Sobreviventes do Hospital Colônia em Barbacena (MG), cenário de violações de direitos humanos contra pessoas internadas de maneira compulsória no século XX, que ainda residem nas intermediações do espaço, serão realocados. A informação foi confirmada pela Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig) nesta terça-feira (28/4). Segundo a instituição, 14 pessoas vivem em residências construídas na área onde funcionava o hospício e são assistidas pela equipe do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena (CHBP), localizado no mesmo terreno e que continuará operando.
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De acordo com a Fhemig, esses 14 pacientes foram levados ao Hospital Colônia há décadas, quando a instituição recebia pessoas internadas de maneira compulsória, alguns ainda crianças. Esse período, marcado por violações de direitos humanos, foi chamado de “Holocausto Brasileiro” pela jornalista mineira Daniela Arbex, que escreveu um livro homônimo para denunciar o genocídio de mais de 60 mil pessoas.
Ainda conforme a fundação, essas 14 pessoas, que são idosas, serão realocadas para uma espécie de lar de cuidados na zona rural de Barbacena, fora da área onde foram vitimizadas. Segundo o Governo de Minas, os pacientes não têm familiares, não falam e “vivem em condições bem específicas de saúde”. O Executivo estadual informou que eles serão transferidos no próximo mês.
Apesar de o Governo de Minas ter anunciado “o fechamento definitivo do espaço onde funcionou o Hospital Colônia”, o Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena (CHBP), focado em tratamento humanizado, e o Museu da Loucura continuarão operando no local, conforme confirmaram a Fhemig e o Executivo estadual, procurados pela reportagem. Segundo a fundação hospitalar, as operações como manicômio, para onde pessoas eram mandadas à força, foram interrompidas na década de 80.
Reconhecimento da UFMG
A realocação dos sobreviventes foi anunciada dias após a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) pedir desculpas publicamente por ter adquirido, no século XX, cadáveres provenientes do hospício em Barbacena, fundado em 1903. O “Hospital Colônia de Barbacena e outras instituições psiquiátricas de Minas Gerais foram palco de uma das mais cruéis violações de direitos humanos já praticadas no Brasil: a internação de pessoas de todas as idades por supostos transtornos mentais”, afirmou a então reitora da UFMG, Sandra Goulart em declaração assinada no dia 18 de março e divulgada em 9 de abril.
No texto, a instituição reconhece ter adquirido cadáveres provenientes de Barbacena para atividades da Faculdade de Medicina e do Instituto de Ciências Biológicas (ICB). No livro Holocausto Brasileiro, a jornalista Daniela Arbex revelou que, entre 1969 e 1980, 1.853 corpos de pacientes do Colônia foram vendidos para 17 faculdades de medicina do país, entre elas, a UFMG.
“Em respeito ao direito à verdade, à justiça e à memória, a Universidade Federal de Minas Gerais pede desculpas à sociedade brasileira por essa prática que aviltou os corpos e a dignidade de pessoas falecidas no Hospital Colônia de Barbacena”, consta no posicionamento.
A instituição afirmou ainda que assume o compromisso de adotar medidas de reparação simbólica, em consonância com as recomendações da Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão da Procuradoria da República em Minas Gerais (MPF). São elas: A criação, em conjunto com grupos da luta antimanicomial, de espaços de memória na Faculdade de Medicina; a restauração do livro histórico de registro de recebimento de cadáveres, bem como a inclusão do tema da internação e da compra de corpos provenientes do Hospital Colônia no escopo das disciplinas ministradas pelo Departamento de Anatomia e Imagem da Faculdade de Medicina.
A UFMG afirmou ainda que recordar o ocorrido no Hospital Colônia é um “modo de enfrentar a banalização da violência historicamente dirigida às pessoas consideradas loucas, frequentemente tratadas como vidas desprovidas de dignidade e reduzidas à condição de objetos, tanto em vida, pela exclusão e pelo confinamento, quanto após a morte, pela apropriação de seus corpos como material para ensino e pesquisa.”
Holocausto Brasileiro
Conforme o livro Holocausto Brasileiro, da jornalista Daniela Arbex, mais de 60 mil internados morreram no Colônia. Segundo a autora, as pessoas eram enviadas ao hospício, no transporte conhecido como “trem da loucura”, sem sequer terem diagnósticos de doença mental. “Eram homens e mulheres que haviam se tornado incômodos para gente com mais poder”, consta no livro de Arbex.
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Entre as situações degradantes às quais os pacientes foram submetidos, a jornalista destacou a falta de água, comida, alojamento para dormirem e tratamentos com medicações e eletrochoques, sem embasamento médico. Arbex comparou o Hospital Colônia de Barbacena aos campos de concentração da Alemanha nazista.
