As chuvas que castigaram Juiz de Fora na noite de 23 de fevereiro deixaram um rastro de destruição e dor ainda forte na cidade. Um mês após a tragédia, que resultou em 65 mortes e deixou mais de 8,8 mil pessoas desabrigadas ou desalojadas, os impactos seguem visíveis nos bairros mais afetados. Entre os escombros de imóveis, sonhos desfeitos e o luto, os atingidos tentam se reerguer, enquanto o poder público corre para pôr de pé os espaços e serviços afetados. Passado o primeiro golpe, a incerteza é agora o maior tormento, especialmente para quem teve a casa destruída ou precisou sair dela diante do risco de novos desabamentos. “Fica a insegurança de não saber quando vamos conseguir retomar nossas vidas”, resume a fotógrafa Jacqueline Campos, de 45 anos, hoje desalojada.

O volume de chuva registrado – 752,4 mm no acumulado do mês – foi o maior já contabilizado para fevereiro desde 1961, superando com folga o recorde anterior, de 1988, quando foram registrados 456,1 mm. Diante desse cenário, a reportagem do Estado de Minas percorreu áreas em que os estragos foram mais críticos para ouvir moradores e entender como estão reconstruindo suas vidas.

Na Rua Nicolau Capelli, no Bairro Cerâmica, na Zona Norte, as marcas do “efeito cascata” ainda são fortes. As casas foram atingidas por deslizamentos iniciados no Bairro Esplanada, em um encadeamento que percorreu vias paralelas – das partes mais altas, como a Rua Professor Valquírio Seixas de Faria, passando pela Rua Mamed Camilo, até alcançar a via mais baixa. Todos os imóveis da Nicolau Capelli foram completamente interditados, e os moradores tiveram que deixar suas casas. A reportagem conseguiu localizar alguns deles, que aceitaram retornar ao local para relatar o que viveram.

A corretora de seguros Carolina de Mello Campelo, de 33 anos, morava no local desde que nasceu. Na parte da frente do um terreno também viviam sua mãe e sua avó. No imóvel, ainda é possível ver marcas do barro que espirrou nas paredes da casa de Carolina, que fica nos fundos do lote. Em 21 de fevereiro, dois dias antes do temporal que devastou a cidade, um deslizamento, também decorrente de uma chuva naquele dia, atingiu a casa de uma vizinha, e a lama invadiu o terreno atrás da residência de Carolina. O volume de terra foi tão grande que, ao bater no solo, a lama "voou" para as paredes. “Minha vizinha ficou completamente soterrada, somente com o braço para fora. Os moradores se uniram para socorrê-la até os bombeiros chegarem. Foi bem no início da manhã, por volta das 6h45, quando acordei assustada com um estrondo muito forte”, lembra.

No dia 23, com a chuva intensa que causou a tragédia, a situação se agravou. “O resto do barranco atrás aqui de casa, onde também tem uma área de pedreira, acabou de cair. Deslizamentos em vários pontos atingiram outras casas no bairro e muitas desabaram total ou parcialmente”, relata. Apesar de sua residência não ter sido diretamente afetada, ela decidiu sair de casa, por medo, ainda no dia 21. Hoje, vive provisoriamente na residência da chefe. “Minha mãe foi para a casa do namorado, e minha avó também está lá. Agora a gente não sabe o que vai acontecer. Não sabemos se vamos poder voltar e não temos condições financeiras de pagar aluguel”, conta.

Na mesma rua, a dona de casa Michelle Costa Velino, de 50 anos, e o marido, Davi de Oliveira, de 63, viram o sonho da casa própria ser parcialmente destruído apenas oito meses após a mudança. Foram dois anos de construção depois de muitos juntando recursos para levantar a residência de dois andares, com quatro quartos, sala, cozinha, área de serviço, varanda, garagem para dois carros e piscina. Segundo a família, o imóvel estava avaliado em cerca de R$ 600 mil.

A dona de casa Michelle Costa Velino, de 50 anos, e o marido, Davi de Oliveira, de 63, viram o sonho da casa própria ser parcialmente destruído apenas oito meses após a mudança. Vizinhos do casal, cinco pessoas da mesma família morreram soterradas na casa ao lado

Bruno Luis Barros/EM/DA. Press

“Ouvimos um estrondo muito forte quando nos preparávamos para dormir. Graças a Deus, a gente conseguiu sair a tempo. Veio uma avalanche de terra muito grande da rua de cima, porque uma casa desabou levando tudo pelo caminho, em efeito cascata. A sala e a garagem foram as únicas partes que não foram atingidas”, conta Michelle.

Davi também relembra o esforço para erguer o imóvel. “Aqui havia duas casas quando fizemos a compra. Nós as derrubamos e fizemos tudo de novo, do jeito que a gente sonhou. Perdemos praticamente tudo que estava ali dentro, como geladeira, fogão e móveis. Na sala tem o sofá e outros objetos, mas os não tiramos porque não temos onde colocar”, conta.

Além da perda material, a família convive com a lembrança de uma tragédia que se abateu sobre os vizinhos: cinco pessoas da mesma família morreram soterradas na casa ao lado, incluindo o neto de apenas 3 anos do único sobrevivente — um homem que estava em Belo Horizonte quando recebeu a notícia de que havia perdido a esposa, a nora, dois filhos e o neto.

“Somente o marido não morreu, porque estava viajando a trabalho. Isso ficou marcado. O lugar com que a gente sonhou agora também é o lugar dessa tragédia. Ficam na nossa cabeça a lembrança dessas pessoas e o fato de que morreram de forma tão trágica”, diz Davi. Ainda assim, ele tenta reunir forças para recomeçar. “A gente precisa seguir em frente. Tenho esperança de voltar a viver aqui, pois não tenho outro lugar para ir nem condições de comprar outra casa.”

A fotógrafa Jacqueline Campos, de 45, mora há 30 anos na Nicolau Capelli e também precisou deixar o imóvel. Na noite do temporal, ela não estava em casa. “Aqui não teve nada destruído, mas entrou muita água e parte do barranco caiu nos fundos. Como há risco de o imóvel ser atingido caso a residência de cima desabe, resolvi não ficar aqui”, explica. Atualmente, vive na casa de uma amiga, à espera de definições. “A gente espera que a prefeitura tome uma atitude. Até agora vemos muitas promessas, mas fica a insegurança de não saber quando vamos conseguir retomar nossas vidas”, afirma.

Acima da rua, em uma área de morro acessada por um escadão nas imediações da Rua Professor Valquírio Seixas de Faria, estão as casas do projeto Colorindo o Habitar, que transformou a paisagem com a pintura de 90 imóveis. Agora, a prefeitura avalia a possibilidade de demolição dessas construções, devido ao alto risco de desmoronamento.

Casa de grande porte está à beira de um barranco, com parte da estrutura suspensa. Caso desabe, a residência da fotógrafa Jacqueline Campos será a primeira atingida

Bruno Luis Barros/EM/DA. Press

No local, a reportagem flagrou rachaduras em diversas residências. Em um dos casos, uma casa de grande porte está à beira de um barranco, com parte da estrutura suspensa. Caso desabe, a residência de Jacqueline será a primeira atingida. “Difícil lidar com isso, saber que algo pelo que você lutou tanto para conseguir pode desaparecer a qualquer momento. A prefeitura precisa fazer algo urgente”, desabafa.

A poucos metros dali, a costureira Renata Fonseca, de 50, também precisou deixar o imóvel e mora hoje na garagem da casa de um sobrinho. Sua residência foi interditada pela Defesa Civil devido às avarias e à instabilidade do solo. “Minha moradia agora é a garagem. Embora minha casa não tenha caído, ela está com muitas rachaduras. O imóvel debaixo do meu está com o chão todo oco. Ficar ali seria um risco grande demais”, reflete.

Casas do projeto social Colorindo o Habitar podem acabar sendo demolidas. No local, a reportagem flagrou rachaduras em diversas residências

Bruno Luis Barros/EM/DA. Press

Trauma coletivo

Também moradora da rua, Maria dos Santos Ferreira, de 59, não teve a casa atingida diretamente, mas convive com o trauma coletivo. “Nunca passei por algo assim. A minha casa não foi atingida, mas caiu muita terra nos fundos. Eu não estava aqui no dia, mas meu marido sim. Tomei um susto quando fiquei sabendo. Não tive prejuízo material, mas me solidarizo com quem teve. Uma família inteira morreu soterrada. Ter isso tão perto da gente nos choca demais”, diz.

Na Zona Leste, no Bairro Nossa Senhora Aparecida, as marcas da tragédia também são profundas. A cozinheira Andréia Maria do Carmo, de 51, moradora da Rua São Pancrácio desde 2020, viu sua casa ser comprometida após um deslizamento atingir o terraço. O imóvel, ainda em reforma e nem sequer quitado, apresenta rachaduras e foi considerado condenado. “Comprei essa casa e comecei a reformar. Ainda estou pagando. Pelo que ouvi de um engenheiro da Defesa Civil, ela está condenada”, relata.

Andréia Maria do Carmo na frente de sua casa, que ficou comprometida após deslizamento de terra Bruno Luis Barros/EM/DA. Press
A cozinheira Andréia Maria do Carmo, de 51 anos, viu sua casa ser comprometida após um deslizamento atingir o terraço Bruno Luis Barros/EM/DA. Press

Além do prejuízo, Andréia enfrenta dificuldades para acessar benefícios públicos, segundo afirma. “No Diga (Departamento de Informação Geral e Atendimento), a fila está muito grande. Ainda estou tentando conseguir os R$ 7,3 mil (benefício anunciado pelo governo federal)”, conta. Em meio a isso, lida com problemas de saúde, após histórico de câncer e AVCs, e aguarda cirurgias. “Minha saúde é muito precária. E ainda tenho que correr atrás dos meus direitos”, desabafa.

Vizinho dela, o porteiro David Fernandes Xavier, de 40, teve a casa invadida pela lama. Um dos quartos foi completamente soterrado, justamente onde dormiam seus filhos pequenos. “Foi Deus quem atuou. Meu menino de 1 ano e 11 meses e minha filha de 6 anos estavam lá. Minha esposa ouviu um estrondo e correu para tirá-los de lá. Cerca de 20 minutos depois, o barranco atrás do imóvel despencou e uma avalanche atingiu nossa casa. Eu não consegui voltar do trabalho por causa do caos na cidade”, conta. Hoje, ele, a esposa e os filhos estão abrigados na residência da sogra.

O porteiro David Fernandes Xavier, de 40, teve a casa invadida pela lama. Um dos quartos foi completamente soterrado, justamente onde dormiam seus filhos pequenos Bruno Luis Barros/EM/DA. Press
Interior da casa de David Fernandes Xavier. Imóvel foi tomado pela lama Bruno Luis Barros/EM/DA. Press
Terra deslizou atrás das casas de Andréia Maria do Carmo e do vizinho David Fernandes Xavier Bruno Luis Barros/EM/DA. Press

Na Rua São Tarcísio, a dona de casa Cíntia Rosalina Barbosa Vianna, de 45, decidiu deixar o imóvel após o risco se tornar iminente. A casa da irmã, nos fundos, foi atingida por um deslizamento vindo de um bambuzal da Rua São Pancrácio. Com o solo comprometido, parte do asfalto cedeu e há risco de novos desmoronamentos que podem atingir várias casas. “Ficamos até agora, mas resolvemos sair. Meu marido alugou uma casa. Não dá para viver com medo. Estamos saindo daqui”, conta.

A reportagem do EM esteve também no Parque Burnier, onde 22 pessoas morreram. No local, não foram encontradas pessoas diretamente afetadas pela tragédia, como moradores com casas interditadas ou destruídas. Ainda assim, o cenário é um retrato de devastação – onde 12 casas desabaram, soterrando famílias inteiras, e o ambiente segue marcado pela destruição e pela memória do epicentro da tragédia.

Deslizamento na Rua São Pancrácio, no Bairro Nossa Senhora Aparecida, ameaça conjunto de cinco casas, incluindo a da moradora Cíntia Rosalina Barbosa Vianna, na rua São Tarcísio

Bruno Luis Barros/EM/DA. Press

Um mês de calamidade

Um mês depois dos temporais de 23 de fevereiro, os dados mais recentes sobre o desastre climático que provocou desabamentos e desmoronamentos em Juiz de Fora, além de 65 mortes, dão a dimensão do esforço ainda necessário para superar a tragédia na cidade da Zona da Mata Mineira. Segundo números apresentados pela prefeita Margarida Salomão (PT) na semana passada, os trabalhos avançam, mas, além de famílias fora de casa, ainda há vias interditadas e escolas fechadas e vistorias de casas a fazer, enquanto medidas assistenciais com recursos federais começam a ser efetivadas.

De acordo com os números atualizados, apresentados em evento na terça-feira passada (17/3) que reuniu representantes da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Instituto Federal do Sudeste, Câmara Municipal, Ministério Público, Polícia Militar e Corpo de Bombeiros, entre outras instituições, 1.008 moradias foram completamente destruídas, 928 imóveis estão interditados e 58 casas precisaram ser evacuadas por risco iminente. Ao todo, 156 famílias – o equivalente a 457 pessoas – foram realocadas para apartamentos e hotéis, já que os abrigos em escolas municipais tiveram que ser desativados para a retomada das aulas. Os dados representam uma atualização em relação ao balanço anterior, divulgado no dia 10, quando a informação era de que 1.193 imóveis tinham sido destruídos.

A Defesa Civil já fez 4.255 vistorias em imóveis atingidos, enquanto outras 1.150 solicitações ainda aguardam atendimento. No esforço de recuperação, 57 vias foram desinterditadas, e 191 passaram por serviços de raspagem e limpeza. Ainda assim, 25 vias permanecem interditadas. O transporte público segue em retomada gradual, com 86% das linhas de ônibus em funcionamento.

Na educação, a retomada ocorre de forma gradual: das 103 escolas municipais, 79 voltaram às atividades. Entre as creches, 49 de 50 estão em funcionamento. Cerca de 1.600 alunos seguem sem aulas, enquanto aproximadamente 25 mil retornaram às salas.

Durante a coletiva, a prefeita destacou que os principais desafios imediatos envolvem a questão da moradia, além da necessidade de obras estruturais, como contenção de encostas e drenagem urbana. Projetos já autorizados pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do governo federal, somam R$ 373 milhões para obras de drenagem em córregos de bairros como Humaitá, São Pedro, Santa Luzia, Ipiranga e Ribeirão das Rosas, além de R$ 233 milhões para intervenções de contenção em regiões como Grajaú, Olavo Costa, Furtado, Santa Cecília, Costa Carvalho, Cidade do Sol, Graminha e Dom Bosco. “Não vai ser fácil. Vamos ter que enfrentar isso juntos, porque os problemas são imensos. Estamos trabalhando arduamente para aplicar esses recursos e também os que ainda serão destinados ao município”, afirmou Margarida.

Assistência às vítimas

Paralelamente às obras e ações emergenciais, medidas de assistência às vítimas começam a ser implementadas. O Auxílio Reconstrução, benefício do governo federal que prevê o pagamento de R$ 7,3 mil às famílias atingidas, entrou em operação na terça-feira (17/3). O cadastro não é feito diretamente pelos cidadãos: cabe à Prefeitura de Juiz de Fora inserir os dados no sistema federal. A orientação é que os moradores procurem o Centro de Referência de Assistência Social (Cras) ou unidades do Diga, levando documentos de identificação de todos os membros da família e comprovante de residência. No âmbito municipal, a prefeitura anunciou o pagamento do Auxílio Calamidade JF, no valor de R$ 800, em parcela única aos atingidos inscritos no CadÚnico.

Ainda em nível federal, o ministro das Cidades, Jader Barbalho Filho, informou, em 26 de fevereiro, que o governo disponibilizará um cheque de R$ 200 mil para famílias que tiveram suas casas destruídas. O recurso poderá ser utilizado para a compra de imóveis em qualquer município de Minas Gerais. A concessão dependerá de laudo técnico da Defesa Civil, que deve confirmar a destruição ou condenação das residências. A previsão é de que cerca de 2.500 famílias recebam a ajuda em Juiz de Fora.

Complementando as ações de apoio, o governo de Minas anunciou o “Kit Recomeço”, voltado a famílias que perderam bens essenciais. O programa prevê a entrega de itens como geladeira, fogão, máquina de lavar e cama com colchão.

Ações emergenciais

Situação dos imóveis, vias e escolas e o que estava em andamento na cidade até 27/3

Imóveis

1.008 moradias foram completamente destruídas nas chuvas
928 imóveis estão interditados
58 casas precisaram ser evacuadas
4.255 vistorias de imóveis feitas pela Defesa Civil Municipal
1.150 solicitações de vistorias na fila

Vias

57 vias desinterditadas
191 vias passaram por serviços de raspagem e limpeza
25 vias ainda interditadas

Transporte

86% das linhas de ônibus em funcionamento

Educação

79 das 103 escolas municipais voltaram às atividades
49 das 50 creches em funcionamento
1.600 alunos sem aula
25 mil alunos retornaram às salas

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Fonte: Autoridades locais

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