MEMÓRIA

Copiadoras de BH se reinventam e sobrevivem ao tempo

Empresas do ramo de reprografia da capital mineira mostram que continuam firmes em meio a intensas mudanças tecnológicas e comportamentais

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Em um mundo cada vez mais digital, copiadoras parecem estar sumindo aos poucos. A constatação, no entanto, pode ser um tanto apressada. Inegável que as transformações tecnológicas alteraram nosso modo de vida, ampliando o valor de bytes e pixels, mas observadores antenados podem enxergar momentos de transformação como janelas de oportunidade para novos negócios. Claro, não é uma conta fácil. Nessa corda bamba entre o desalento e o apetite pelo desconhecido, empresários que lideram copiadoras relatam como fizeram para seus negócios sobreviverem ao longo das últimas décadas em Belo Horizonte.

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Houve quem chegasse para o empresário Daniel Montalvão, de 51 anos, e afirmasse categoricamente que o negócio dele tinha a falência como destino certo. Felizmente, ele não se deixou abalar e seguiu em frente. No comando da Copiar, fundada em 1995, Montalvão percebe que as mudanças de consumo esgotaram algumas demandas: “Ainda fazemos cópias em papel, mas a quantidade diminuiu assustadoramente”, conta.

Atualmente instalada na Savassi, a empresa vem se reinventando e hoje investe em lonas, adesivos, canecas e outros produtos personalizados, geralmente, para festas e eventos corporativos. As impressões tradicionais diminuíram, mas outros serviços cresceram, e o estabelecimento segue apostando em seu poder de adaptação.

Os tempos de ouro – e também o decrescer do negócio – foram acompanhados por Ronilda Piazani, de 67 anos, funcionária da loja há 30. “Havia filiais em vários shoppings, na Associação Médica e no Minas Tênis Clube”, relembra a administradora. Hoje, apenas uma loja – a primeira a ser aberta – segue funcionando.

A tentativa de expandir o negócio na web aconteceu, mas não vingou. “Os clientes são pessoas mais velhas”, diz Daniel. “São pessoas que ainda não confiam na tecnologia”, completa Ronilda. Na contramão do avanço tecnológico das últimas décadas, devido ao perfil dos frequentadores, o empresário acredita que os serviços de uma copiadora funcionam melhor sendo ofertados presencialmente. “É essencial ter um ponto físico”.

A jovem Carolina Leroy Sampaio é diretora na Hiper Graphic, em Lourdes
A jovem Carolina Leroy Sampaio é diretora na Hiper Graphic, em Lourdes Tulio Santos/EM/D.A. Press

RELAÇÕES AFETIVAS

O administrador de empresas Murilo Galizzi, de 70 anos, é um dos frequentadores contumazes de copiadoras há mais de 40 e tem com elas uma relação afetiva – as frequenta semanalmente, imprimindo plantas arquitetônicas, pois atua no ramo imobiliário.

Morador do Bairro de Lourdes, na Região Centro-Sul de BH, é apaixonado por leitura, consome jornais e revistas impressos e admite ter gosto pelo papel. Apreço parecido tem a empregada doméstica Alessandra Rodrigues, de 42 anos, que acha que o celular facilita, porém o papel transmite mais segurança.

A copiadora onde Murilo bate ponto é a Exata, inaugurada em 1975 no Bairro de Lourdes por Roberto de Almeida Lorentz. Ao avaliar em retrospecto sobre a sobrevivência do negócio, ele diz que a tecnologia acabou empurrando o segmento para a UTI. “Foi bom para todo mundo, menos para as copiadoras”, diz. Apesar do diagnóstico fatalista, a loja segue em pleno funcionamento, com dois andares e pilhas de papéis.

Vindo da cidade mineira de Teófilo Otoni, no Vale do Mucuri, Roberto contabiliza 78 anos de vida, 60 deles trabalhando com copiadoras. “Abri minha loja aos 27”, relembra, ao reconhecer que a ajuda de judeus foi fundamental para que ele conseguisse dinheiro para inaugurar o empreendimento. Após milhões de cópias de papéis feitas nas máquinas da empresa, a Exata chegou a ter cinco lojas. “Virávamos a noite fazendo cópias heliográficas, com aquele fedor de amônia”, rememora.

Os funcionários da Exata são, em sua maioria, antigos. Conceição Moura trabalha no local há 31 anos. Laécio Messias, subgerente, está ali há 45, desde o início da década de 1980. Muitos, mesmo aposentados, seguem trabalhando. Enquanto corta manualmente centenas de convites, Juarez de Almeida Lorentz, irmão dez anos mais novo de Roberto e gerente do negócio, explica que as máquinas do passado eram mais eficientes. Segundo ele, antes não era necessário realizar tantos trabalhos manuais, mas a queda dos lucros obrigou a substituição por equipamentos mais simples.

O empresário Daniel Montalvão optou por investir no ramo e segue com planos
O empresário Daniel Montalvão optou por investir no ramo e segue com planos Tulio Santos/EM/D.A. Press


CHEIRINHO NOSTÁLGICO

Roberto lembra de um tempo em que Belo Horizonte tinha poucas copiadoras e muitas livrarias e papelarias. As cópias eram feitas por heliografia, processo que utilizava luz e papel tratado com amônia – o que deixava o nostálgico cheirinho de álcool nas folhas após a impressão.

Grandes obras brasileiras impulsionaram o setor, como a Usina Hidrelétrica de Itaipu, a Ponte Rio-Niterói, estádios, hotéis e shoppings. “O Brasil estava em construção, e Minas também”, resume.

Ele recorda de uma cidade sem Mineirão, Minas Shopping ou BH Shopping, e uma região metropolitana sem o Aeroporto de BH, em Confins. Segundo o empresário, boa parte dos projetos de engenharia da capital mineira passaram pela copiadora. Raul de Lagos Cirne, arquiteto responsável por edifícios emblemáticos da cidade, foi um de seus fregueses. “Ele virou meu cliente quando abri a loja, bem como outros grandes profissionais”, lembra.

Copiadora Brasileira, uma das mais tradicionais de BH, foi fechada em 2018
Copiadora Brasileira, uma das mais tradicionais de BH, foi fechada em 2018 Arquivo pessoal/Divulgação


PERSONALIZAÇÃO COMO SAÍDA

Apesar da memória afetiva, Roberto é direto ao falar do presente. Para ele, as copiadoras estão sendo extintas. “Isso aqui é o restinho do caldo”, sentencia.


O empresário diz que quem mais consome cópias são engenheiros e mestres de obras, que precisam visualizar medidas com clareza. Mesmo assim, Roberto acredita que novas tecnologias, como a inteligência artificial, vão aprofundar a crise. “Agora surge uma tecnologia que vai mudar tudo. Quem não ampliar a visão vai ficar para trás”, prevê.

Copiadora Hipercópias mudou o nome para Hiper Graphic, em 2007, marcando sua transição para o setor gráfico
Copiadora Hipercópias mudou o nome para Hiper Graphic, em 2007, marcando sua transição para o setor gráfico Hiper Graphic/Divulgação

À frente da Hiper Graphic, Carolina Leroy Sampaio, de 28 anos, tem outra percepção. Mais jovem do que a copiadora fundada por seu pai, Paulo Sampaio, em 1995, ela dirige o negócio ao lado dele e do irmão, e acredita no crescimento do empreendimento. Investir em inovação tecnológica é uma das estratégias. Uma das máquinas presentes na loja, que fica também no Bairro de Lourdes, é importada de Israel e custou cerca de um milhão de reais.

A empresa – que começou como um pequeno xerox na Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) – passou a investir em gráfica digital e comunicação visual. Hoje, imprime em materiais como PVC, EPS e vidro, Produz itens personalizados para empresas e pessoas físicas. Carolina acredita que o marketing offline continua relevante. Para ela, a chave do sucesso e a saída para não ser engolida pelas mudanças tecnológicas está na personalização, no design e no branding. “Vejo muito futuro e oportunidade”, finaliza a empresária.

As diferentes visões acerca do mesmo negócio deixam clara a necessidade de buscar alternativas além do que se vê. É essencial valorizar o passado, a história que nos trouxe até aqui, aprender com aqueles que em seu tempo alcançaram feitos grandiosos e levaram Minas Gerais, e especialmente, Belo Horizonte a se tornar uma relevante metrópole.

Ademais, para aqueles que esperam continuar crescendo, é inegável a necessidade de compreender as mudanças constantes que vêm – e continuarão – acontecendo no mundo, nas expectativas de quem consome e na maneira de as suplantar.

* Estagiária sob supervisão do subeditor Rafael Rocha.

Laécio Messias, subgerente da Exata, acompanha as mudanças nas demandas gráficas desde a década de 1980
Laécio Messias, subgerente da Exata, acompanha as mudanças nas demandas gráficas desde a década de 1980 Tulio Santos/EM/D.A. Press

O TAMANHO DO SETOR GRÁFICO

15.691
empresas no Brasil Consumo de

7,5
toneladas de papel

R$ 63 bilhões
de receita

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* Dados da Associação Brasileira da Indústria Gráfica (ABIGRAF) de 2022

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