Itabirito – Um rombo na cobertura de árvores no domínio do bioma mata atlântica, com pelo menos 22 hectares, aparece nas imagens de satélite de 2025 em uma área cortada pelo Rio das Velhas em Itabirito, na Região Central de Minas Gerais, ao Sul da Grande BH. Olhando do solo, o que se vê é devastação. Onde deveria haver árvores de pé em meio à vegetação menor, foram abertas estradas agora empoeiradas, trilhas intrincadas e vastas pastagens de capim que se interligam. A paisagem está longe de ser um evento isolado: é amostra da realidade de Minas Gerais a partir do município com pior média de desmate na Área de Proteção Ambiental Sul (APA Sul) Metropolitana. Um quadro que em nível estadual mescla repique no índice de desmatamento e dupla agressão à cobertura vegetal, avançando tanto sobre florestas intocadas quanto sobre áreas em regeneração.
Considerando-se todo o estado, a área de desmatamento médio anual no início da década de 2020 (2021 a 2024) superou em 20,3% a extensão já derrubada no decênio anterior (2011 a 2020), passando de 159.141 hectares anuais para 191.551 hectares. No dia muncial dedicado ao meio ambiente, é o que mostra um levantamento feito pela reportagem do Estado de Minas com base em dados da rede de universidades, institutos e ONGs MapBiomas (confira infográfico) e avaliações da associação ambientalista sem fins lucrativos The Nature Conservancy (TNC) Brasil.
A avaliação entre as décadas mostra uma preocupante reversão de tendência. Entre 1987 (primeiro ano da série de dados) e 1990, o desmatamento médio anual era de 403.120 hectares. Dali em diante, foram vários ciclos de quedas de áreas cortadas, com 297.820 hectares, entre 1991 e 2000; 207.072 hectares, de 2001 a 2010; e o menor patamar, entre 2011 e 2020, de 159.141 hectares.
A ampliação do desmatamento entre 2021 e 2024 inaugurou também uma inversão histórica da curva de degradação: enquanto o desmatamento total caía ao longo das décadas, o foco da exploração mudou. No fim dos anos 1980, 99% do desmatamento ocorria sobre florestas intocadas, as chamadas matas primárias.
Na década atual, pela primeira vez na série histórica, as matas em regeneração (secundárias) se tornaram o principal alvo da devastação, respondendo por 53% da área desmatada no período de 2021 a 2024. A média de desmatamento de mata primária também voltou a subir no comparativo com a década anterior, de 87.373 hectares para 90.394 hectares (+3,5%).
Corte na restauração
Derrubar a mata secundária de forma tão intensa significa cortar o ciclo de restauração de áreas verdes. Aliadas a isso, a estabilização ou alta no desmatamento de mata primária mostra que o que restou de intocado continua sob forte ameaça em Minas Gerais. A avaliação é do engenheiro florestal Rubens Benini, mestre em engenharia ambiental pela Universidade de São Paulo e líder da estratégia de restauração florestal na TNC Brasil.
“Do ponto de vista da biodiversidade, perder matas primárias é bem pior do que perder floresta secundária. Uma floresta madura abriga bastante fauna e tem um valor genético muito expressivo, não só das árvores, mas também de cipós, bromélias, orquídeas, sem contar toda a fauna que a permeia”, afirma.
“Mas perder florestas secundárias é muito ruim também. Porque se perde a conectividade, ao diminuir os corredores ecológicos, e isso prejudica muito o fluxo genético da fauna. Ou seja, animais ficam encapsulados em remanescentes florestais e, não dispondo de variedade genética, se reproduzem entre si, cruzam com parentes e isso acaba gerando defeitos genéticos”, analisa Benini.
Regeneração derrubada
O estudo “O retorno das florestas”, que reuniu 16 pesquisadores de 14 instituições sob a coordenação do Pacto pela Restauração da Mata Atlântica e com a participação da TNC Brasil, aponta que 1,67 milhão de hectares de vegetação nativa foram recuperados entre 2011 e 2021, com 75% desse total ocorrendo por meio de regeneração natural. As áreas que mais concentram essa recuperação são os estados de Minas Gerais (26,4%), Paraná (18,6%), Bahia (12,9%) e São Paulo (12,7%).
O levantamento identifica, no entanto, que 568 mil hectares dessas novas florestas não sobreviveram até 2023. O dado representa uma supressão média de quase 50 mil hectares por ano de vegetação que não atingiu a maturidade necessária para consolidar seus benefícios ambientais.
Um dos autores, Benini destaca que a manutenção das matas é aliada da produção e da oferta de água, enquanto o desmatamento, que pode parecer ampliar a oferta de produção no curto prazo, acaba sendo prejudicial para abastecimento e irrigação.
“Do ponto de vista de conservação do solo, de manutenção do ciclo hidrológico, da segurança hídrica e alimentar, as áreas com regeneração natural funcionam para combater as mudanças climáticas. Sem as coberturas, o solo sofre erosão e os sedimentos podem ir parar em nascentes e cursos de água. A chuva que não penetra nesse solo, porque corre rapidamente, não abastece os lençóis subterrâneos que permitem que rios e lagos se mantenham abastecidos nas épocas de estiagem”, destaca o engenheiro florestal.
Como proteger?
Uma das formas de se proteger a vegetação em áreas como a mata atlântica, na visão do engenheiro florestal, seria o pagamento a proprietários pelos serviços florestais, com a preservação de matas em suas propriedades. “A conservação da floresta atlântica e a recuperação dela não ocorrem se a gente não tiver o engajamento do principal ator disso tudo, que é o dono da terra, o produtor rural”, analisa.
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“Uma das formas é reconhecer, remunerar, incentivar economicamente com pagamento de serviço ambiental, por exemplo, como o governo de Minas Gerais já foi referência em fazer, no passado. Outra maneira é fazer com que o Código Florestal seja implementado, 14 anos depois de promulgado. O poder público precisa fiscalizar se os donos de terra estão recuperando seus passivos ambientais”, completa Rubens Benini.
