A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) pediu desculpas, publicamente, 45 anos após utilizar corpos de vítimas do Hospital Colônia de Barbacena em atividades de ensino. A nota, divulgada nessa quinta-feira (9/4), reconhece a prática como uma violação à dignidade humana e foi assinada pela então reitora da instituição, Sandra Goulart, em 18 de março. A universidade ainda assumiu o compromisso de adotar medidas de reparação.
Em comunicado, a UFMG admitiu ter adquirido corpos da unidade psiquiátrica em Barbacena, no Campo das Vertentes, para as aulas de anatomia na Faculdade de Medicina e no Instituto de Ciências Biológicas (ICB). Na época, era comum as pessoas que morriam serem enterradas como indigentes ou destinadas às instituições de ensino.
"A Universidade Federal de Minas Gerais pede desculpas à sociedade brasileira por essa prática que aviltou os corpos e a dignidade de pessoas”, diz a nota. A UFMG ainda reconheceu não só o uso nas atividades, mas também a compra dos cadáveres para esse intuito.
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A universidade afirmou o comprometimento com ações de reparação conforme recomendado pela Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão da Procuradoria da República de Minas Gerais (MPF). Entre os trabalhos, estão a criação de espaços de memória na Faculdade de Medicina, com apoio de grupos da luta antimanicomial; a restauração do livro de registro de recebimento de cadáveres e a inclusão de disciplinas sobre internação e compra de corpos do Colônia no Departamento de Anatomia e Imagem.
Além disso, a UFMG realiza anualmente, desde 2013, a Semana de Saúde Mental e mantém, há 26 anos, o programa Vida Após a Vida, baseado na doação voluntária e consentida de corpos, alinhada a padrões internacionais para a obtenção de cadáveres destinados às aulas do curso.
"Este pedido de desculpas por parte da UFMG tem como objetivo manter viva essa memória, pois ela é fundamental para que a desumanização e a objetificação das vidas e dos corpos dessas pessoas não voltem a ser naturalizadas", reforça a universidade.
Mais de 60 mil vítimas
O pedido de desculpas, feito pela primeira vez, relembra o episódio de violação de direitos humanos cometidas durante todo o século 20 dentro do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena, que ficou conhecido como "Holocausto brasileiro", graças à obra da jornalista Daniela Arbex.
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O Hospital Colônia foi palco de internações em massa, em sua maioria sem diagnóstico, que resultaram na morte de mais de 60 mil pessoas. O levantamento, que consta no livro de Daniela Arbex, indica a venda de 1.857 corpos de pacientes para 17 faculdades de medicina do país entre 1969 e 1981.
