Em uma conquista histórica para a ciência brasileira, a pesquisa liderada por Camila Barbosa, Luna de Lacerda e Caroline Junqueira, do Centro de Tecnologia de Vacinas (CTVacinas), - com colaboração da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Fiocruz Minas - publicado nessa quarta-feira (8/7), abre caminho para o desenvolvimento de uma vacina universal contra a malária, capaz de oferecer uma proteção muito mais ampla, duradoura e eficaz do que as tecnologias atuais.
O caminho até essa descoberta foi longo. Foram 15 anos de dedicação, começando como um estudo de pesquisa básica — focado em entender como a biologia funciona no nível celular, sem a intenção imediata de criar um produto para o paciente.
"O objetivo inicial era entender os mecanismos celulares para, posteriormente, elaborar terapias", explica a pesquisadora principal, Caroline Junqueira, da Fiocruz Minas. O foco do grupo foi o Plasmodium vivax, a principal causa de malária no Brasil, nas Américas e na Ásia.
Essa escolha é crucial: embora existam duas vacinas aprovadas hoje no mundo, elas focam apenas na espécie africana (Plasmodium falciparum) e têm limitações severas.
Segundo Caroline, as vacinas atuais apresentam uma eficácia baixa (entre 30% a 50%), são restritas a crianças menores de 5 anos na África, exigem quatro doses e não cobrem todas as variações do parasita. Mesmo assim, são utilizadas porque salvam milhares de vidas anualmente.
Diferente da abordagem tradicional de cinco décadas focada em anticorpos — que tentava barrar o parasita antes de ele entrar nas células, sem sucesso —, as pesquisadoras brasileiras descobriram um mecanismo de resposta imune totalmente novo.
Descoberta e inovação
O grande mistério da imunologia era descobrir como acionar os linfócitos T CD8+, células de defesa que funcionam como a "tropa de elite" do nosso corpo. Ao contrário dos anticorpos, eles conseguem invadir a célula infectada e destruir o parasita lá dentro.
A ciência acreditava que as células vermelhas do sangue eram incapazes de avisar o corpo de que estavam infectadas. A descoberta da equipe brasileira foi notar que o P. vivax infecta as células vermelhas jovens, que possuem propriedades diferentes das maduras.
As pesquisadoras comprovaram que essas células jovens conseguem colocar uma espécie de "bandeira vermelha" do lado de fora, avisando a tropa de elite do corpo. Ao identificarem a célula infectada, os linfócitos T chegam bem perto e liberam moléculas que destroem o alvo — um processo que os cientistas chamam de "beijo da morte".
Para mapear quais eram os sinais exatos que as células infectadas usavam para pedir ajuda, as pesquisadoras usaram uma tecnologia avançada chamada imunopeptidômica.
Com esse aparelho, elas conseguiram olhar através dos disfarces do parasita e descobriram 453 pistas inéditas (pedaços de proteínas), abrindo os olhos do sistema imune para 166 proteínas do Plasmodium vivax.
A grande inovação é que essas proteínas internas são conservadas ao longo de todas as fases do parasito — que assume mais de 20 formas diferentes no corpo humano — e entre as diferentes espécies, como o P. vivax, o P. falciparum e outros plasmódios que infectam humanos, macacos e camundongos.
Isso permite criar uma vacina universal, capaz de oferecer proteção a todos os tipos diferentes da doença.
A pesquisa foi 100% realizada com amostras de pacientes voluntários. Os alvos foram validados com sucesso em amostras de pessoas do Brasil, do Mali e dos Estados Unidos.
Próximos passos e a urgência climática
O laboratório já produziu a vacina e validou o modelo em diversos cenários, comprovando que a substância induz uma resposta imunológica robusta. Até o momento, das 166 proteínas descobertas, 10 já foram testadas com sucesso, restando 156 para serem exploradas pelas próximas décadas.
O próximo passo fundamental é levar o imunizante para os testes clínicos em humanos, o que depende da liberação da Anvisa e do recebimento de investimentos. A previsão otimista é que esses testes comecem em 1 ou 2 anos.
Caroline destaca que a descoberta chega em um momento crucial para o planeta. Segundo ela, globalmente, a malária mata cerca de 700 mil pessoas por ano. No Brasil, a doença ocorre principalmente na região amazônica, fortemente associada ao ambiente da floresta.
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No entanto, o aquecimento global está mudando a realidade epidemiológica do mundo, criando condições favoráveis para que mosquitos e parasitas se propaguem por novas áreas. Diante dessa ameaça crescente, os cientistas são categóricos: a vacina sempre será a melhor opção para controlar a doença e salvar vidas.
