Apesar de esse tipo de ocorrência representar apenas 2% dos 839.140 acidentes de trânsito contabilizados em Belo Horizonte, atropelamentos recentes chamam a atenção de especialistas. Foram pelo menos três sinistros envolvendo ônibus na última semana, conforme informações oficiais. Dados do Observatório de Segurança Pública, da Secretaria de Justiça e Segurança Pública de Minas Gerais (Sejusp) mostram um quadro ainda pior. Somente no primeiro quadrimestre de 2026, a capital registrou 378 atropelamentos – o equivalente a cerca de três casos por dia.

O motorista de aplicativo Bruno de Freitas Gomes de Souza, de 31 anos, foi uma das vítimas nesta semana. Ele morreu ao ser atropelado por um ônibus na manhã de ontem (14/5). De acordo com a Polícia Militar (PM), que atendeu a ocorrência, Bruno viajava como passageiro em um carro quando deixou o celular cair do veículo na Avenida Afonso Pena, na esquina com a Rua Tamoios, no Centro de BH. Ele desceu do carro para buscar o aparelho, mas foi atingido pelo coletivo da linha 9204 (Santa Efigênia/Estoril) e morreu no local. Devido ao acidente, três faixas da avenida foram interditadas no sentido rodoviária e houve congestionamento. 

A BHTrans lamentou o caso e informou que o veículo em questão tem autorização de tráfego em dia. "Agentes de trânsito sinalizaram o cruzamento e deram apoio ao trabalho dos órgãos de segurança, que vão apurar as causas do ocorrido", disse, em nota. O ônibus foi retirado e o trânsito liberado ainda na manhã de ontem.

De acordo com o professor Agmar Bento, do Departamento de Engenharia de Transportes do Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet), o fluxo de veículos na capital, a pressa e o descuido dos pedestres contribuem para o cenário. No entanto, segundo o especialista em segurança no trânsito, esses não são os únicos fatores. 


“Há falta de semáforos para pedestres, e o tempo de verde para eles é muito curto. Na área hospitalar de BH, por exemplo, há uma grande circulação de pedestres – muitos com mobilidade reduzida – que têm dificuldade para atravessar as vias por falta de infraestrutura adequada. Isso acaba colocando-os em vulnerabilidade”, reflete.

Além da morte de Bruno de Freitas, outros dois casos envolvendo ônibus do sistema de transporte público foram registrados em menos de uma semana. Na tarde de quarta-feira (13/5), um homem de 55 anos também foi atropelado por um coletivo no cruzamento das ruas Caetés e Espírito Santo, no Hipercentro da capital. Segundo o Corpo de Bombeiros Militar (CBMMG), a vítima foi retirada com vida debaixo do coletivo e socorrida com fratura exposta em uma das pernas pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). 

Já o atropelamento de uma idosa de 80 anos terminou em morte. Ela foi atingida por um ônibus da linha 9202 (Pompéia/Jardim América), na Avenida Amazonas, esquina com a Rua Padre Belchior, também no Centro de Belo Horizonte. O acidente ocorreu na tarde da última sexta-feira (8/5). De acordo com o Corpo de Bombeiros, o motorista do coletivo relatou que havia outro ônibus paralelo ao dele. A idosa atravessou a rua e, por isso, ele não viu a vítima. Nesse caso, o corpo da idosa ficou preso debaixo de uma das rodas do veículo até a chegada do Samu, que constatou a morte.


Perigo no Centro

A sequência de atropelamentos desde a sexta passada não é isolada. De acordo com levantamento da Sejusp, foram registrados 16.816 atropelamentos envolvendo todos os tipos de veículos em Belo Horizonte desde 2015, sendo que a maioria ocorreu em duas das principais vias da região central. A Avenida Afonso Pena, palco da tragédia de ontem, lidera o ranking, com 624 atropelamentos. Já a Avenida Amazonas, que também corta parte importante do Centro, fica em segundo lugar, com 568 atropelamentos nesse período, seguida pelo Anel Rodoviário, com 554. 

De acordo com o engenheiro de trânsito Agmar Bento, a concentração na área central se deve à grande quantidade de pessoas que circulam por lá. O fluxo de pedestres e de veículos é grande, assim como a pressa de ambos. No entanto, segundo ele, isso não desresponsabiliza os motoristas imprudentes, que muitas vezes negligenciam a presença das pessoas que circulam a pé nas ruas.

Grandes avenidas, como a Afonso Pena e a Amazonas, representam importante papel na cidade. Por isso, são largas, o que dificulta a travessia dos pedestres. “Há, ainda, entrada de veículos vindos na diagonal nessas avenidas. Muitos pedestres não observam esse movimento e acabam sendo atropelados. A pressa e a ansiedade levam pessoas a realizar travessias com o sinal fechado ou entre carros parados”, diz Bento.


Medidas benéficas

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Por outro lado, o engenheiro ressalta que algumas medidas de engenharia de tráfego já implementadas na capital mineira foram fundamentais para evitar estatísticas ainda piores. No cruzamento entre essas vias, localizado na Praça Sete de Setembro, a proibição de conversões diretas em ambas avenidas contribui para a diminuição de atropelamentos no Centro. Travessias elevadas (lombofaixas) e fechamento de alguns quarteirões na região também são ações efetivas apontadas pelo especialista. 

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