Jaboticatubas – Na mata fechada e no relevo desafiador da Serra do Cipó, um grupo de brigadistas voluntários trocou o combate direto ao fogo por um treinamento igualmente essencial: aprender a sobreviver quando o resgate não chega. Durante 30 horas ininterruptas, a reportagem do Estado de Minas acompanhou e participou, in loco, do curso Tático de Sobrevivência realizado por 11 brigadistas em ambiente natural hostil, ministrado pela Escola Mestre do Mato, sob a orientação do renomado instrutor Giuliano Toniolo, de 54 anos.
O treinamento reuniu integrantes das brigadas Guardiões da Serra e Espinhaço, que atuam em áreas críticas da Serra do Cipó, a 100 quilômetros de BH e da Lapinha da Serra, a 142 quilômetros da capital mineira, na Região Central do estado. A proposta vai além da técnica: prepara corpo e mente para situações-limite, comuns durante a temporada de estiagem, quando os incêndios florestais se intensificam em todo o país. “São tantas as vezes que o resgate aéreo não consegue voltar para buscar brigadistas no combate ao fogo que eles já estão acostumados a criar meios de retornar por conta própria”, relata Cristiano Reis, líder da brigada Guardiões da Serra. Segundo ele, a realidade do campo exige autonomia e sangue frio para enfrentar noites inesperadas na mata.
Entre as práticas, os brigadistas aprenderam a montar abrigos improvisados, tratar água e acender diferentes tipos de fogueira, como o modelo Dakota, que reduz o impacto ambiental ao confinar o fogo abaixo do solo. “O objetivo é ensinar não só técnicas de emergência, mas desenvolver a mentalidade necessária para cuidar de si mesmo em ambientes hostis”, explica Toniolo, o instrutor do grupo.
A base do curso gira em torno do que é chamado “triângulo da sobrevivência”: abrigo, água e fogo. Elementos simples, mas vitais para garantir descanso, hidratação e condições mínimas para traçar estratégias de autorresgate ou aguardar socorro. “O brigadista já atua em ambiente hostil por natureza. Aqui, ele aprende a se preparar antes mesmo de sair de casa”, completa o instrutor. Apesar da experiência do grupo, o treinamento reforçou conceitos e refinou práticas já conhecidas. “Foi uma polida no que eles já sabem, além de preparar para situações que podem não acontecer hoje, mas podem ser decisivas amanhã”, diz Toniolo.
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Para os novatos, como Kesley Soares dos Santos, da Lapinha da Serra, o curso representa um marco. Prestes a enfrentar sua primeira temporada de incêndios, ele carrega expectativa e respeito pelo desafio. “Sempre quis ajudar. Agora estou pronto. O curso fortalece o conhecimento e traz mais segurança. A gente entende que preparo físico e técnico pode salvar a própria vida”, avalia o jovem brigadista, que passou por cirurgia de ligamento do joelho e, por isso, não pôde combater ainda.
Já a brigadista e alpinista industrial Natália de Souza, de 41 anos, vê no treinamento uma extensão da sua trajetória em resgate. “Sair de casa preparada, pensar nos detalhes e prever situações faz toda a diferença. Pode salvar vidas, inclusive a minha”, afirma a integrante da brigada Espinhaço. Mais do que apagar incêndios, o curso evidencia uma realidade pouco visível: a de homens e mulheres que, muitas vezes isolados, precisam contar com o próprio preparo para voltar para casa. Na linha de frente do fogo, sobreviver também é uma missão.
PARTICIPAÇÃO ATIVA
A relação do Estado de Minas com os brigadistas não é recente. Em qualquer tempo, o jornal acompanha o trabalho do Corpo de Bombeiros e dos voluntários. Porém, desde 2020, observa mais de perto a trajetória dessas brigadas, tanto por meio de notícias corriqueiras quanto em trabalhos mais aprofundados, como uma série de reportagens publicada há seis anos, quando a temporada de fogo foi tão assustadora por todo país que ganhou grande repercussão e ajudou a dar visibilidade à causa da preservação ambiental e ao trabalho voluntário desses combatentes. Naquele ano, 2020, uma imagem em especial ganhou destaque mundial pelo impacto causado. Trata-se da foto do brigadista Claudinei Luiz da Silva, coberto de fumaça e, no limite da exaustão.
Nela, Claudinho, como é chamado pelos colegas, é o símbolo da sobrevivência. Ele está exausto, ajoelhado sobre a terra seca, abraçado à sua mochila costal para respirar melhor e aliviar o cansaço, como se fosse sua última âncora, sintetiza o limite físico e emocional de quem enfrenta o incêndio. Segundo relatos, foi a partir da repercussão dessas imagens que aquela região ganhou destaque. “Naquela época foi muito importante a presença da imprensa e ainda é. É preciso dar acesso e respeitar o trabalho jornalístico, pois ele acelera processos e pressiona autoridades a não postergar nosso maior bem no mundo, o meio ambiente”, afirma Cristiano Reis, líder da Brigada Guardiões da Serra.
Não à toa, durante 30 horas, este repórter participou ativamente de todas as etapas do treinamento, vivenciando na prática os mesmos desafios enfrentados por aqueles que estão na linha de frente do combate ao fogo. Da montagem de kits de sobrevivência à construção de abrigos improvisados com lonas e cordas, da confecção de colchões feito de saco de lixo recheado com folhas às técnicas de montagem de fogueiras em condições adversas e métodos de coleta e tratamento de água para consumo seguro estivemos juntos todo o tempo na divisão e na execução das tarefas.
Ainda sobre o curso, Toniolo concluiu que “a iniciativa reforça a importância da preparação técnica e psicológica desses profissionais, que frequentemente atuam em locais remotos, sob condições extremas e, muitas vezes, sem garantia de resgate imediato. “O treinamento é essencial para que o brigadista consiga não apenas combater o fogo, mas também garantir sua própria sobrevivência em situações-limite”, destacou.
Atuação voluntária
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As brigadas voluntárias de incêndio são grupos organizados de cidadãos treinados para prevenir e combater incêndios, especialmente os florestais, atuando muitas vezes sem apoio financeiro do poder público. Em Minas Gerais, elas são cruciais na proteção de áreas de preservação ambiental, no apoio ao Corpo de Bombeiros Militar em regiões de difícil acesso e no atendimento a municípios menores. Os voluntários passam por oficinas obrigatórias do Corpo de Bombeiros ou parceiros, que os capacita em uso de EPIs, técnicas de combate, rescaldo e primeiros socorros. Muitas atuam através da Rede Nacional de Brigadas Voluntárias (RNBV), com núcleos em diversos municípios mineiros, como a Brigada 1 e a brigada da Serra do Cipó. Além de apagar o fogo, realizam ações de educação ambiental e prevenção para reduzir os impactos de queimadas. A atuação voluntária é amparada pela Lei Estadual 22.839/2018.
