Retrato centrado no olhar profundo de Eva Nil, como se ela estivesse presente, observando e dialogando com as pessoas, tenta restabelecer sua ligação com o município

Mariela Oliveira/Divulgação

Na lateral do prédio que abriga o Hotel Bela Vista, no Bairro Bela Vista, em Cataguases, na Zona da Mata mineira, surge o desenho de um semblante feminino. Com penteado curto e ondulado, típico das mulheres da década de 1920, a figura tem o rosto voltado para quem passa. Os olhos grandes e expressivos encaram o público de maneira quase hipnótica, em um olhar que mistura sofisticação, melancolia e certa reserva.
Trata-se de Eva Nil (1909-1990), uma das personagens mais fascinantes e misteriosas do cinema brasileiro, agora homenageada com um mural na cidade da Zona da Mata mineira onde viveu quase toda a vida. Com 32 metros de altura por 20 metros de largura, a obra foi criada pelo artista português David Arranhado, resultado da residência artística empreendida pela Vila Santana, iniciativa idealizada e mantida por Andréia Bissoli, presidente da Fundação Bauminas.


Natural do Cairo, no Egito, Eva chegou ainda criança a Cataguases. Seu pai, o italiano Pedro Comello, estabeleceu-se na cidade como fotógrafo, registrando famílias, casamentos, primeiras comunhões e outros acontecimentos sociais. Foi nesse ambiente que ela conheceu Humberto Mauro (1897-1983), com quem trabalharia em alguns filmes e passaria a integrar o núcleo pioneiro do cinema cataguasense. A parceria, no entanto, terminaria em ruptura na segunda metade da década de 1920.


Comello incentivou a carreira artística da filha desde cedo. Ainda adolescente, Eva atuou em “Valadião, o Cratera” (1925) e “Na primavera da vida” (1926), de Humberto Mauro; em “Senhorita agora mesmo” (1928), dirigido pelo próprio pai; e em “Barro humano” (1929), de Adhemar Gonzaga (1901-1978).


Nenhum desses filmes sobreviveu. Embora tenha recebido elogios da crítica especializada, especialmente no Rio de Janeiro, Eva abandonou precocemente a carreira cinematográfica e jamais voltou a falar publicamente sobre o assunto. Em carta enviada a Adhemar Gonzaga, foi categórica: “Para qualquer coisa que você queira conversar comigo, estou à disposição. Menos sobre cinema”.


“Apesar de grande parte da obra cinematográfica associada a Eva Nil ter-se perdido ao longo do tempo, sua memória permanece muito viva em Cataguases”, comenta David Arranhado. “Esse foi um dos aspectos que mais me chamou a atenção durante a pesquisa. Eva continua presente no imaginário da cidade e é uma personagem reconhecida por diferentes gerações, dos mais velhos aos mais jovens”.

NASCE UMA ESTRELA

Em sua estreia no cinema, com “Valadião, o Cratera”, Eva ainda não ocupava o centro absoluto da narrativa. Pelo que se sabe, o filme era uma comédia regional de costumes ambientada no interior mineiro. Na trama, o protagonista, Valadião, era um sujeito fanfarrão e malandro, conhecido como “o Cratera”. A partir dele, Humberto Mauro explorava situações cômicas ligadas à vida provinciana, com humor popular e observação social, em uma linguagem ainda bastante experimental.

Já em “Na primavera da vida”, Eva começou a se consolidar como estrela. O melodrama romântico abordava o amor e os conflitos emocionais da juventude. Como o próprio título sugere, tratava da passagem da adolescência para a vida adulta, entre paixões, expectativas e desilusões. A imprensa da época elogiou a atriz. Mais do que sua atuação, os críticos destacaram sua fotogenia e o magnetismo diante das câmeras.
A ruptura com Humberto Mauro aconteceu nesse período, motivada por divergências em relação aos rumos do cinema. Enquanto o mineiro apostava em uma linguagem mais experimental, Eva e Comello preferiam narrativas mais convencionais e de apelo popular.


Foi nesse contexto que surgiu “Senhorita agora mesmo”, comédia em sintonia com a modernidade urbana dos anos 1920. Eva interpretava a protagonista, uma mulher independente e à frente de seu tempo, capaz até de desarmar e render bandidos que invadiram sua casa.


Com a popularidade conquistada por essas produções, Eva deixou Cataguases para estrelar “Barro humano”, rodado no Rio de Janeiro. A crítica viu o filme como uma tentativa de aproximar o cinema brasileiro dos padrões hollywoodianos e europeus. Foi ali que sua imagem de diva se consolidou. Ela e o pai ainda tentaram fundar uma produtora em Cataguases, mas o projeto fracassou antes de sair do papel. O roteiro do primeiro filme era ambicioso demais para as condições da época. Diante disso, desistiram.


Pouco depois, Eva abandonou o cinema. Passou a ajudar o pai no estúdio fotográfico, ofício que exerceria até o fim da vida, em 1990. Contudo, mesmo longe das telas, seu olhar permaneceu profundamente cinematográfico. As fotografias que produziu revelam apuro com enquadramento, iluminação, cenografia e composição visual.


COMUNICAÇÃO NO OLHAR

“Mais do que reconstruir a imagem de uma artista esquecida, o processo de criação do mural na lateral do Hotel Bela Vista revelou uma personagem que continua profundamente ligada à identidade cultural de Cataguases”, afirma David Arranhado.


Foi então que surgiu no artista português a ideia de trabalhar com um grande retrato centrado no olhar. Interessava a ele criar uma imagem capaz de estabelecer relação direta com quem passa pela rua, como se a própria Eva continuasse presente na cidade, observando e dialogando com as pessoas.


“Durante o período de pesquisa, percebi que existia um interesse renovado pela trajetória dela. Só neste ano, Eva Nil foi tema de documentário, e a própria cidade mantém viva sua presença por meio de iniciativas culturais, exposições e acervos históricos que ajudam a compreender melhor sua importância para a história local e para o cinema brasileiro”, conta.


O documentário a que ele se refere é “O silêncio de Eva”, da cineasta Elza Cataldo, com Inês Peixoto, Eduardo Moreira e Bárbara Luz. Inicialmente concebido como ficção, o projeto assumiu a forma documental, apresentando o percurso da pesquisa da equipe, com seus acessos e limitações.

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O filme reúne fotografias, imagens de Cataguases e entrevistas com pesquisadores sobre o ciclo cinematográfico da cidade, a obra de Humberto Mauro, o trabalho de Pedro Comello e a presença feminina no cinema. Há também depoimentos raros, como o de uma pessoa fotografada por Eva depois que ela já havia abandonado as telas. 

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