"Paidrastos": quando é o coração que gera mais filhos
No fim de semana dedicado aos pais, histórias de mineiros são exemplos de amor paterno que supera barreiras do destino e iguala laços de sangue e de afeto
compartilhe
SIGA
Laços de afeto, nem sempre de sangue, fortalecidos em proteção, convívio e cuidado para unir corações, estreitar abraços, garantir harmonia familiar. Neste fim de semana dedicado aos pais, com ponto alto no domingo (9/8), o Estado de Minas conta histórias de pais em dose dupla, que são também padrastos. Muitas vezes no melhor estilo “os meus, os seus, os nossos”, numa configuração de crianças nascidas de relacionamentos anteriores e filhos do próprio casal, os mineiros apresentados nesta reportagem falam da sua trajetória sempre coroada pela busca de diálogo, orientação, confiança e atenção, indistintamente, às crianças menores ou aos jovens enteados.
Morador do Bairro Marajó, na Região Oeste de Belo Horizonte, o consultor de vendas Raphael Mungo abriu um novo ciclo em sua vida, em 2020, ao reencontrar a amiga de infância Luciana Megale, com quem se casou no ano seguinte: da união, nasceu Aurora, há menos de três anos. À garotinha, se juntaram Benício, de 9, e Joaquim, de 7, filhos de Luciana, e Clara, de 7, fruto de um relacionamento anterior de Raphael, que mora com a mãe. “Cuidar é o verbo fundamental, pois todos são filhos, independentemente do sangue que corre nas veias. A responsabilidade e o amor estão juntos nessa história”, ressalta o consultor de vendas.
Leia Mais
Distante dali, em Santa Luzia, na Grande BH, Pedro Henrique, de 29, e Daniel Augusto, de 23, têm convivência diária. O mais velho nasceu de um primeiro relacionamento de Terezinha Augusta Silva Silvestre, e o caçula é filho dela com o marido, o motorista de coletivo Luiz Carlos Silvestre. “Dar bom exemplo, estar sempre pronto para ouvir e ter compreensão”, cita Luiz Carlos, são pilares de uma relação de confiança e compreensão em família.
Já no Bairro Araguaia, na Região do Barreiro, na capital, Claudemir Jorge também iniciou novo tempo em sua vida ao reencontrar, há 17 anos, Marta Geovanna. Nesse “amor à segunda vista”, pois os dois, agora aposentados, já haviam namorado, os filhos dele, Thaís e Thiago, conheceram Caroline e Jonhson, filhos dela. “Nosso relacionamento parece coisa de novela”, diz o marido, que trabalhou durante 36 anos na Cemig.
“Ter o ‘Kal’ na nossa vida é presente de Deus. Sempre foi querido por toda a família, principalmente pelo amor, pelo cuidado e pela atenção que nos dedica!”, orgulha-se Caroline, que chama Claudemir pelo carinhoso apelido de três letras. Nesta semana especial para as famílias, e em todos os demais dias do ano, o desejo desses “pais de todos” é de que as crianças, adolescentes e jovens adultos, em tempos tão difíceis para a humanidade, tenham um caminho pavimentado pela dignidade e iluminado por boas referências.
FÉ, TRABALHO E PROTEÇÃO EM TODOS OS MOMENTOS DA VIDA
Em Santa Luzia, na Grande BH, o fim de semana do motorista de coletivo Luiz Carlos Silvestre, de 60 anos, vai ser em casa. “Todo ano, a gente sai para almoçar fora, mas desta vez pretendo ficar aqui... Só não escolhemos ainda o cardápio”, contou ele, na noite de quinta-feira, ao lado da esposa, Terezinha Augusta da Silva, com quem está casado há 23 anos, e também do enteado Pedro Henrique, de 29, e do filho Daniel Augusto, de 23. Certa mesmo será a presença na missa das 10h30, no Mosteiro de Macaúbas, onde Luiz Carlos participa do coral cinquentenário e cuida da percussão.
Na história da família, há uma feliz e “sanguínea” coincidência. O pai de Pedro Henrique é primo de Luiz Carlos, todos nascidos na região onde fica o tricentenário mosteiro, na zona rural, distante 15 quilômetros do Centro de Santa Luzia. “Assim, ficou mais fácil o relacionamento entre todos nós”, observa o motorista. Na sala de casa, no Bairro Novo Centro, ele mostra satisfação no sorriso ao anunciar que Pedro Henrique pretende se casar: “Usa até aliança de noivado”.
Inspiração que vem de um exemplo bíblico
A harmonia da família está evidente no entusiasmo dos irmãos por parte de mãe. “A amizade é grande”, declara Daniel Augusto sobre o irmão, que trabalha em um escritório de contabilidade em BH. Nas palavras e no coração de Pedro Henrique Conceição Silva, de 29, Luiz Carlos ganha destaque: “Tenho meu pai, mas o considero também um pai. Sempre nos tratou, a mim e ao Daniel, muito bem, com todo o cuidado”.
O cenário fraterno deixa Luiz Carlos feliz. “Penso que dar bom exemplo para os dois é o melhor que posso fazer. Junto a isso, existe orientação, diálogo, proteção e necessidade de conversar e ouvir”, acredita Luiz Carlos.
Religioso, ele se espelha ainda na figura de São José, o pai adotivo de Jesus e esposo da Virgem Maria, segundo a tradição católica. “Ele cuidou de Jesus sem fazer perguntas. Muitas vezes, no lugar das palavras, é o silêncio que nos indica o melhor caminho a seguir. Todo padrasto é um pai do coração”, resume.
A ORIGEM DA COMEMORAÇÃO
Há 60 anos, o então presidente dos Estados Unidos, Lyndon Johnson (1908-1973), decretava que o Dia dos Pais seria comemorado no país no terceiro domingo de junho. Mas a homenagem aos papais começou bem antes, mais de meio século, lá mesmo, nos EUA. No início do século 20, a norte-americana Sonora Smart Dodd teve a ideia de reverenciar seu pai, William Jackson Smart, veterano de guerra que criou, sozinho, seis filhos. A jovem pediu, então, à Associação Ministerial da cidade de Spokane que apoiasse a iniciativa para homenagear os papais. Assim, a primeira celebração ocorreu em junho de 1910, mês em que William Jackson Smart nasceu. No Brasil, o Dia dos Pais começou a ser celebrado na década de 1950.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
CADA PAÍS COM SEUS PAIS
O Dia dos Pais é festejado em diferentes partes do mundo, mas não é uma data global, variando de acordo com tradições culturais, históricas e religiosas. Uma das datas mais populares, por influência da celebração norte-americana, é o terceiro domingo de junho, adotada, além dos EUA, por país como Canadá, México, Argentina, Colômbia, Peru, Reino Unido, França e Japão. Na Austrália e na Nova Zelândia, a festa ocorre no primeiro domingo de setembro, marcando a chegada da primavera. Já em nações nórdicas como Suécia, Finlândia e Noruega, a data é celebrada apenas no segundo domingo de novembro. Em culturas de tradição católica marcante, como Portugal, Espanha e Itália, a comemoração coincide com o Dia de São José (19 de março), considerado o modelo bíblico de pai.