VERDE EM RISCO

Degradação ameaça a bacia do Rio das Velhas

Desmate em municípios como Itabirito, que tem a maior média na APA Sul, atinge áreas de córregos e nascentes que abastecem importante fonte de água da Grande BH

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Itabirito – O desmatamento que se destaca como um buraco na cobertura vegetal identificado pelas imagens de satélite em propriedade próxima ao Rio das Velhas, em Itabirito, ao Sul da Grande BH, integra um contexto preocupante naquele que é o município da Área de Proteção Ambiental Sul (APA Sul) Metropolitana com a maior média anual de desmatamento na década de 2020 (2021 a 2024). As imagens de satélite são da ONG internacional Global Forest Watch e configuram uma perda arbórea de 22 hectares apenas entre 2024 e 2025.

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Neste início da década, foram perdidos anualmente em Itabirito 353,98 hectares de vegetação, em média. A título de comparação, essa área equivale a uma vez e meia toda a extensão do Parque das Mangabeiras (250 hectares), em Belo Horizonte, a segunda maior unidade de conservação em meio urbano do Brasil, perdendo apenas para a Mata da Tijuca (RJ).

A extensão devastada em Itabirito é 46,6% maior do que na década anterior (2011 a 2020), quando a média era de 241,50 hectares. E o pior é que o dano se concentra sobre mata intocada (primária), que abrange 81,28% de tudo que foi derrubado no município.

A propriedade mapeada pelos satélites com o rombo gerado por supressão de árvores se encontra na área de drenagem do Córrego do Retiro, que chega ao Rio das Velhas em ponto que fica a 30 quilômetros da estação de tratamento de água da Copasa em Honório Bicalho, Nova Lima, responsável pelo abastecimento de 48% da Grande BH (2,7 milhões de pessoas) e 70% da capital (1,6 milhão de habitantes).

Três nascentes dentro da propriedade com área desmatada alimentam o Córrego do Retiro, correndo dentro de áreas de preservação permanente (APPs). O segmento que recebe esses corpos hídricos fica a 1,6 quilômetro da nascente do córrego e a 2 quilômetros da foz, no Rio das Velhas. São pequenos, sendo dois de pouco mais de 400 metros de comprimento e um com menos de 600 metros.

A estação de medição do Índice de Qualidade das Águas (IQA) do Rio das Velhas mais próxima à foz do Córrego do Retiro fica 7 quilômetros adiante, e registra conceito de pureza médio, em escala dividida entre excelente, bom, médio, ruim e péssimo. O IQA mede se as águas superficiais apresentam concentrações adequadas de oxigênio dissolvido, Escherichia coli (bactéria intestinal presente no esgoto), pH, demanda bioquímica de oxigênio, nitratos, fosfato total, variação da temperatura, turbidez e sólidos totais.


“Só uma limpeza”

O local do desmatamento se encontra no domínio do bioma mata atlântica, segundo a Lei 11.428/2006. A área como um todo varia entre uma mata em estado intermediário para avançado de recuperação, com sérias restrições para intervenções, e outra área considerada de pastagens, na qual parte vinha se regenerando, pelo menos desde 2015, segundo o histórico das imagens de satélite. O proprietário do terreno se defendeu e disse à equipe do EM que fez “só uma limpeza de pasto”.

A região conta com espécies ameaçadas da flora, como a arnica-da-serra, arbusto rústico com folhas densas e flores de cor rosa ou roxa. É extremamente adaptada a ambientes de solo raso e pedregoso, como os do Quadrilátero Ferrífero-Aquífero. Tem o status de espécie “vulnerável”, o que significa que pode ser extinta da natureza no médio prazo. A principal razão de ameaça em Minas Gerais é a perda de hábitat, ou seja, o desmatamento. Sua presença exige estudos de flora mais rigorosos para supressões vegetais e licenciamentos de atividades.

Itabirito é o município que atualmente mais destrói a floresta nativa na APA Sul, segundo os dados do MapBiomas. Mas não é o único onde a degradação é crescente. Na vizinha Nova Lima, a pressão imobiliária é implacável. Tanto que o desmatamento total médio subiu para 236,73 hectares nos últimos anos, o maior patamar de toda a série histórica (superando os anos 1980 e 1990). Destaca-se o corte de 195,51 hectares de mata primária, em média, por ano.

Em Rio Acima, o histórico era de desmatamento controlado e em queda (16,01 hectares entre 2001-2010), mas a cidade disparou em perdas vegetais no período recente, atingindo 77,12 hectares em média ao ano, majoritariamente de mata primária (86,49%).

Santa Bárbara havia conseguido reduzir o desmatamento para 87,86 hectares em média anual na década passada, mas viu a média/ano saltar para 249 hectares entre 2021 e 2024.

Há, também, municípios que historicamente destroem muito e mantêm a degradação em patamares elevados e preocupantes. Entre eles Brumadinho, que, embora abaixo dos níveis alarmantes do fim dos anos 1980 (253,06 hectares de média/ano), se estabilizou em patamar alto e destrutivo: 131,64 hectares de média recente, mantendo uma proporção de 70% de ataque à mata primária.

A capital Belo Horizonte mostra constância na degradação. Mesmo sem grandes áreas expansíveis, o desmatamento médio subiu de 15,43 hectares para 20,89 hectares de média/ano no período recente, mostrando que os últimos remanescentes urbanos da APA Sul estão sob forte ataque, com a perda de mata secundária dobrando.


O bom exemplo

Um exemplo positivo é Caeté. O município foi o maior desmatador no fim dos anos 1980 (357,47 hectares em média/ano). Década após década, os índices caíram drasticamente, registrando a menor média histórica recentemente: 64,67 hectares de média/ano. Ibirité também segue linha de queda constante, caindo de 42,40 hectares anuais em média para 9,65 hectares da década de 2010 para a de 2020. É também um município em equilíbrio no desmate de mata primária (51,8%) e secundária (48,2%).

A divisão por décadas e médias de desmatamento ajuda a isolar anomalias climáticas pontuais, respeita o tempo biológico de regeneração das matas secundárias, espelha as grandes transições legislativas e os ciclos macroeconômicos.

O critério considera desde o desenvolvimentismo pós-Constituição de 1988 (1987 a 1990), a estabilização e expansão monetária no contexto do Plano Real (1991 a 2000), o boom das commodities e sua pressão sobretudo no Quadrilátero Ferrífero-Aquífero (2001 a 2010), crise e novo Código Florestal (2011 a 2020) e o recente período de retomada econômica pós-pandemia (2021 a 2024).

Em termos legais, a criação da APA Sul Metropolitana ocorreu pelo Decreto Estadual 35.624, em 1994. A implementação da Lei da Mata Atlântica (Lei 11.428/2006) divide a década de 2001 a 2010. O Novo Código Florestal de 2012 inaugurou a dinâmica observada na década de 2011 a 2020.

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A Lei da Mata Atlântica e os códigos ambientais impõem restrições quase intransponíveis para o corte de vegetação primária, como são classificadas matas virgens ou florestas maduras, de ecossistemas estabelecidos, biodiversidade própria e capazes de reter a umidade e manter o solo protegido.

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