O topógrafo Admilson de Jesus Correa, de 45 anos, foi encontrado na noite de quinta-feira (11/06), após permanecer cerca de 30 horas desaparecido Parque Nacional do Peruaçu, no município de Januária, no Norte de Minas. Ele revelou, com exclusividade ao Estado de Minas, que percorreu a pé mais de 40 km de mata fechada em terrenos acidentados dentro da unidade de conservação.
Admilson conta que teve sorte, pois durante o período em que esteve perdido na área de difícil acesso encontrou, jogadas no interior da mata, uma lanterna carregada e uma garrafa pet com dois litros de água. Estes itens foram fundamentais para a continuidade da sua caminhada e sobrevivência.
Admilson, que é casado e natural de Diamantina (Vale do Jequitinhonha), perdeu-se numa área de difícil acesso do Peruaçu, por volta das 14 horas de quarta-feira (10/06), quando fazia um trabalho de georreferenciamento da unidade de conservação. No mesmo dia, uma força-tarefa formada pelo Corpo de Bombeiros, brigadistas do Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, servidores do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), colegas de trabalho e voluntários, iniciou buscas na região na tentativa de localizá-lo. Até um drone foi usado, sem sucesso.
O topógrafo foi encontrado quinta-feira (11/6), por volta das 20 horas, quando chegou andando a pé no povoado de Parapitanga (também no município de Januária), vizinho à área do Parque. Ele apareceu e foi acolhido pelo morador Elmy Oliveira (que também é vereador em Januária). Elmy comunicou às equipes de buscas que o topógrafo estava em segurança, sob seus cuidados. Admilson passou por avaliação de saúde, e foi constatado que ele encontrava-se consciente, orientado, sem lesões aparentes e sem alterações clínicas relevantes, dispensando atendimento, conforme informou o Corpo de Bombeiros.
Na entrevista ao EM, nesta sexta-feira (12/6), da pousada onde está hospedado, junto à área de visitação do Peruaçu, Admilson detalhou que se perdeu depois de uma queda em um despenhadeiro no meio da mata. Ele disse que despencou e “rolou” cerca de cinco a seis metros morro abaixo. A queda não o machucou, mas, fez com que perdesse o canivete e o cantil de água.
O incidente, acabou o afastando do seu colega de trabalho, que andava a sua frente e não percebeu a queda do companheiro. “Gritei várias vezes, mas meu colega não ouviu e não tive resposta”, disse Admilson, acrescentando que também ficou sem comunicação, uma vez que tanto seu aparelho de GPS quanto o seu telefone celular estavam com baterias descarregadas.
O topógrafo contou que, ao perceber que estava perdido, começou a andar, procurando uma trilha que o levasse à saída da mata. Ele encontrou muitas barreiras - a área é acidentada, com vegetação fechada, grutas, formações rochosas e paredões. Admilson revela que conseguiu descer cerca de 50 metros em um despenhadeiro, até o leito de um rio, onde bebeu água.
Passou a noite em terreiro de uma casinha fechada
Sem conseguir atravessar o rio, retornou. Na sequência, encontrou uma antiga trilha morro acima e quando já era noite, por volta das 18h30, encontrou uma clareira no meio da mata. Na clareira, havia uma casa antiga abandonada. “Só que a casa estava trancada e não consegui entrar”, relata o topógrafo. “Encostei numa árvore e dormi ali, no terreiro da moradia, no meio da floresta”, relata.
Admilson conta que na quinta-feira, acordou às 5h30 da manhã e começou a andar novamente, procurando trilhas no meio da mata. “Mas, deparei com um paredão e eu não tinha como transpor ele e voltei pra trás”, disse o topógrafo, detalhando que retornou, com dificuldade, ao terreno da casinha onde tinha passado a noite. Disse que no local, chegou a tomar água em um recipiente ao ar livre, que seria para “o gado beber”.
Garrafa pet de água e lanterna encontradas no meio do mato
Admilson relata que continuou caminhando no meio da vegetação fechada, pelo terreno de relevo acidentado e cheio de obstáculos. Por volta das 16h40, quando estava com muita sede, ele encontrou no meio da mata, uma garrafa pet de dois litros cheia de água. Imediatamente, pegou a garrafa e começou a beber. Ele considera que foi isso que o ajudou a manter suas forças para continuar andando.
“Segui por uma trilhadinha. Depois que caminhei mais uns 200 metros encontrei uma lanterna, que estava carregada e funcionando”, descreve. Ele afirma que quando escureceu, passou a usar a lanterna, mantendo a caminhada no meio do mato. “Encontrei uma nova trilha e saí em um pasto, atravessei uma cerca e cheguei numa cancela, junto a uma mata muito fechada, perto de um buraco”, revela Admilson.
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“Eu estava me preparando para dormir, pois iria evitar me locomover a noite, para manter a minha integridade física e evitar quebrar a perna em uma queda, por exemplo”, disse.
Porém, ele mudou de ideia depois que subiu a um ponto alto, de onde chegaram luzes. Também ouviu latido de cachorro´, o que era indício da presença de ocupação humana. “Aí, comecei a andar com o uso da lanterna”.
Alívio ao encontrar povoado
Já eram 20 horas de quinta-feira (11/6), quando Admilson passou em um curral e se aproximou de um povoado com algumas casas. Era a localidade de Parapitanga, onde ele deparou com o morador Helmy Oliveira. Ali terminava uma verdadeira odisseia de 30 horas de angústia no meio do mato.
O topógrafo afirma que, apesar de ter ficado perdido em uma área de difícil acesso e dos perrengues que enfrentou, em nenhum momento entrou em desespero, mantendo sempre a esperança de que iria sobreviver e voltar ao trabalho e à vida normal. "Estou tranquilo. Dentro da topografia, na nossa profissão, a gente precisa se preparar para essas adversidades. A gente nunca sabe o terreno que vai pegar”, argumenta.
Medo de animais selvagens e calma
Ele admite que durante o período em que esteve perdido na mata fechada do Peruaçu, suportou bem a falta de alimentação – “eu não sentia fome”. Também teve medo de ataques de animais selvagem mas, manteve a calma o tempo todo. “Eu tinha certeza plena de que, cedo ou mais tarde, eu iria sair da floresta. Tinha esperança de que iria sair daquela mata. Em várias vezes, pedi a Deus para me dar um ponto de equilíbrio para me sair bem e foi isso que aconteceu”, declara.
“Quando o morador (Helmy) me falou que tinha saído reportagem em jornal, que tinha uma equipe grande do Corpo de Bombeiros se mobilizando para me procurar, aí, que eu vi a gravidade da situação. Até então, prá mim, estava tudo tranquilo, pois eu achava que só depois de passar 72 horas e eu não aparecer, que iriam passar a me procurar”, confessa Admilson.
“Eu só tenho a agradecer ao Corpo de Bombeiros, ao pessoal do Parque (do Peruaçu) e aos meus colegas que se preocuparam comigo. Quando acontece uma coisa dessa que a gente percebe o quanto a gente é querida. Na verdade, vivemos em família”, assegura o topógrafo.
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“Sinal da presença de Deus”
Admilson afirma que teve muita sorte e que foi abençoado. “Tenho muito a agradecer a Deus. Eu não tinha água e não tinha um norte, um caminho para seguir. De repente, achei uma garrafa com dois litros de água e uma lanterna totalmente carregada no meio do mato. Isso é sinal da presença de Deus”, conclui.
