O Ribeirão Arrudas, historicamente canalizado, retificado e cercado pelo concreto, voltou ao centro do debate sobre o futuro de Belo Horizonte. Uma proposta popular protocolada nesta quinta-feira (6/8) na Câmara Municipal quer transformar parte de suas margens em um parque linear de quase seis quilômetros, criando um corredor verde entre a Praça do Perrella e o Bairro São Geraldo, na Região Leste da capital.

A iniciativa reuniu 6,1 mil assinaturas em um abaixo-assinado organizado pela Aliança BH Verde, com apoio de 38 entidades da sociedade civil, e propõe requalificar uma faixa que acompanha simultaneamente o Arrudas e a linha férrea da Avenida dos Andradas.

O trecho já é parcialmente utilizado pela população para caminhadas, corridas e ciclismo em horários em que permanece fechado ao trânsito de veículos, mas ainda não tem estrutura permanente de parque urbano. 

O projeto prevê ampliação da arborização, implantação de ciclovias, calçadas acessíveis, iluminação, mobiliário urbano, áreas de permanência, equipamentos públicos e melhorias na conexão entre bairros, hoje separados pela barreira física criada pelo Arrudas. 

Segundo Filipe Martins, coordenador do Movimento Verdejar BH e integrante da Aliança BH Verde, a proposta parte de um espaço que já é apropriado pela população e que poderia ganhar estrutura definitiva de parque, com mais árvores, banheiros e melhores condições para caminhada e ciclismo.

“Na prática, entendemos que esse parque já existe, porque hoje há uma pista de caminhada sobre uma via fechada ao trânsito. O que defendemos é que ela passe a ter infraestrutura de parque, com mais arborização, banheiros e melhorias na estrutura para caminhada”, afirmou.

Ele explica que o movimento ganhou força ao longo do último ano a partir do uso cotidiano do trecho por moradores da Zona Leste. “As maiores cidades do mundo estão reduzindo áreas impermeáveis e ampliando áreas verdes. Belo Horizonte tem a oportunidade de instituir um parque de cerca de seis km que já está praticamente pronto”, disse.

Corredor verde 

Os organizadores propõem que o corredor seja compreendido em três setores. O primeiro, entre a Praça do Perrella e a Avenida Silviano Brandão é considerado praticamente um parque pronto, uma vez que permanece fechado ao trânsito na maior parte do tempo. O segundo até a Avenida Itaituba, que ainda tem circulação de veículos e poderia funcionar inicialmente com faixa compartilhada. O terceiro iria até o Bairro São Geraldo, que tem pouco uso viário, mas carece de infraestrutura adequada para pedestres e ciclistas.

A proposta prevê a retirada de parte do asfalto existente, ampliação das áreas verdes e instalação de banheiros, bebedouros, bancos, rampas de acesso às passarelas do metrô e passarelas sobre as avenidas Silviano Brandão e Itaituba, permitindo a continuidade da ciclovia e da pista de caminhada ao longo de todo o percurso.

Um dos objetivos centrais é reconectar Belo Horizonte ao Arrudas, criando a primeira área estruturada às margens do ribeirão voltada para lazer, contemplação e convivência.

O projeto prevê o plantio de aproximadamente 1.200 árvores e a preservação de centenas de mudas já implantadas por voluntários em parceria com a Prefeitura de Belo Horizonte. Na área do futuro parque já existe uma minifloresta urbana, resultado de ações desenvolvidas pelo Coletivo Árvore Legal em conjunto com o município.

Trecho favorável 

Para o professor do Instituto de Geociências da Universidade Federal de Minas Gerais, Bernardo Machado Gontijo, a proposta faz sentido porque aproveita uma faixa urbana já marcada pela presença simultânea do Ribeirão Arrudas e da linha férrea.

Segundo ele, o trecho escolhido apresenta características favoráveis para esse tipo de intervenção. Tirando a parte mais impermeabilizada da margem esquerda, próxima de Santa Tereza e do Horto, existe uma continuidade territorial importante, com poucas vias atravessando o corredor e a ferrovia funcionando como um limite físico natural.

“O que caracteriza um parque linear é justamente o formato alongado. Ele costuma acompanhar um curso d’água, mesmo que esse curso esteja bastante alterado, ou então uma infraestrutura linear, como uma ferrovia”, explicou.

O professor pondera que ainda seriam necessários estudos sobre a ocupação atual da área, incluindo a existência de moradias, imóveis irregulares ou outros usos consolidados, mas considera que a estrutura espacial do lugar é compatível com a implantação de um parque linear.

Um rio apagado pela urbanização

Gontijo lembra que o Arrudas teve papel importante na formação de Belo Horizonte. O antigo Curral del-Rei se organizava ao longo de córregos que deságuam no ribeirão, e o curso d’água já aparecia no plano original da capital. Com o crescimento urbano, porém, ele foi sendo retificado, impermeabilizado e transformado em canal de drenagem.

“A cidade praticamente negou o rio. Em muitos trechos ele foi invisibilizado pela própria lógica urbana”, afirmou.

Na avaliação do pesquisador, um parque às margens do Arrudas não resolveria sozinho os problemas de poluição e saneamento, mas ajudaria a reintegrar o rio à percepção da cidade e a recuperar parte de sua função ambiental e paisagística.

O parque pode se tornar uma ferramenta para enfrentar os efeitos das mudanças climáticas em Belo Horizonte. Com mais áreas verdes e espaços permeáveis, a intervenção favorece a redução das ilhas de calor, melhora a absorção da água da chuva e contribui para temperaturas mais agradáveis na região. 

Gontijo reforça que os efeitos da arborização ultrapassam os limites do parque. “Qualquer área arborizada tende a reduzir a temperatura do entorno. O benefício não fica restrito ao interior do parque, ele se espalha para os bairros vizinhos e melhora o microclima urbano”, destacou.

Ele acrescenta que áreas menos impermeabilizadas também podem amenizar os impactos das enchentes, aumentando a infiltração da água e reduzindo a velocidade do escoamento superficial ao longo da bacia do Arrudas.

Moradores e usuários do trecho falam das expectativas em relação à proposta do parque linear. Júlio César Pereira, morador do bairro Esplanada, utiliza a ciclovia de três a quatro vezes por semana para andar de bicicleta e considera a proposta positiva. “Eu não conheço o projeto, mas eu acredito que seja uma boa ideia”, afirmou. Ele também reclama da falta de manutenção em parte do percurso. “O problema é que a parte da entrada aqui do São Geraldo para o final da Andradas está completamente abandonada. Não teve pintura, não teve sinalização, não teve nada”, disse.

A mesma percepção é compartilhada por Marcos Paulo, de 34 anos, morador de Santa Luzia e entregador por aplicativo. Usuário frequente da ciclovia para trabalho e deslocamentos pela região do Boulevard, ele avalia que a estrutura exclusiva para bicicletas torna o trajeto mais seguro e prático para quem depende da bike no dia a dia. Marcos também afirma que o trecho é bastante movimentado por pessoas que fazem caminhada, andam de bicicleta e praticam exercícios físicos e acredita que a implantação do parque linear pode melhorar ainda mais o espaço. “Eu acho que vai melhorar bastante, mais do que já está”, concluiu. 

Uma rede verde na cidade

Para Bernardo Gontijo, o Parque Linear Arrudas pode ser uma peça de uma estratégia maior para Belo Horizonte: a criação de uma rede de corredores verdes conectando diferentes regiões da cidade.

O professor avalia que áreas próximas a rios, linhas férreas, grandes avenidas e espaços urbanos subutilizados podem ganhar novas funções ambientais e de convivência. Ele cita como exemplos trechos da Avenida Teresa Cristina, áreas próximas ao Anel Rodoviário e corredores das avenidas Cristiano Machado e Antônio Carlos.

A proposta se soma a outras mobilizações pela ampliação de áreas verdes na capital. No Bairro Jaqueline, na Região Norte, um abaixo-assinado criado por moradores e lideranças comunitárias defende a criação de um parque ecológico em uma antiga fazenda com mais de 200 mil metros quadrados, que tem nascentes, córrego e biodiversidade. O movimento afirma que o bairro, com cerca de 16 mil moradores, não conta atualmente com um espaço público de lazer, esporte e cultura, e já reuniu mais de 1,2 mil assinaturas.

No Barreiro, a Câmara Municipal aprovou em primeiro turno a criação do Parque Ecológico do Bairro Diamante, em uma área de cerca de 85 mil metros quadrados entre os bairros Diamante e Vila Pinho. O projeto prevê preservação ambiental e educação, proteção de nascentes e atividades de recreação em contato com a natureza.

A cidade também ganhou recentemente o Parque Paulo Berutti, no Bairro São Bento, com cerca de 30 mil metros quadrados, equipado com área de convivência, playground, banheiros acessíveis e novas áreas arborizadas. Localizado na bacia do Ribeirão Arrudas, o espaço também tem função ambiental ao contribuir para a infiltração da água da chuva e a melhoria do clima urbano.

“O importante é combinar preservação ambiental, mobilidade ativa, segurança e uso público qualificado. Nem toda faixa disponível pode virar parque, mas muitas poderiam ser incorporadas a uma rede de corredores verdes urbanos”, afirmou Gontijo.

A ideia acompanha experiências internacionais de recuperação de rios urbanos, como o Madrid Río, na Espanha, onde as margens do rio Manzanares foram transformadas em parques, ciclovias e áreas de convivência.

Para Filipe Martins, exemplos como esse mostram que rios urbanos podem deixar de ser vistos apenas como estruturas de drenagem e voltar a fazer parte da paisagem e da vida das cidades.

Próximos passos

A proposta entregue à Câmara ainda não apresenta projeto executivo nem estimativa oficial de custos. O movimento defende que, caso avance, a prefeitura realize um concurso internacional de arquitetura e urbanismo para definir a solução técnica do corredor verde.

Agora, após o protocolo da proposição popular, os organizadores pretendem mobilizar vereadores, especialmente a Comissão de Meio Ambiente, para que o projeto avance oficialmente dentro da estrutura do poder público.

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Além dos ganhos ambientais, os apoiadores avaliam que o parque pode valorizar espaços públicos, estimular atividades culturais e esportivas, fortalecer o comércio local e ampliar o acesso da população a áreas de convivência em uma das regiões mais densamente urbanizadas da capital.

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