Após levantamento sobre confrontos de facções e gangues pelo controle das atividades criminosas em Minas Gerais, o governador Mateus Simões (PSD) respondeu aos questionamentos da reportagem do Estado de Minas, detalhando quais são os pontos de estrangulamento das atividades que financiam as organizações criminosas. Simões afirma que a missão é empurrar esses grupos para fora do estado e diz que o fato de se agredirem não é uma preocupação, desde que não levem essa violência para os cidadãos. Confira a seguir os principais trechos da entrevista.
O ano de 2026 apresentou um salto em operações e ações de combate às facções que estenderam sua guerra a Minas Gerais, sobretudo entre janeiro e fevereiro. Esse aumento é uma estratégia com foco nas facções ou confrontá-las é uma consequência de sua presença ampliada?
Nós, desde o fim do ano passado, tomamos a decisão de organizar grupos de trabalho para sufocar as linhas de financiamento do crime organizado. São seis grupos focados nas seis grandes atividades do crime organizado hoje no Brasil. Todas elas, infelizmente, estão presentes de alguma forma em Minas Gerais, em ordem de importância para eles: os crimes eletrônicos, que concentram a maior atividade econômica do crime organizado hoje; seguidos da falsificação e comércio clandestino de combustível; falsificação e comércio clandestino de bebidas; tráfico de drogas; compra e venda de cigarros clandestinos ou falsificados; e, por fim, comércio de ouro. Com base nesses grupos de trabalho, organizamos operações que foram sendo desencadeadas no começo deste ano. Então, isso já é, na verdade, resultado de um primeiro esforço de inteligência feito no ano passado, quando eu, ainda como vice-governador, retomei os trabalhos do Conselho de Defesa Social do estado sob minha presidência.
O governo tem um mapeamento de quantas gangues e facções atuam em Minas e em BH? O que mostram os informes e mapeamentos existentes?
Temos um mapeamento completo feito por cada uma das forças de segurança. A leitura das forças é diferente sobre a realidade criminal. A Polícia Civil tem interesse nas teias de relacionamento; a Polícia Militar, na violência acontecida na rua; enquanto a Secretaria de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) se concentra na situação dos presídios e na interconexão de cada unidade ou dos presidiários com atividades criminosas externas.
A gente vem unificando a leitura desse banco de dados, pois, apesar de os bancos de dados serem consultáveis de uma força pela outra, têm uso diferente por cada uma delas. Por isso, esses grupos de trabalho foram formados no ano passado, para que a gente pudesse dar um senso de combate ao crime organizado de forma mais estruturada.
Mas, respondendo concretamente: sim, nós temos uma leitura de quantas são as gangues em cada uma das regiões, onde elas estão localizadas. E, quanto às grandes facções, nós, obviamente, lidamos com as três grandes facções em Minas Gerais, as três grandes do Brasil. O PCC, o Comando Vermelho e o Terceiro Comando Puro, com atuações em lugares diferentes do estado e em disputa territorial em algumas regiões que têm levado a uma ação específica nossa, por conta da violência, que pode colocar as pessoas do entorno em risco.
Sobre as operações que têm sido desencadeadas, quais os alvos mais importantes?
É importante separar operação de cumprimento de mandado de operação estruturada, porque a operação que busca um alvo normalmente está ligada a um processo, a uma investigação. Algumas operações muito importantes aconteceram no ano passado. Nós tivemos uma grande operação no Nordeste, com prisões muito importantes; uma grande operação no Norte do país, com prisões no Pará.
Tivemos duas grandes operações no ano passado no Rio de Janeiro e uma neste ano também, todas elas buscando alvos que são lideranças de facções. Mas eu tenho certeza de que a operação mais importante até agora é a Operação Cerco Fechado.
Antes dela, a operação de ocupação da Serra (Aglomerado na Serra, na Região Centro-Sul de BH). Mas, atualmente, é a Cerco Fechado, porque ela não está mirando um criminoso, uma linha investigativa, e sim a atividade do crime organizado, em uma lógica de sufocar as linhas de alimentação financeira do crime organizado, em vez de investigar um crime que tenha sido praticado. O problema das organizações criminosas é exatamente este: elas são organizadas, praticam crimes o tempo todo, de forma continuada e estruturada, o que dificulta a investigação e a interrupção da prática criminosa quando você vai atrás de um único crime específico.
Qual passa a ser o foco das ações, então?
O que a gente tem é de cortar as linhas de abastecimento, o que significa empurrar fisicamente as facções para fora do território onde elas estão e, obviamente, com o trabalho de inteligência, cortar as linhas de financiamento e lavagem de dinheiro que elas têm estruturadas. Aliás, por falar em linhas de lavagem de dinheiro, tivemos uma enorme operação no começo do ano passado em Juiz de Fora, talvez a maior já feita até hoje contra a lavagem de dinheiro do crime organizado, com mais de 50 mandados cumpridos só na cidade, demonstrando uma rede de lavagem de dinheiro que havia ali, na mesma linha da operação que nós fizemos depois no Norte, onde eram usadas redes de pescado, venda de pescado e guarda de pescado para lavagem de dinheiro.
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Lavagem de dinheiro é o que mais demanda trabalho de inteligência hoje. Infelizmente, um trabalho que vem sendo atrapalhado pelo Supremo Tribunal Federal. Por uma decisão do ministro Alexandre de Moraes, para proteger bandido, ficamos proibidos de usar os relatórios de inteligência do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) nas investigações da polícia.
Algumas comunidades de BH se destacam pela violência dos conflitos de facções. Há algum trabalho específico, regime especializado, medidas ou configurações particulares nessas comunidades?
Sempre atuamos quando há mapeamento de conflito, na busca de evitar que o conflito extrapole a disputa entre as facções e possa colocar civis em risco. Mas, definitivamente, a garantia da segurança de faccionados não é uma preocupação do governo. A preocupação do governo é garantir que os faccionados não atuem dentro do território. Então, a nossa atuação no momento do conflito deles não decorre da preocupação com o fato de eles estarem se agredindo. É a preocupação com o fato de a população comum correr risco nesse momento. As grandes intervenções que nós fizemos em Araguari (Triângulo Mineiro) e em Teófilo Otoni (Vale do Mucuri) têm por objetivo interromper a disputa de território entre Comando Vermelho e PCC.
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A mesma coisa ocorreu com a grande operação na Serra (em BH). A Serra foi escolhida como alvo inicial da atuação de presença do Estado devido a um conflito de território também movido pelas franquias do Comando Vermelho contra o PCC. E o Terceiro Comando Puro acaba também se envolvendo em algumas disputas territoriais menores, mas que igualmente levaram à nossa atuação.
Ele conseguiu a adesão de estruturas um pouco mais pacificadas, vamos chamar assim, nos aglomerados em que está se inserindo. Mas eu volto a dizer: nossa preocupação nesta hora não é se eles estão em guerra entre si. Eles não podem estar presentes no nosso território. E, quando em guerra entre si, não podem colocar a vida de absolutamente ninguém em risco.
