A probabilidade de um El Niño mais forte no segundo semestre de 2026 é de 96%, conforme previsões climatológicas atualizadas. De acordo com o Centro de Previsão Climática dos Estados Unidos (CPC/NOAA), o fenômeno tende a surgir entre junho e julho, permanecer ativo até dezembro e avançar por janeiro e fevereiro de 2027. Em Minas Gerais, o cenário previsto segue as direções do nacional: estiagem prolongada ao Norte do estado e chuvas intensificadas no Sul. Se o fenômeno se instalar até agosto, a Região Sudeste do país terá um inverno menos frio do que o normal e pode sofrer ondas de calor.


Uma nota técnica do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em parceria com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), prevê que os impactos no Sudeste brasileiro serão variáveis. O Sul de Minas, exclusivamente, poderá registrar precipitações acima da média, enquanto o restante do estado deve enfrentar escassez de chuva. No Norte, a já conhecida seca poderá ser agravada. A depender da intensidade do fenômeno e da atuação de outros sistemas atmosféricos, podem ocorrer estiagem mais prolongada e veranicos.


Segundo as instituições, isso será resultado do aumento do transporte de umidade da região amazônica para os subtrópicos e alterações na circulação atmosférica associadas às ondas de Rossby. Além da mudança nos sistemas pluviométricos, o El Niño também pode aumentar as temperaturas médias, principalmente durante a primavera e o verão. A persistência de massas de ar quente também podem ocasionar ondas de calor mais frequentes e prolongadas na Região Sudeste.


De acordo com o climatologista Alceu Raposo Júnior, o El Niño ocorre aproximadamente a cada três anos, de forma natural, mas pode ser intensificado devido às mudanças climáticas globais. Raposo explica que a temperatura da água do Oceano Pacífico varia em determinadas épocas. Quando a água se aquece demais, alterações climáticas são provocadas na América do Sul e parte da América do Norte.


“Quando as temperaturas do Pacífico estão entre 0 e 0,4 graus abaixo ou acima da temperatura média do oceano, há um evento neutro chamado La Niña. Quando ficam acima, há o El Niño. Agora, a tendência do modelo meteorológico indica que o fenômeno deve começar em junho, pois (a temperatura) aumentará 0,25°C”, explica.

SEVERIDADE


Apesar de algumas previsões indicarem um “Super El Niño”, o climatologista reforça que isso só poderá ser confirmado com precisão a partir de setembro, quando a tendência do aumento da temperatura das águas for analisada já durante a atuação do fenômeno. De acordo com Raposo, a diferença entre uma condição meteorológica e outra está na intensidade.


“O Super El Niño intensifica o fenômeno. Se no Sudeste haverá seca, aumento de temperaturas e ondas de calor no El Niño, isso será ainda mais intensificado com o Super El Niño. Ou seja, menos chuva e menos umidade. A diferença está na severidade”, diz.


A estação seca – que vai do outono ao fim do inverno em Minas Gerais –, normalmente é de pouca chuva até o início de outubro no estado, com possibilidade de pancadas fracas e rápidas em algumas regiões. Com o El Niño reforçado, pode haver um cenário semelhante ao de 2024, quando Minas registrou vários episódios de seca e altas temperaturas. Foram oito ondas de calor em diferentes épocas do ano. A capital também foi marcada pela estiagem prolongada, com cerca de 172 dias sem chuva.


SAÚDE EM RISCO


As previsões de alterações climáticas ligam o alerta também na saúde, já que as chuvas podem favorecer a proliferação do mosquito Aedes aegypti, vetor da dengue. De acordo com o painel de arboviroses da Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES/MG), embora haja uma alta nos últimos 14 dias,até a 20ª semana epidemiológica, o estado teve uma queda de 72% no número de casos confirmados da doença (26.979), comparado com o mesmo período de 2025 (95.716), embora haja uma alta nas últimas duas semanas


Mas o sinal pode se inverter. “Há casos de dengue o ano todo, mesmo no período de seca, mas se as mudanças previstas coincidirem com aumento de temperatura, os insetos vão gostar muito. São mosquitos que vieram da África e são tolerantes a altas temperaturas e umidade”, diz o médico infectologista Leandro Curi.


MEDO NA ZONA DA MATA

Em meio às previsões recentes, a Zona da Mata mineira enfrenta fortes chuvas nos últimos dias. Em Juiz de Fora, onde 66 pessoas morreram em desmoronamentos provocados pela forte chuva na cidade em fevereiro, o clima é de medo. Na noite de terça-feira (19/5), houve queda de granizo e ventania. A Defesa Civil emitiu um alerta para risco de enxurradas e deslizamentos. Em Muriaé, na mesma região, também houve enchentes e enxurradas em diferentes pontos.


Contudo, Raposo aponta que a causa da chuva na Zona da Mata no início deste ano é diferente do que ocorre agora. De acordo com ele, os temporais de fevereiro fizeram parte de “um fenômeno atípico relacionado às mudanças climáticas” e que não deve ocorrer novamente na mesma proporção. “Naquela região, houve uma estabilização da frente fria que passava pela região. Ela ficou estacionada lá, mas isso não é comum”, tranquiliza.


Segundo o meteorologista do Inmet Lizandro Gemiacki, uma frente semiestacionária se deslocou lentamente sobre Minas Gerais, especialmente na divisa com São Paulo. A atuação dessa frente em cerca de metade do Sul do estado provocou nebulosidade e chuva. No entanto, de acordo com o especialista, as chuvas em maio não são incomuns, apesar de mais fracas.


BELO HORIZONTE

A situação também é observada na capital. Até a manhã de ontem, metade das regiões de Belo Horizonte já haviam superado a média climatológica do mês, de 28,1 milímetros (mm). Em 20 dias, a Região do Barreiro foi a que mais acumulou chuva. Foram 40,9mm, o equivalente a 145,6% do total esperado em todo o mês de maio. Já as regiões Centro-Sul, Leste, Nordeste e Noroeste registraram, respectivamente, 40,2mm, 38mm, 32,8mm e 32,2mm.


“Geralmente quando chove (neste mês), extrapola a média climatológica. Isso acontece porque eventualmente passam alguns sistemas meteorológicos, mas na maioria das vezes a chuva é bem baixa mesmo”, diz. Segundo Gemiacki, qualquer chuva fraca eleva essa média, mas as condições climáticas que favoreceram a ocorrência dessas precipitações não devem ir muito longe.


PRÓXIMOS DIAS


Belo Horizonte e outras 595 cidades mineiras estão sob alerta de perigo potencial, conhecido como alerta amarelo, para tempestade até as 21h desta quinta-feira (21/5), segundo aviso emitido pelo Inmet. O meteorologista Lizandro Gemiacki reforça que, a princípio, a chuva se restringe às regiões Sul, Metropolitana e Zona da Mata, mas muito baixa e de maneira isolada. Porém, a nebulosidade permanece nos próximos dias. “Até o final de semana a gente tem chance dessas chuvas isoladas, não muito fortes e não persistentes”, diz o meteorologista.


Conforme a previsão do Inmet, o dia será de céu nublado com chuva isolada na Zona da Mata hoje. Já no Rio Doce, céu parcialmente nublado a nublado com chuva isolada. Nas demais regiões, céu parcialmente nublado, com possibilidade de chuva isolada nas regiões Central, Triângulo, Alto Paranaíba, Oeste, Sul, Sudoeste, Campo das Vertentes e Metropolitana. A temperatura máxima pode chegar a 33°C, e a mínima fica em 11°C.


Amanhã (22/5), o dia deve ser de céu parcialmente nublado a nublado com chuva isolada no Jequitinhonha e Mucuri. Céu nublado a parcialmente nublado com possibilidade de chuva isolada no Rio Doce e Zona da Mata. O céu fica parcialmente nublado no restante do estado, com chance de chuva isolada no Triângulo e Alto Paranaíba. A máxima ficará em torno de 32°C, mas a mínima terá um leve declínio, com previsão de 9°C no Sul de Minas.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia


O cenário é semelhante no sábado (23/5). Segundo a previsão, o dia será de céu parcialmente nublado com possibilidade de chuva isolada no Jequitinhonha, Mucuri, Rio Doce, Sul e Sudoeste. Nas demais regiões, céu parcialmente nublado. A temperatura máxima se mantém nos 32°C e a mínima volta aos 11°C.

compartilhe