obter posicionamentos sobre o caso e sobre o conteúdo do vídeo. Até o fechamento desta reportagem, não houve retorno. O espaço segue aberto. 

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