Passado e presente nas lentes de lambe-lambes
Em meio ao verde do parque municipal, no Centro de BH, pai e filho mantêm a tradição das fotos tiradas por uma "câmera caixote" e perpetuam o ofício reconhecido
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No coração da capital mineira, onde o asfalto encontra o Parque Municipal A mérico Renné Giannetti, o tempo parece seguir o ritmo de um antigo obturador. No refúgio verde, sob a sombra das árvores, Francisco Alves – não o famoso cantor, como gosta de ressaltar – mantém viva uma tradição. Conhecido pelos frequentadores do espaço como Chico Manco, o fotógrafo lambe-lambe, de 73 anos, exerce a profissão, reconhecida em 2011 como Patrimônio Cultural Imaterial de Belo Horizonte, desde 1963.
O guardião da memória coletiva da cidade não herdou o apelido de Chico Manco: ele o criou. Na década de 1980, cansado de ouvir cochichos sobre sua condição física, ele tomou as rédeas da situação. “Chega uma pessoa e fala: 'Ah, tem um retratista ali que tem um defeito mágico'. Eu falei: não tem defeito mágico, apenas manco. Eu mesmo coloquei esse apelido em mim”, conta.
A paixão de Chico Manco por registrar as dos visitantes do parque começou cedo, aos 10 anos. O convite partiu do vizinho, Antônio Rodrigues de Souza, já um fotógrafo lambe-lambe que trabalhava no local. A rotina do menino era dividida entre a escola e o parque. O que era um bico de criança tornou-se o propósito de uma vida inteira. “Eu estudava de manhã, saia da aula, ia em casa para almoçar e vinha para o parque trabalhar na parte da tarde”, recorda.
No início, as tarefas eram simples, mas fundamentais. Chico Manco ajudava nos processos de revelação das fotografias. Com o tempo, passou a aprender cada detalhe da profissão. “Comecei lavando os retratos dentro de um balde aqui no parque. E depois ele foi me ensinando cada processo. Aprendi tudo com ele. Ele foi minha inspiração. Foi quem me fez amar a fotografia", revela.
RETRATO PARA TODOS
A técnica do lambe-lambe, muito popular no Brasil no século XX, teve papel fundamental na democratização da fotografia no Brasil. Numa época em que ter uma câmera era privilégio de poucos, os fotógrafos de praça permitiam que qualquer pessoa tivesse um retrato, nem que fosse para colocar nos documentos oficiais.
A câmera permitia que a foto fosse feita e revelada no mesmo local, em cerca de 15 a 20 minutos. Montada sobre um tripé, o equipamento funcionava como um pequeno laboratório portátil, onde o negativo era revelado, fixado e lavado manualmente. As imagens eram em preto e branco e, quando o cliente desejava, a fotografia era colorida manualmente.
“Antigamente, nessa máquina a foto só era preto e branco, não saía colorido e para a foto ter cor a gente coloria as fotografias no pincel. A gente pegava o papel crepom e dissolvia ele na água. E com o pincel a gente coloria as fotos. Cada fotografia era única", relembra.
Poucos anos depois, Antônio precisou se aposentar e deixou tudo com Chico Manco. “Quando ele se aposentou me deixou de presente a câmera e falou: ‘Vou deixar essa máquina com você, mas tome conta dela’. E até hoje eu tenho o maior carinho por essa máquina. Foi com ela que aprendi tudo.”
Durante décadas, foi com o “caixote” que Chico Manco sustentou a família – a esposa e os dois filhos. Apesar do valor histórico, ele deixou de usar a câmera na década de 1990. A decisão não aconteceu por escolha, mas por necessidade. Os materiais utilizados na revelação deixaram de ser fabricados, tornando impossível manter o processo artesanal em funcionamento. Desde então, ele adotou a fotografia digital como forma de continuar trabalhando.
Atualmente, a câmera de 115 anos já não funciona, mas permanece ao seu lado para exposição como símbolo de um tempo em que a fotografia era feita com química, paciência e técnica artesanal. “Ela não funciona mais, mas não vendo de jeito nenhum”, afirma. Para ele, o equipamento é parte da história da fotografia brasileira e da sua própria trajetória. A máquina centenária atrai os olhares de curiosos. Chico Manco conta que visitantes se aproximam para ouvir explicações e entender como as fotos eram feitas antigamente.
ANÔNIMOS E FAMOSOS
Ao longo de mais de seis décadas, Chico Manco fotografou milhares de pessoas. Famílias, crianças, idosos, casais, jogadores de futebol e figuras públicas passaram por sua lente. Para ele, um dos registros mais marcantes é a fotografia da cantora Ângela Maria, considerada uma das maiores vozes da música popular brasileira (MPB). Até hoje ele deixa guardada uma fotografia da cantora em sua câmera. “Tirei fotos de muita gente importante aqui. Mas essa foto dela que eu tenho guardada é como se fosse um troféu”, diz. Segundo ele, a fotografia não é apenas imagem, é memória, alegria e recordação.
Com a chegada da fotografia digital e dos celulares, o perfil do público mudou. Se antes a procura por fotos para documentos era maior, agora os registros afetivos são os destaques. De acordo com Chico Manco, quem o procura são as famílias que desejam guardar uma lembrança do passeio no parque. “Quem mais tira foto hoje com a gente é família, pais querendo registrar os filhos ou a família toda.”
O fotógrafo conta que teve um aneurisma cerebral perto dos 40 anos e, apesar de aposentado, afirma que nunca cogitou abandonar o parque ou a profissão. Para ele é mais do que sustento financeiro, a fotografia representa qualidade de vida. “O convívio que eu tenho com a natureza, com o povo. Não troco isso por nada.”
DE PAI PARA FILHO
A preservação desse patrimônio está garantida com a paixão que atravessa gerações. Gilson Henrique dos Reis, de 42, cresceu no parque acompanhando o pai Chico Manco. Desde os 7 anos, ajudava no trabalho e observava atentamente cada detalhe da profissão. “Vinha para cá todo dia com ele. E sempre gostei”, resume.
Gilson aprendeu observando. Via o pai fotografar, conversar com as pessoas, organizar o trabalho e lidar com as dificuldades do dia a dia. “Meu pai criou nossa família inteira com a fotografia. Muita gente fala que fotógrafo de parque não tem valor, mas foi isso que colocou comida na nossa mesa.”
Ao contrário de muitos profissionais da área, Gilson conta que nunca fez curso formal de fotografia. “Muita gente fala que precisou fazer curso de fotografia para aprender, mas eu não precisei. O meu pai que me ensinou tudo. Tudo o que eu aprendi foi com ele, tanto na vida quanto na profissão", destaca.
A decisão de seguir os passos do pai aconteceu aos 17 anos. Na época, Gilson trabalhava em obras, mas percebeu que o pai estava sobrecarregado, resolveu ajudar e acabou ficando no parque. "Eu vi que ele estava trabalhando demais. Era o dia inteiro. Então vim para ajudar e nunca mais saí", conta.
Gilson conta que muitas pessoas que tiraram fotos há anos com o pai voltam ao parque, agora com filhos e netos. “Tem gente que fala que tirou foto com ele quando era criança, e agora volta pra tirar a foto dos filhos”, explica. Gilson acredita que a essência do trabalho está no atendimento e na tradição. “A gente trabalha feliz, brinca com todo mundo e trata bem”, ressalta.
LIÇÕES DE VIDA
Sobre o futuro, Gilson garante que pretende manter tudo como o pai construiu. “O que ele deixar para mim eu vou manter igual. Não vou inovar nada. Vou preservar a tradição e respeitar a história que foi construída ao longo de décadas. Meu pai plantou isso aqui. Eu só vou continuar.”
Para Chico Manco, ver o filho assumir esse papel é motivo de orgulho. “É uma honra ver ele seguindo os meus passos. É sinal que não foi em vão esse tempo todo que eu fiquei aqui no parque", declara, emocionado. Ele acredita que a continuidade do trabalho representa mais do que a permanência de um ofício, mas a preservação de uma memória.
Chico Manco hoje também é educador. Ele leva sua câmera antiga para escolas e dá palestras, ensinando que, antes dos pixels e filtros de Instagram, a fotografia era, e ainda é, um ato de magia artesanal e paciência.
Ao deixar uma mensagem para as novas gerações, pai e filho concordam que é preciso fazer o que se ama. “Façam aquilo que vocês têm vontade e com amor, porque não vai ser em vão”, diz Chico. Gilson complementa: “Se não fosse amor, ninguém ficava aqui tanto tempo.”
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*Estagiária sob supervisão da editora Crislaine Neves