Dentro de um hospital universitário em Belo Horizonte, livros, cadernos, lápis de cor e giz de cera dividem o tempo com longos períodos de tratamento. Sob assistência muitas vezes complexa, crianças e adolescentes internados no Hospital das Clínicas (HC) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) encontram um cuidado que não cabe nos prontuários médicos. Entre leitos e enfermarias, o projeto “Pedagogia hospitalar” transforma o ambiente em um espaço onde é possível aprender, imaginar e sonhar, ajudando a aliviar o sofrimento e manter vivo o vínculo com a infância.

A iniciativa começou durante a pandemia de COVID-19, em um período de grandes restrições sociais, quando foi necessário reinventar formas de contato com os pacientes. Naquela época, a leitura chegou por meio de audiolivros e ações mediadas pelas equipes assistenciais. Com o retorno das atividades presenciais, o trabalho ganhou força, passou a acontecer diretamente nos leitos e se consolidou como política permanente da unidade de saúde. Hoje, o programa faz parte da extensão universitária, envolvendo acadêmicos dos cursos de pedagogia e letras, em parceria com a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH).

“O objetivo é garantir o direito à educação. E pelo HC ser um hospital-escola, trazemos esses acadêmicos como extensionistas em vários projetos. O projeto incentiva a leitura no leito e, assim, a gente aplica uma metodologia ativa para despertar o pensamento crítico de quem está em tratamento", explica a pedagoga Iracema Nascimento Cerqueira.

Bem-estar e autoestima

Nesse contexto, o “Entre Páginas”, além de estimular a leitura, é uma ferramenta terapêutica capaz de impulsionar a imaginação, a escrita, a comunicação e o desenvolvimento cognitivo. Também funciona como uma pausa emocional em meio à rotina hospitalar.

“A leitura ajuda a diminuir o estresse, promove relaxamento e contribui para o bem-estar”, afirma Iracema. Para ela, os benefícios também aparecem na redução da defasagem escolar, comum em internações prolongadas, e no fortalecimento da autoestima dos pacientes.

Outra ação desenvolvida é o “Brincando e Aprendendo”, voltado para atividades lúdicas e pedagógicas, com atuação na unidade pediátrica e na terapia renal. Jogos, pinturas, massinhas e brincadeiras adaptadas fazem parte da rotina. Para além do brincar, essas atividades têm funcionalidade terapêutica e educativa. Muitas vezes, são baseadas em conteúdos enviados pelas escolas de origem dos pacientes, que são adaptados de acordo com o planejamento individualizado de cada criança ou adolescente.

Para a pedagoga, levar educação ao ambiente hospitalar exige sensibilidade e escuta constante. “Não podemos entrar com a educação de forma formal. Isso é feito de uma forma muito delicada. É preciso atuar de uma forma diferenciada, através do lúdico e do brincar. A gente tem um olhar diferente para cada paciente”, explica.

Antes de qualquer atividade, a equipe pedagógica dialoga com médicos, enfermeiros e outros profissionais da saúde. É esse trabalho conjunto que define se a criança pode sair do leito, quanto tempo consegue se concentrar e quais propostas são mais adequadas para aquele momento.

Nada é imposto. Se a criança não está bem naquele dia, a atividade muda ou simplesmente não acontece. “O foco principal sempre é a saúde. A educação vem para somar, nunca para gerar mais pressão”, afirma a pedagoga.

Atenção específica

A médica pediatra intensivista Adrianne Sette destaca que a presença da pedagogia não é um complemento opcional, mas parte essencial de uma atenção específica. “Toda criança internada tem um plano de cuidados centrado em suas necessidades e condições clínicas. A atuação multidisciplinar é que promove esse cuidado”, diz.

Adrianne reforça que as crianças e adolescentes têm o direito de ter um horário preservado para brincar e estudar e, a partir disso, surgiu o sonho de levar a escola para as crianças hospitalizadas. “Nós médicos, fisioterapeutas, nutricionistas, psicólogos e toda equipe assistencial sabemos da importância da escola na vida delas.”

Segundo Adrianne, assim que a criança é admitida na unidade, a equipe da pedagogia é acionada por meio de uma interconsulta – avaliação conjunta entre diferentes profissionais de saúde – e, em até 24 horas, já é feita uma avaliação para entender como atuar naquele caso específico.

Um estudo experimental conduzido pelo pesquisador mineiro Guilherme Brockington, demonstrou que uma sessão de storytelling (arte de contar histórias de forma estratégica e envolvente) de 30 minutos em crianças hospitalizadas reduziu a dor autorreferida, quando a pessoa sente dor em um local do corpo diferente da origem real do problema, e aumentou os níveis de ocitocina, hormônio associado ao vínculo, à empatia, com efeito ansiolítico.

“Medidas não farmacológicas de redução da dor, como as atividades realizadas pela 'Pedagogia Hospitalar', reduzem o consumo de analgésicos, minimizam efeitos colaterais e facilitam a mobilidade e funcionalidade, tendo impacto na redução de tempo de internação, em pós-operatórios”, afirma Adrianne.


Benefícios para as famílias

A chefe da Unidade da Criança e do Adolescente do HC, Regina Celi Marques de Almeida, reforça que o projeto também tem um papel importante na humanização do ambiente hospitalar. “As crianças internadas, em geral, encontram-se em condição de maior fragilidade, afastadas de suas rotinas diárias e do convívio com familiares, amigos e do ambiente escolar, o que pode refletir negativamente no enfrentamento e na recuperação durante tratamentos prolongados", aponta.

Regina ressalta que a atuação da pedagogia contribui para que essas crianças se sintam inseridas na rotina de estudos, estimulando memória, atenção e raciocínio, sempre respeitando os limites clínicos individuais.

Entre os benefícios observados estão a garantia do direito constitucional à educação, a quebra da rotina exclusivamente assistencial, a transformação do hospital em um espaço mais acolhedor e a possibilidade de a criança ser vista além da doença. “Os efeitos se estendem também às famílias, que se sentem envolvidas e corresponsáveis nesse processo”, afirma Regina.

Histórias que inspiram

Na prática, o impacto do projeto aparece nas histórias de quem vive a internação. Uma delas é a de Larissa de Assis Gonçalves, de 16 anos, paciente da pneumologia, cardiologia e cirurgia plástica. Durante oito meses de internação no HC, ela encontrou no projeto uma forma de se desligar das dores e manter o vínculo com a escola.

“O projeto ajudava a distrair das dores e dos remédios, deixando o dia a dia mais 'normal' no nosso dia a dia lá dentro. Eu sempre gostei muito de pintura, então quando elas levam desenhos ou até mesmo folhas em branco, colorir conversando com elas foi a melhor parte. Elas ensinam a ver o lado positivo de tudo e que mesmo em tempos difíceis vale a pena sorrir", conta Larissa.

Mesmo impedida de frequentar aulas presenciais por restrição médica, ela conseguiu continuar estudando com o apoio das pedagogas. “Sempre amei estudar e ficar o ano todo sem ir na escola foi muito diferente, faço de tudo pra poder ser aluna destaque estudando e dando meu máximo, mas o hospital acaba nos deixando sem expectativa. Ter as pedagogas para me incentivar e me instruir foi ótimo e saber que mesmo do hospital eu consegui ser aluna destaque me deixa aliviada e feliz.”

A mãe da Larissa, Keila Moreira de Assis Gonçalves, de 47 anos, acompanhou todo o processo. “Minha filha esteve completamente acamada com posicionamento restrito, inclusive no leito, entre julho e novembro. As visitas das professoras na enfermaria eram essenciais com suas orientações e oferecendo exercícios. Quando elas não conseguiam ir, minha filha sentia falta. Isso mostra o quanto o projeto faz diferença na vida deles”, relata.

Outra jovem, Giovanna Alexandra Eides Silva, entrevistada pela reportagem aos 18 anos, tinha uma relação profunda com o projeto. Paciente da hematologia hepatologia desde os 2 anos, foi no hospital que ela aprendeu a ler e escrever. "Quando eu tinha 6 anos de idade, eu estava internada por crise de dor, e uma pedagoga me ensinou a ler e a escrever e isso pra mim foi mágico, uma experiência única, porque eu internava muito e os meus colegas de sala, estavam muito adiantado e eu as vezes ficava atrasada."

Giovanna passou por diversos hospitais. "Fiquei internada em alguns hospitais e não tinha a pedagogia hospitalar. Em algumas internações eu ficava mais no hospital do que em casa e no HC a pedagogia me ajudou a fazer as atividades escolares pra mim não fica muito atrasada quando eu voltasse pra casa, a pedagogia me ajudou também a aprender matérias novas", contou ao EM. A doença, no entanto, avançou e Giovanna faleceu este ano. Seu depoimento foi mantido como uma forma de conforto para a mãe, Virginia Andrade Slva, que gostaria que a história da filha também ficasse registrada.

Força para seguir

Outra história que ilustra a força do projeto é a de Isac Diniz Fernandes, de 3, paciente da oncologia. Segundo a mãe Luciana Conceição Diniz Teixeira, de 42, o filho, que ficou cerca de 100 dias internado, encontrou nas atividades lúdicas uma forma de enfrentar o processo. “Ele gosta de livros com animais e passou a inventar suas próprias histórias por causa do projeto”, conta.

Luciana destaca que, mesmo não estando em idade obrigatória de escolarização, o filho se beneficiou do estímulo cognitivo, emocional e social. “Foi a primeira internação. Nunca tinha passado por nada assim. Foi um pouco traumático todo o processo, demorou pra pegar confiança nas pessoas. Então, esses momentos estão fazendo com que ele não fique preso à doença e continue se desenvolvendo.”

O menino que chegou tímido, hoje pega seu miniviolão e começa a tocar e cantar para pacientes e funcionários. “Ele passou muito tempo introvertido por conta da doença. Agora, está mais brincalhão. A paciência e o carinho dos profissionais também ajuda muito. Sempre tinha as estagiárias que passavam no leito pra contar histórias. Foi um processo muito importante e sou muito grata”, declara. Atualmente, Isac interna três a quatro por semana para passar por quimioterapia.


Envolvimento amplo

Internada por longos períodos no HC, Soraya do Carmo Ferreira, de 16, paciente da hematologia, também encontrou no projeto uma forma de continuar estudando e evitar a perda do ano letivo. “Por ficar tanto tempo internada, precisei para de frequentar as aulas e eu podia ter perdido o meu primeiro ano, mas com ajuda das pedagogas eu continuei estudando e entregando as atividades e fazendo as provas. A minha escola enviava o conteúdo online e as pedagogas imprimiam e depois aplicavam", conta.

Além das atividades escolares, Soraya ajudava a montar murais e participar de trabalhos manuais, criando vínculos com a equipe. “Gostava muito de ajudar as pedagogas a fazer os murais da pedagogia, sempre amei fazer trabalhos manuais e ter esses momentos com elas era incrível. Aprendi que mesmo nas piores fases da nossa vida a gente pode aproveitar pra aprender muita coisa”, ensina.

 
Como ajudar

O sonho da equipe é ampliar o “Pedagogia hospitalar”. Hoje, o projeto enfrenta desafios estruturais. São necessárias doações de livros, papel contact para higienização, estantes, mesas e cadeiras coloridas para montar espaços mais acolhedores.

A população pode ajudar entregando doações diretamente na recepção do Hospital das Clínicas, na Avenida Professor Alfredo Balena, 110, no Bairro Santa Efigênia, na Região Centro-Sul de BH.

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*Estagiária sob supervisão da editora Crislaine Neves

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