Muito anteriormente às roças de mandioca, feijão e milho, ao gado solto nos pastos e às vastas plantações de eucalipto; bem antes das aldeias das tribos xacriabás... Em um passado ainda mais remoto que o dos nômades paleoamericanos abrigados em lapas decoradas por pinturas rupestres, uma devastação cataclísmica se abateu sobre a região do Alto Rio Pardo, no Norte de Minas Gerais.

Há mais de 6 milhões de anos, depois de uma longa viagem acelerando a dezenas de milhares de quilômetros por hora, um corpo espacial riscou a atmosfera terrestre em chamas e colidiu com a Terra com força equivalente à de milhões de bombas atômicas de Hiroshima. O impacto e a energia desprendida foram de tal magnitude que minerais da crosta terrestre se derreteram e foram expelidos a milhares de quilômetros de altura e distância.

Um evento que os cientistas acreditam ter provocado uma grande devastação entre as matas e os ancestrais da megafauna, como megatérios (preguiças-gigantes), gliptodontes (tatus colossais) e gonfotérios (parentes dos elefantes).


O mistério da cratera

A cratera provocada pelo impacto ainda não foi encontrada. Mas, entre os municípios de Curral de Dentro, São João do Paraíso e Taiobeiras, cientistas identificaram os fragmentos do solo derretido pelo impacto do que pode ter sido um meteorito ou um cometa.

Não são fragmentos comuns. São vidros naturais resultantes do resfriamento da areia derretida, chamados de tectitos. São os primeiros encontrados no Brasil, e uma das amostras será exposta no Museu das Minas e do Metal MM Gerdau, na Praça da Liberdade, em Belo Horizonte. “Como o material foi descoberto em Minas Gerais, nós o batizamos de 'Geraisito'”, disse um dos cientistas que descreveram o achado em artigo científico na revista “Geology”, da Sociedade Geológica da América, o doutor em química pela USP Gabriel Gonçalves Silva.

São pequeninos, sendo o maior com 85 gramas. Têm vários formatos e o exame de isótopos de argônio revelou 6,3 milhões de anos de formação. Se colocado contra uma luz forte, o Geraisito brilha como um vidro opaco esverdeado.

Soraia Piva


Expedição para o Norte

A primeira amostra chegou a Gabriel por meio de uma pessoa que postou imagem da “pedra” encontrada na fazenda do pai em um grupo de identificação de meteoritos nas redes sociais. “Parecia um tectito, mas como não existiam no Brasil, no início, duvidei. Mas uma outra pessoa, de outra cidade próxima, apareceu dizendo o mesmo. Foi então que fomos para o Norte de Minas”, lembra Gabriel Silva.

“O local das descobertas ficava no meio de uma vegetação de cerrado e solo de cascalho, depósitos sedimentares mais recentes”, afirma outro cientista responsável pela identificação e pelo trabalho científico, Álvaro Penteado Crósta, geólogo que é autoridade em estruturas de impacto.

“Muita gente achava ser pedra preciosa, mas, ao tentar lapidar, o vidro se partia. A mãe de um colecionador chegou a jogar uma lata cheia fora. Acabou ganhando nome local de turmalina fundo de garrafa”, conta Crósta.


Mais pistas pelo país

Depois da notícia, no fim de 2025, outros fragmentos foram encontrados na Bahia e no Piauí, descrevendo uma área de dispersão de milhares de quilômetros. Mas o local do impacto na Terra, uma cratera gigante, ainda não foi encontrado. “Pode ter ocorrido inicialmente no mar ou em um desses estados. A área de dispersão que encontramos é de 900 quilômetros, então deve haver mais tectitos em outros locais”, afirma Álvaro Crósta.

Eles calculam que a cratera formada pelo impacto possa ter de 600 a 700 metros de profundidade e de pelo menos 5 a 6 quilômetros de diâmetro. Em todo o mundo, há cerca de 200 crateras de impactos identificadas, sendo nove no Brasil, a maior de 40 quilômetros. “Diferentemente da Lua, que não tem atmosfera nem erosões, a Terra degrada tanto os meteoritos quanto as crateras, que podem se encher de água e erodir com as chuvas, desaparecendo ao longo dos milhares de anos”, detalha Gabriel Silva.

No Museu MM Gerdau, o Geraisito ainda vai ganhar um espaço para ser exposto, ao lado de uma coleção que, entre material de todo o mundo, conta com rochas do espaço que chegaram à Terra, os meteoritos. “O meteorito é essa massa grande, de rocha e metal, que cai do espaço na Terra. Antes, quando passa pela atmosfera e se incendeia, o chamamos de meteoro. Temos aqui no museu meteoritos que ganharam os nomes da área de impacto, como Barbacena, Uberaba, Ibitira, Bocaiúva...”, afirma o pesquisador do museu, Luciano Faria.

O pesquisador Luciano Faria, do Museu MM Gerdau, exibe a amostra do Geraisito, primeiro material do tipo localizado no país, que passará a integrar a exposição

Túlio Santos/EM/D.A Press

“Há também amostras de tectitos das Filipinas, da Europa e agora o primeiro brasileiro, de Minas Gerais. Os formatos diferentes dos tectitos também são explicados pela sua dispersão. A forma como pingaram e caíram no solo, resfriando rapidamente, é que deu um formato único a cada um”, afirma Faria.
Um dos interesses dos pesquisadores em enviar as amostras a museus é justamente despertar a curiosidade em mais pessoas para que também procurem por mais tectitos em áreas próximas ou até mesmo além, ajudando assim a traçar melhor a dispersão e a localizar a cratera do impacto.


Viajante espacial


A formação do Geraisito é apenas a parte mais rápida da história, já que o corpo celeste que colidiu contra a Terra há mais de 6 milhões de anos pode ter vindo de muito longe (veja arte na página ao lado). Pode se tratar de um cometa, mas a professora Maria Elizabeth Zucolotto, da UFRJ, astrônoma responsável pelo Setor de Meteorítica do Museu Nacional do Rio de Janeiro, diz que geralmente os impactos no planeta vêm de asteroides que têm uma órbita a cerca de 450 milhões de quilômetros do Sol, originários de uma região entre Júpiter e Marte conhecida como Cinturão de Asteroides.

“Enquanto vagam pelo espaço, esses corpos são chamados de asteroides (se forem grandes) ou meteoroides (se forem menores), possuindo composições que variam de gelo e poeira (cometas) a silicatos rochosos ou ligas metálicas de ferro e níquel”, descreve a especialista. “Os meteoritos menores são freados e incinerados pela nossa atmosfera, quando entram nela. Senão, seríamos repletos de crateras, como a Lua, onde nada impede os impactos. A atmosfera é o nosso escudo aqui na Terra. Mas não é capaz de segurar um asteroide”, explica.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

Se o mais comum tiver ocorrido, a astrônoma estima que o impacto que produziu fragmentos como o Geraisito possa ser atribuído a um meteorito metálico, com no mínimo um quilômetro de diâmetro e velocidade cósmica entre 11 km/s (39,6 mil km/h) e 70 km/s (252 mil km/h). A força gerada na menor velocidade e menor diâmetro seria equivalente a 3,5 milhões de bombas atômicas de Hiroshima (52 gigatoneladas de TNT).

compartilhe