Interior do templo, que começou a ser construído em 1713 na comunidade de Piedade do Paraopeba e é referência de fé, cultura e identidade local

Pascom/Paróquia Nossa Senhora da Piedade/Divulgação

Uma espera de oito anos vai terminar no sábado (2/5) para os moradores da comunidade de Piedade do Paraopeba, em Brumadinho, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Em clima festivo, será reaberta a Matriz Nossa Senhora da Piedade, tesouro do Vale do Paraopeba que teve a construção iniciada em 1713. “Há muita expectativa na região, todo mundo ‘pulando de alegria’ para ver novamente a igreja com os fiéis e celebrações. Começaremos muito bem o mês mariano (dedicado a Maria, mãe de Jesus)”, diz o titular da Paróquia Nossa Senhora da Piedade, padre Afonso Gomes Chivela.

Fachada da igreja: recursos para restauração vieram do MPMG, Prefeitura de Brumadinho e iniciativa privada, por meio da Lei Rouanet

fotos: Pascom/Paróquia Nossa Senhora da Piedade/Divulgação

A cerimônia de reabertura será às 18h, estando prevista apresentação musical (coral Vozes do Vale e orquestra), seguida de procissão com a imagem da padroeira – o cortejo sairá da Capela Nossa Senhora do Rosário em direção à matriz. Às 19h, o bispo auxiliar da Arquidiocese de BH, dom Joel Maria dos Santos, presidirá missa com a participação de padres e diáconos da região. Durante o período em que a matriz ficou fechada, as missas foram celebradas na Capela do Rosário.


Satisfeito com a reabertura do templo, o padre Afonso Gomes Chivela, angolano há um ano e dois meses como pároco, explicou que, inicialmente, haverá missas apenas nos fins de semana: todo sábado, às 19h, e aos domingos, às 9h30. “Estamos estudando outros horários, mas, por enquanto, são esses. As pessoas estão realmente na maior expectativa. Outro dia, um casal de noivos já queria tirar fotos dentro da igreja, mas falei que era necessário esperar”, contou o pároco. Tradicionalmente, eram realizadas na matriz , além das missas, casamentos, batizados, primeira comunhão e outras celebrações.


ESTUDOS E PROJETOS

Conforme a Arquidiocese de BH, à qual a paróquia está vinculada, os recursos para as obras vieram do Ministério Público de Minas Gerais, via Plataforma Semente, da Prefeitura de Brumadinho e da iniciativa privada, por meio da Lei Rouanet. O projeto de restauração teve início em 2013, quando a Prefeitura de Brumadinho contratou a Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) para elaboração dos estudos técnicos. Concluído em 2014, o projeto foi entregue oficialmente em 2015.


Três anos depois, começaram as obras com intervenções não apenas no templo mais incluindo a recuperação do sítio arqueológico no qual se encontra inserido. Em nota, a arquidiocese ressalta que a iniciativa buscou preservar um dos mais antigos núcleos urbanos do estado, “garantindo, assim, a proteção do patrimônio histórico e promovendo a valorização cultural da região”.


Os serviços na estrutura (a primeira etapa), arquitetônica e dos elementos artísticos tiveram acompanhamento da equipe do Memorial Arquidiocesano de BH. O piso de cerâmica foi substituído por madeira, mais fiel, portanto, ao ambiente, e as mais de 20 imagens de santos, restauradas, foram reentronizadas de forma organizada, ou seja, nos devidos retábulos. “A parte estrutural foi a primeira, pois havia perigo do desabamento do templo”, revela a historiadora Flávia Costa Reis, do Memorial.


MUITAS HISTÓRIAS

Piedade do Paraopeba surgiu por volta de 1680 pelas mãos de integrantes da Bandeira de Fernão Dias Paes Leme. Nos seus estudos, o engenheiro e pesquisador Euler de Carvalho Cruz verificou que a primitiva Capela de Nossa Senhora da Piedade do Paraopeba teve seu patrimônio instituído por Bento Rodrigues da Costa, em escritura de 27 de fevereiro de 1729. Estabelece o documento lavrado em Sabará que Rodrigues comprou do sargento-mor Leslico de Pontes Pinto terras e capoeiras em que havia uma capela, que foi reedificada e doada a Nossa Senhora da Piedade. O templo passou por reconstruções: a capela foi demolida, sendo erguida uma com esteios de braúnas e paredes de pau a pique e com telhas curvas; em 1896 a edificação ganhou duas torres, relógio e sino; em 1969, a igreja ganhou paredes de alvenaria e piso de ladrilho hidráulico. A elevação da localidade à condição de paróquia se deu em 1832.


Mais de 300 anos depois da primeira ermida, o templo segue como referência de fé, cultura e identidade local. De estilo arquitetônico setecentista, a Matriz Nossa Senhora da Piedade preserva características marcantes do período do Ciclo do Ouro, refletindo a religiosidade e a riqueza cultural da época. Sua relevância ultrapassa o valor religioso, consolidando-se também como marco da ocupação territorial de Minas Gerais.


Defesa do bem espiritual

Em 17 de janeiro de 2014, o Estado de Minas mostrou a luta dos moradores do distrito de Piedade do Paraopeba para defender seu bem cultural e espiritual mais precioso. Unidos, autoridades municipais, religiosos e comunidade temiam pela situação da Matriz Nossa Senhora da Piedade, que completara 300 anos quatro meses antes (em 8 de setembro de 2013) e sofria com problemas estruturais, trincas, infiltrações, gambiarras na parte elétrica, descaracterização da arquitetura barroca, deterioração das madeiras e afins, como o ataque de cupins.


Na época, o então administrador paroquial, padre Paulo Eustáquio Cerceau Ibrahim, mostrou o escoramento do coro com madeira. “Houve muita perda, intervenções, e a igreja se mantém de pé. Não queremos em hipótese alguma que o templo seja interditado”. Não houve alternativa, e a igreja foi fechada.


Em outubro de 2013, foi realizado um seminário com participação de arquitetos, historiadores, especialistas de órgãos federais, estaduais e municipais e instituições ligadas à preservação. Os problemas eram muitos.

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“A igreja tem diversos estilos, há duas lajes no lugar do forro, colocadas por padres holandeses que estiveram aqui, e há muitas alterações, embora as telhas originais tenham permanecido”, disse padre Paulo. Ele se mostrava bastante preocupado com a situação das torres e do campanário, “que se moveram”. Precavido, ele contou ao EM que havia guardado, em local seguro, pedaços de retábulos, tarjas e outros objetos dos primórdios da construção colonial tombada pelo município. 

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