De família muito pobre, Odilon Tavares vivia nas ruas de Belo Horizonte catando papel e outros materiais recicláveis. Encontrava muitos livros no lixo. Mesmo mal sabendo ler, percebeu o absurdo desse descarte e resolveu vender esses livros na calçada de uma loja na Avenida do Contorno com a Rua Grão Mogol, no Bairro Carmo, Centro-Sul de BH, por onde sempre passava.  

       Além das obras do lixo, passou a receber doações e vendia cada uma a R$ 5, não importavam o autor e o título. Há cerca de cinco anos, os livros que deixava estocados em um grande caixote de madeira no calçadão foram incendiados durante uma madrugada por alguém desconhecido que Odilon disse não saber quem era.

        O ataque, entretanto, acabou despertando uma onda de solidariedade. Odilon começou a receber diariamente muitos livros de doadores diversos. Foram milhares e milhares nos últimos anos, recebidos de pessoas que desmontavam bibliotecas em casa e doavam para ele. 

        Além disso, após o incêndio, um coletivo virtual fez uma vaquinha e começou a realizar um grande sonho de Odilon, que era ter um ônibus itinerante para circular pelo interior de Minas para vender livros. Com adesão de cerca de 6 mil pessoas, o ônibus foi comprado, pintado de amarelo e equipado com prateleiras com aproximadamente 20 mil obras.

 


         Mas como não tinha garagem, Odilon deixava o ônibus na rua. Dessa forma, o veículo acabou sendo atacado também numa madrugada, teve a fiação elétrica destruída. Os danos foram tantos que ele não teve como bancar o conserto.

         Na mesma época, Odilon passou a sofrer de uma doença nos olhos que comprometeu a sua visão e o impediu de continuar dirigindo. Diante da degradação do ônibus sem uso e da proibição de dirigir, vendeu o veículo e continuou com o sebo na calçada.

         Por causa de uma dívida decorrente de acidente de trânsito mal resolvido, teve sua pequena conta bancária bloqueada pela Justiça. Mas mesmo com dificuldades, conseguiu o seu sustento na venda de livros, chegou a arrecadar cerca de R$ 400 por dia. Conseguiu, então, abandonar as ruas e alugar um quarto de hotel no Centro de BH e um barracão no Morro do Papagaio.

         Entretanto, continuou enfrentando problemas de saúde, muitos decorrentes de alcoolismo, e contou ter convivência difícil com familiares. Há três semanas, foi internado com pneumonia no Hospital São Francisco, em BH, em quadro que evoluiu para outras complicações, como insuficiência renal, segundo informaram amigos e clientes. E na madrugada da última segunda-feira morreu de insuficiência múltipla dos órgãos, aos 63 anos, faria 64 em 25 de dezembro próximo.

        Odilon conseguiu realizar apenas parte do seu sonho, ter um ônibus cheio de livros e um cantinho aconchegante dentro dele para morar. Chegou a postar fotos do ônibus no seu perfil no Instagram. Não pôde realizar a outra parte, a itinerante.

        Dizia que sofreu muito com a fome e a pobreza nas ruas, mas que os livros o salvaram. Não lia, porque não conseguia enxergar direito e não tinha o hábito de leitura, mas sabia da importância deles, tanto que insistiu até o fim na manutenção do sebo no calçadão, apesar de algumas vozes contrárias e ameaças.

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         Dizia também que, apesar das tentações e das muitas dificuldades, não se “venderia por coisas erradas”. Teve uma vida mais digna nos últimos anos, apesar dos problemas de saúde. Não precisava mais morar nas ruas.






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