No fundo do vale rodeado por pastos e plantações, uma mata serrana esconde o terreno emaranhado como xaxim onde brotam as primeiras águas do Rio Pará. Uma nascente discreta para um dos grandes afluentes do Rio São Francisco e que alguns conheciam como Córrego da Onça.

Assim era, até esta segunda-feira (11/05), com a instalação de um marco destacando que naquele vale do município centro-mineiro de Resende Costa (MG) começa a jornada de mais de 360 quilômetros do Rio Pará.

Começou também a saga de ambientalistas, membros da comunidade e do Comitê da Bacia Hidrográfica (CBH) do Rio Pará, com o lançamento Expedição Rio Pará Vivo 2026.

A instalação do marco foi viabilizada pelo CBH Rio Pará e tinha sido prometida três anos antes, quando a primeira expedição localizou e registrou as primeiras imagens da nascente - essa expedição foi acompanhada pelo Estado de Minas.

"A primeira coisa que a gente precisava era conhecer a nascente. Agora, com o marco, todos que passarem saberão que neste ponto nasce o Rio Pará", destacou o presidente do CBH, José Hermano Oliveira Franco.

Em 2023, a expedição se deu por meio de deslocamentos terrestres, registros aéreos de drones e algumas incursões em embarcações em pontos como a foz, no Rio São Francisco.

"Desta vez, vamos navegar pelo rio desde o seu início. Esperamos, assim, trazer um olhar de dentro para fora do Rio Pará. Trazendo muito mais conexões, a gente quer mostrar a cultura dos lugares, a gente que vive e sobrevive na bacia, as suas histórias. Queremos dar voz a essas pessoas e gerar um documentário", afirma Franco.

Pela avaliação do presidente do CBH, a primeira expedição cumpriu o papel de chamar a atenção para o comitê e para as necessidades de conservação e valorização do Rio Pará.

"Agora, queremos ganhar corpo. Conseguir apoio político, apoio financeiro. mas também receber as demandas e reclamações da bacia", disse, citando que dois programas implantados desde aquela época receberam adesão justamente por isso: o Programa de Conservação e Produção de Água e o Programa de Saneamento Rural.

A expedição percorrerá os mais de 360 quilômetros do rio cortando as regiões Central e Centro-Oeste de Minas até o sábado (16/05).

Em caiaques, os expedicionários vão navegar trechos do Rio Pará, conectando municípios e
comunidades ribeirinhas em uma travessia marcada por atividades educativas, culturais, institucionais e ambientais.

Rio Pará cruza as regiões Central e Centro-Oeste de Minas Gerais por cerca de 360 quilômetros até a sua foz no Rio São Francisco, em Pompéu

Léo Boi/ TantoExpresso/ CBH do Rio Pará
 

A abertura oficial da expedição ocorreu na Escola Municipal José Augusto Resende, no povoado de Cajuru, região da nascente do Rio Pará.

Foi também assinado um Acordo de Cooperação Técnica para implantação do Programa de Saneamento Rural nas comunidades de Jacarandira e Cajuru.

A previsão é de mais de 100 soluções individuais de tratamento de esgoto, incluindo tecnologias
como TEvaps (Tanques de Evapotranspiração), biodigestores, círculos de bananeiras, sumidouros e módulos sanitários.

No fim da manhã houve a visita técnica à nascente do Rio Pará, a inauguração de placa de identificação do olho d’água e o plantio de mudas nativas.

Qual a importância da área da nascente principal?


Resende Costa tem uma grande simbologia, não apenas por se tratar da nascente, mas segundo o CBH, também pela pureza das águas que descem para encorpar os primeiros segmentos do Rio Pará.

"Eu tenho dito muito na cidade que Resende Costa é um local especial. Uma cidade típica e que tem um artesanato incrível, um charme especial para a região das nascentes", descreve Franco.

"E foi o primeiro local onde começamos o Programa de Saneamento Rural, compreendendo toda a zona rural. Ou seja, Resende Costa está mandando a água mais pura possível para todos os mais de um milhão de pessoas que o Rio Pará abastece", afirma o presidente do CBH do Rio Pará.

Local onde o marco da nascente foi instalado fica acima do vale de mata serrana onde nasce o Rio Pará, em Resende Costa

Tanto Expresso/CBH do Rio Pará
 

À tarde, a expedição ruma para o município de Passa Tempo, com recepção pública no Paraíso dos Dornellas, na zona rural às margens do Rio Pará.

A programação inclui apresentação do Grupo de Dança Afro-Brasileira, concurso de poesia com estudantes da Escola Municipal Gabriel Andrade, oficina de bombas de sementes nativas conduzida por alunos da Escola Estadual Coronel Américo Augusto de Oliveira e exposição educativa sobre a Bacia Hidrográfica do Rio Pará.

De Passa Tempo em diante, as intervenções e atividades poluidoras já começam a ser uma preocupação para o CBH do Rio Pará.

"Não necessariamente vai ser só Passa Tempo que vai apresentar isso (poluição e degradação ambiental), mas de Passa Tempo para baixo já começa a ter maior interferência humana. Você vê os impactos do Rio e nós vamos sentir isso do lado de dentro agora, navegando por ele e alertando de forma mais enfática", aponta Franco.

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Nos dias seguintes os caiaques remam ainda por Carmo do Cajuru, Divinópolis, Conceição do Pará, Pitangui, Martinho Campos e Pompéu. 

Ações para a proteção e saúde das águas

  • Cercamento de nascentes: a proteção física impede o acesso de animais e evita a compactação do solo
  • Saneamento rural: a instalação de biodigestores e fossas sépticas reduz a carga de esgoto doméstico nos rios
  • Recuperação ciliar: o plantio de mudas nativas em áreas de preservação permanente fortalece o fluxo do manancial
  • Mobilização comunitária: o engajamento das populações ribeirinhas é essencial para a fiscalização ambiental e sustentabilidade

Roteiro da Expedição Rio Pará Vivo 2026 

  • Início em Resende Costa: inauguração do marco no olho d’água e lançamento do projeto de saneamento
  • Navegação técnica: travessia de 360 quilômetros por municípios das regiões Central e Centro-Oeste
  • Atividades socioeducativas: oficinas de bombas de sementes e apresentações culturais nas escolas locais
  • Acordos de cooperação: assinatura de termos técnicos para a ampliação do tratamento de esgoto rural
  • Chegada em Pompéu: encontro das águas com o Rio São Francisco e balanço final da jornada ambiental
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