SUPER EL NIÑO

Fenômeno projeta seca severa, calor e chuva concentrada em Minas

Modelagem feita pelo EM com ajuda de especialistas indica que o extremo climático causará no estado temperaturas típicas de cidades do Nordeste

Publicidade
Carregando...

Cenários de destruição complementares, em que o castigo da seca e dos incêndios florestais abre terreno para chuvas em pancadas bruscas, alagamentos, ameaças a barragens e erosão do solo. A secura vem com calor, que pode elevar as médias da primavera e tornar Belo Horizonte tão quente quanto São Luís, no Maranhão, com até 31,9°C, e Montes Claros esturricar a 36,4°C, como se fosse Teresina, no Piauí. Essas projeções são parte dos impactos que um super El Niño pode trazer a Minas Gerais, segundo modelagem de aquecimento global feita pela reportagem do Estado de Minas em colaboração com especialistas e que simula os efeitos do fenômeno, que já está ativo e deve se intensificar até setembro.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O ESTADO DE MINAS NO Google Discover Icon Google Discover SIGA O EM NO Google Discover Icon Google Discover


Isso ocorrerá num contexto em que vários municípios mineiros já têm registrado as temperaturas mais altas do país, superiores às de cidades nordestinas. Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha, entrou para a história em 19 de novembro de 2023 ao registrar 44,8°C, a maior temperatura já medida no Brasil, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).


Em março de 2025, quatro municípios mineiros foram os mais quentes do Brasil: São Romão (Norte) marcou 38,2°C; Araçuaí, 38,1°C; Pirapora (Norte), 37,6°C; e Nova Porteirinha (Norte), também 37,6°C. A reportagem do EM também registrou, em 26 de setembro de 2023, de forma empírica, calor de 40,2°C na Regional de Venda Nova, em Belo Horizonte, em meio a onda de calor.


Para simular as repercussões de um super El Niño sobre o estado, o professor Antoniel Fernandes, dos departamentos de Geografia e de Ciências Biológicas da PUC Minas, orientou o uso do simulador do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da Organização das Nações Unidas (ONU). A análise foi feita com base na mais recente geração de modelos climáticos globais (CMIP6), utilizando o quadro de elevação da temperatura média global em +2°C (considerado moderado pela comunidade científica) como indicador dos impactos e extremos que podem ser sentidos sob o estresse térmico do fenômeno.


Os dados desenham uma amplificação drástica de extremos climáticos no qual Minas Gerais sofrerá com uma seca severa e prolongada durante o restante do inverno (julho e agosto) e a primavera (setembro a novembro), seguida por um verão (dezembro a fevereiro) onde o volume total de chuva aumenta, mas a água cai de forma violenta e concentrada.


O solo ressecado, por até 17 dias extras de estiagem e temperaturas quase 3°C mais altas na primavera, perde sua capacidade de absorção. Quando as chuvas extremas de verão chegam (com picos de até +13,2% em um único dia), a água escoa sobre a superfície, maximizando o potencial de enchentes, perda de safra e desastres geológicos.


“O El Niño é o aquecimento anormal das águas equatoriais do Oceano Pacífico (acima de 0,5°C) e traz efeitos a boa parte do globo. Em Minas Gerais, as consequências de forma geral são a redução das chuvas e o aumento da temperatura”, indica o professor Antoniel Fernandes.

CIENTISTAS EM ALERTA

No caso do super El Niño – que na meteorologia é classificado como El Niño muito forte – a temperatura da superfície do Oceano Pacífico precisaria sofrer um aumento acima de 2°C. O fenômeno causa um bloqueio das chuvas no Norte e Nordeste do Brasil, deixando a umidade concentrada no Sul e causando tempestades severas.


No boletim de junho de 2026, a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA, em inglês) dos Estados Unidos, que é quem faz essas medições, encontrou temperaturas de até 0,9°C acima da média. O órgão estima em 63% a chance de um super El Niño (muito forte) entre novembro de 2026 e janeiro de 2027.

------------------------------------------------------------

31,9°C

É a temperatura que BH pode atingir

-----------------------------------------------------------


Mas não há consenso sobre o super El Niño. Em debate na 7ª Parecis SuperAgro, o meteorologista Luiz Carlos Molion, pesquisador sênior aposentado do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) disse que o aquecimento do Oceano Pacífico pode ter sido causado por uma redistribuição das águas quentes após um grande terremoto no mar da Rússia. "Existe uma contrapartida na atmosfera, chamada oscilação sul. A atmosfera não está respondendo. Pode ser que realmente não haja El Niño nenhum. É melhor esperar um pouco mais porque é um período de transição”, disse.


Mas caso o fenômeno ocorra com toda a sua magnitude, já se sabe onde os efeitos serão mais devastadores. “Nas regiões Norte e vales dos rios Jequitinhonha e Mucuri, a redução da precipitação castiga uma região onde já chove menos e traz um retardo da chegada das chuvas da primavera, ao fim de setembro. Pode gerar períodos de veranico prolongados, que são estiagens dentro da estação chuvosa. Podem ocorrer elevações de temperatura acima das normais climatológicas com aumento de ondas de calor que ultrapassam cinco dias e afetam muito a Região Metropolitana de Belo Horizonte em áreas de população mais vulnerável”, avalia o professor Antoniel Fernandes, da PUC Minas.


RECURSOS HÍDRICOS

Os impactos simulados pela modelagem do IPCC mostram que a capital mineira tenderia a se aquecer 2,4°C acima das médias da primavera, podendo registrar, assim, média das temperaturas máximas de 29,5°C para 31,9°C, muito semelhante ao calor diário de São Luís (MA), que é de 32°C no período da primavera (setembro a novembro), mas sem o alívio da brisa marítima e ainda os efeitos de ilhas de calor e baixa umidade.


“O retardo das chuvas da primavera lança preocupações sobre a gestão dos recursos hídricos e do abastecimento dos sistemas Paraopeba e Rio das Velhas. Agora no inverno, começamos a usar mais os reservatórios. Mas sem as chuvas para repor a água no fim de setembro, o abastecimento sofrerá uma pressão mais severa. O entorno da RMBH é de vegetação muito seca e esse prolongamento da estiagem favorece os incêndios florestais. Além da destruição natural, a fumaça lançada em uma atmosfera que já está com baixa umidade fragiliza a saúde”, destaca Fernandes.


Impactos semelhantes em Juiz de Fora, na Zona da Mata, onde a média das máximas pularia de 27,5°C para 30,1°C, muito próximo ao que se tem em Salvador, na Bahia, por exemplo.


Juiz de Fora e BH sofreriam também no verão, com o aumento de +11% a +13% na intensidade das pancadas de chuva de um único dia, em locais com uma topografia de morros e solo impermeabilizados. O resultado é a saturação rápida da drenagem urbana, inundações de vias de trânsito carregadas e alto risco de deslizamentos de terra em áreas de risco (aglomerados e encostas).


“As chuvas vão ficar muito concentradas em dezembro, janeiro e fevereiro. Um indicativo de teleconexões com El Niño. Chuvas mais intensas, mais concentradas em poucos dias. Uma situação que pode levar a enchentes e inundações”, indica o professor.

Boletim do Inmet 

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

 No primeiro boletim sobre o super El Niño neste ano, divulgado no último dia 29 de junho, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) traçou a previsão climática para o trimestre de julho a setembro no Brasil. A expectativa, segundo o órgão, é de chuvas acima da média em áreas no sul e abaixo da média no centro-norte, além de alta probabilidade de temperaturas acima da média na maior parte do Brasil no segundo semestre, que podem aumentar a ocorrência de ondas de calor e incêndios florestais. O documento foi elaborado em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), o Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden), o Serviço Geológico do Brasil (SGB) e a Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec).

Tópicos relacionados:

calor clima defesa-civil el-nino minas-gerais

Acesse o Clube do Assinante

Clique aqui para finalizar a ativação.

Acesse sua conta

Se você já possui cadastro no Estado de Minas, informe e-mail/matrícula e senha. Se ainda não tem,

Informe seus dados para criar uma conta:

Digite seu e-mail da conta para enviarmos os passos para a recuperação de senha:

Faça a sua assinatura

Estado de Minas

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Aproveite o melhor do Estado de Minas: conteúdos exclusivos, colunistas renomados e muitos benefícios para você

Assine agora
overflay