SANTANA DO RIACHO

Juquinha da Serra do Cipó é reinaugurado depois de denúncias de degradação

Estátua do andarilho que é um dos monumentos turísticos mais fotografados de Minas Gerais é restaurado depois de denúncias do Estado de Minas

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Com uma tesoura dourada nas mãos calejadas do sobrinho do Juquinha, José do Carmo, de 67 anos, a faixa azul foi cortada e a estátua do andarilho mais querido de Minas Gerais foi reinaugurada depois de descaso e vandalismo. Foram três anos de campanhas e denúncias para a estátua do Juquinha das Flores da Serra do Cipó, distrito de Santana do Riacho, na Região Central do estado, ser restaurada e entregue nesta quinta-feira (7/05).

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Foi necessária uma ação e acordo do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) e da mineradora Anglo American (proprietária do terreno), depois das denúncias de degradação feitas pelo Estado de Minas, desde 2023, para que o restauro fosse viabilizado.

Para poder receber à sua volta os viajantes e turistas que fazem questão do sorriso do andarilho das montanhas em suas fotografias, as intervenções levaram um total de cinco meses. Mas nada é fácil para o monumento do Juquinha. Assim que ficou pronta, a estátua foi novamente pichada e depredada, perdendo um pedaço da sua lapela, como denunciou novamente a reportagem do EM.

A Anglo American informou ter registrado uma ocorrência policial sobre o ataque ao patrimônio e providenciou os reparos e a limpeza. A estátua é monitorada 24 horas por um poste com câmeras de segurança alimentadas por placa solar e ligadas à internet, para alertar as autoridades sobre ataques e até mesmo riscos como os de incêndio da vegetação.

Contudo, a medida não foi suficiente para impedir o mais recente ataque ao Juquinha. A restauração era uma demanda dos habitantes locais e turistas justamente devido a outros ataques de vândalos, mas também à deterioração causada pelas intempéries, uma vez que a estátua do Juquinha fica exposta ao sol, vento, chuvas e à variação extrema de temperatura do alto das montanhas da Serra do Cipó.

“Para nós é uma emoção muito grande ver a imagem do nosso tio, do Juquinha, como a que a gente tem com a gente, que era a dele naqueles tempos. Ele ficava ali na região da estátua mesmo, fazendo as trocas e levando as flores que era o que ajudava no sustento. Minha lembrança era o jeito dele que fazia com que todos gostassem dele e dessem para ele os mantimentos e coisas que precisavam do para estar com ele”, disse José do Carmo.

A cerimônia reuniu autoridades locais e representantes da Anglo American, que fincanciou a reforma
A cerimônia reuniu autoridades locais e representantes da Anglo American, que fincanciou a reforma Mateus Parreiras/EM/D.A.Press

Emoção e cuidado anual

De acordo com a presidente da Anglo American, Ana Sanches, a restauração do Juquinha foi uma ação que encontrou respaldo ao que ela descreveu como sendo os valores da mineradora. “Para nós é muito importante a conexão com as comunidades vizinhas. O Juquinha foi muito importante para a região. Um símbolo de generosidade e de cuidado com a natureza. Então, a Anglo fazer parte do legado do Juquinha é muito ligado a como nós nos posicionamos como empresa, como nos relacionamos com as comunidades e o meio ambiente”, disse.

Segundo a criadora do Juquinha, a artista plástica Virgínia Ferreira, o sentimento com a reinauguração foi o mesmo do que teve quando a sua obra foi inaugurada 39 anos depois. “A obra merece essa reinauguração. Foi tombada em 2021 e vemos que os políticos, a população e os visitantes abraçaram esse personagem das montanhas. O Juquinha traduz muito do que é a Serra do Cipó. Está em equilíbrio com o meio ambiente.”

Ela conta que os acompanhamentos da situação da estátua devem ter uma frequência anual para que a necessidade de restauros tão profundos como o que foi feito não sejam necessários. “A situação estava muito crítica por todo esse tempo sem cuidados. Primeiro fiz um laudo sobre a situação estrutural. Fui sanando as trincas maiores, as ferragens enferrujadas, as perdas de partes e por ultimo aplicamos as camadas para igualar os tons e fazer a impermeabilização”, conta.

Em 10 de junho de 2023, a situação era crítica, como foi descrito pela reportagem do Estado de Minas: “São visíveis e generalizados os danos que a escultura sofreu com o passar dos anos e a falta de manutenção, incluindo ataques de vândalos. A escultura do Juquinha já perdeu o dedão da mão direita; uma fenda se abriu em uma das pernas, enquanto as beiradas do chapéu se quebraram. Nos braços, há buracos com mais de um dedo de largura e profundidade. O paletó também exibe avarias e trincas. Em algumas partes dos braços e pernas, os vergalhões de aço que dão forma à estrutura já estão expostos e enferrujando”, descreveu a publicação.

Apenas 13 dias depois da primeira reportagem, um novo ataque à estátua gerou mais uma denúncia. Desta vez, as costas da imagem tinham sido riscadas com canetão roxo, tendo sofrido também o mesmo tipo de vandalismo as pedras do calçamento no caminho para o monumento e a portaria de entrada para o restaurante que funcionava ao lado.

No mesmo ano, a Prefeitura de Santana do Riacho informou ter enviado ofícios para a mineradora Anglo American, dona do terreno onde fica a estátua, mas o acordo para a reforma só ocorreu após a quinta reportagem sobre a situação dramática do monumento. Em março de 2024, o Ministério Público de Minas Gerais e a Anglo American celebraram um acordo de restauro, melhorias e sinalização.

“A restauração foi uma construção de muitas mãos, de prefeituras, do MPMG, da Anglo e da comunidade. Quando assumi o primeiro bem que patrimoniais foi o Juquinha fizemos o dossiê ouvindo as famílias. O Juquinha se tornou um símbolo de resistência e de perseverança para a nossa região da Serra do Cipó. Temos um legado de manter a história vive e manter unida essa região”, disse o prefeito de Santana do Riacho, Fernando Burgarelli.

A encomenda do Juquinha foi feita em 1987 pelos prefeitos de Morro do Pilar, Clério Lima, e de Conceição do Mato Dentro. O filho de Clério, e atual prefeito de Morro do Pilar, Clério Lima Filho, o Clerinho, se emocionou.

“Homenagear um andarilho, uma pessoa simples é diferente de fazer isso para um famoso e meu pai teve essa sensibilidade, isso me emociona muito. Hoje é um dia de memória e respeito a nossa história. Décadas atrás, foi o meu pai que inaugurou o Juquinha e hoje sou eu que venho inaugurar. Hoje preservamos memória, preservamos cultura um ato de amor pela nossa história”, disse.

O prefeito de Conceição do Mato Dentro, na Região Central de Minas, Otacílio Neto, que é presidente da Associação dos Municípios do Médio Espinhaço considera o Juquinha um fator de união. “A gente celebra hoje um legado de união dos três municípios firmado lá atrás, em 1987, quando os prefeitos se uniram pela criação da estátua do Juquinha. Lembro de passando aqui ainda criança e meu avô contava que dava carona para o Juquinha e ele dando as flores e esperança.”

Mudança 

Mas tudo partiu de uma ação do Ministério Público estadual após as denúncias de vandalismo e degradação.

“Normalmente, o MPMG é provocado e atua sob demanda. Neste caso, foi pelo trabalho do EM, perseguindo este tema e mostrando a gravidade da situação. Vimos a situação da estátua e sabíamos que ela era tombada em nível municipal. Ela é um símbolo da Serra do Cipó. Quando vimos as reportagens, resolvemos atuar de ofício, em conjunto com a promotoria de Jaboticatubas (na Grande BH). Instauramos um procedimento de investigação, um inquérito civil, e foi nesse inquérito que as providências para a proteção desse símbolo mineiro foram tomadas”, disse o promotor de Justiça Lucas Trindade, responsável pelo início da ação.

“Como o terreno é da mineradora Anglo American, essa responsabilidade recaiu sobre eles e, assim, foi possível que esse patrimônio pudesse ser preservado”, afirmou o então coordenador do Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Justiça de Defesa do Meio Ambiente (Caoma), Carlos Eduardo Ferreira Pinto.

“Existe uma jurisprudência do TJMG (Tribunal de Justiça de Minas Gerais) que diz que a restauração de bens culturais é de responsabilidade do dono do terreno, ainda que os danos de depredações e vandalismo não tenham sido causados pelo proprietário”, reforçou também à época o promotor de Justiça Lucas Pardini Gonçalves.

No fim de 2020, a Anglo American comprou a área onde está instalada a estátua do Juquinha como compensação ambiental referente às atividades do empreendimento minerário Minas-Rio, localizado em Conceição do Mato Dentro e Alvorada de Minas, no Vale do Rio Doce. Mesmo antes da restauração atual, a mineradora destacou ter feito melhorias no local, como a instalação de sistema de monitoramento eletrônico 24 horas.

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Arte

Monumento histórico na Serra do Cipó passou por reforma estrutural completa após intervenção do Ministério Público de Minas Gerais. Obra sofria com a ação do tempo e vandalismo

Cronologia e destaques do processo de restauro

  • Primeiras denúncias: feitas pelo jornal Estado de Minas a partir de 2023
  • Estado da obra: perda de dedos, fendas nas pernas e vergalhões de aço expostos
  • Vandalismo: pichações com canetão roxo e danos ao calçamento do monumento
  • Mobilização da autora: Virgínia Fonseca propôs reforma e alertou para falta de patrocinadores
  • Atuação municipal: envio de ofícios pela prefeitura de Santana do Riacho à mineradora Anglo American
  • Intervenção jurídica: instauração de inquérito civil pelo MPMG após série de reportagens
  • Responsabilidade civil: decisão baseada em jurisprudência do TJMG sobre donos de terrenos
  • Acordo firmado: compromisso de restauro celebrado em março de 2024
  • Fases do trabalho: diagnóstico estrutural, limpeza e tratamento de ferrugem. Projeto foi aprovado e intervenções começaram em 2025
  • Melhorias no entorno: instalação de sistema de monitoramento eletrônico 24h pela Anglo American
  • Novo vandalismo: mesmo antes da reinauguração prevista para maio de 2026 o Juquinha foi novamente alvo de vandalismo denunciado pelo Estado de Minas, sendo mais uma vez restaurado
  • José Patrício, o Juquinha
  • Quem era o Juquinha: eremita que vivia entre Santana do Riacho e Conceição do Mato Dentro
  • Personalidade do andarilho: homem simples, acanhado e de expressão alegre
  • Hábitos de troca: oferecia buquês de sempre-vivas em agradecimento por pão ou fósforos
  • Vestimenta típica: uso de paletó para enfrentar o frio e sapatos furados pelas pedras
  • Acessório inseparável: capanga utilizada para guardar flores e alimentos
  • Origem do monumento: encomenda feita pelo então prefeito de Morro do Pilar
  • Criação artística: escultura produzida em 1987 por Virgínia Fonseca, com uso de cimento e aço, tem 3 metros de altura e 2,5 metros de largura
  • Localização geográfica: Santana do Riacho (MG), Região do Alto Palácio, a 110 metros da rodovia MG-010
  • Exposição climática: necessidade de manutenção constante devido às intempéries da serra
  • Símbolo regional: reconhecimento da estátua como patrimônio tombado em nível municipal

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