Um macaco-prego fêmea, batizada de Chica, que vivia na Mata do Ipê, em Uberaba, e foi diagnosticada com diabetes mellitus no Hospital Veterinário da Uniube (HVU), recebeu um novo lar. O animal, com idade estimada entre 20 e 30 anos, havia sido recolhido dentro da mata em estado apático por servidores municipais em 14 de janeiro deste ano.

Após receber autorização do Instituto Estadual de Florestas (IEF), ela foi encaminhada para um mantenedor de fauna silvestre no município do Triângulo Mineiro, onde está recebendo os devidos cuidados.

O caso da macaca é considerado raro, ou seja, diagnóstico de diabetes mellitus em primata não humano que vivia livre na natureza. Por causa da doença, Chica não poderá mais retornar à vida livre.

O HVU informou que Chica precisou ficar semanas em acompanhamento clínico no Setor de Animais Silvestres do hospital, depois que, durante um longo período, recebeu de visitantes da Mata do Ipê alimentação inadequada.

Diante da impossibilidade de retorno à vida livre, a equipe do Hospital Veterinário da Uniube recomendou o encaminhamento do caso ao IEF, órgão responsável por definir o destino mais adequado de animais silvestres, dentro dos protocolos de manejo da fauna, complementa o HVU.

O hospital explicou que o IEF possui experiência no manejo de macacos-prego e estrutura apropriada para a manutenção e acompanhamento do animal, incluindo a continuidade das medicações e a oferta de alimentação controlada, rica em verduras frescas.

Muito bem recebida

Segundo o responsável pelo mantenedouro de fauna silvestre, João Paulo Vieira, Chica foi muito bem recebida por duas primatas que já estavam no espaço do IEF em Uberaba. “Elas contam com todo o enriquecimento ambiental, que foi planejado junto ao nosso biólogo responsável técnico, para que essa transferência seja a menos traumática possível e para que a Chica continue recebendo os cuidados adequados aqui conosco. Ela vai ser muito amada aqui, como todos os animais são”, afirmou Vieira.

Caso raro trouxe alerta

O médico-veterinário responsável pelo Setor de Animais Silvestres do HVU, Cláudio Yudi, destacou que o caso da macaca-prego também reforça a importância de não se alimentar animais silvestres em parques e áreas naturais. “A prática pode provocar sérios distúrbios nutricionais, alterações comportamentais e dependência alimentar, além de aumentar o risco de acidentes e agressões envolvendo visitantes.”

A macaca estava recebendo alimentos inadequados, principalmente carboidratos simples, como pão de queijo, bolachas, entre outros, oferecidos por pessoas que visitavam a Mata do Ipê. “Isso resultou em uma condição metabólica grave que comprometeu permanentemente sua saúde”, considerou o médico-veterinário responsável pelo caso, Cláudio Yudi Kanayama.

Para ele, a condição de Chica está associada à alimentação inadequada oferecida por frequentadores da área verde.

Alimentar animais silvestres pode provocar distúrbios metabólicos, como diabetes e obesidade; dependência alimentar; perda da capacidade de forrageamento (busca por alimentos); alterações comportamentais; aumento de agressividade; maior risco de transmissão de zoonoses; e desequilíbrio ecológico.

“Recomenda-se que a população não alimente animais silvestres em parques ou áreas de preservação. Eduque crianças sobre a importância de respeitar a fauna em seu habitat natural, apoie políticas públicas de conservação e procure instituições especializadas ou a Polícia Ambiental ao encontrar um animal em situação de risco.”

“Queremos que essa história sirva como alerta nacional. Alimentar um animal silvestre pode parecer um gesto de carinho, mas pode condená-lo a uma doença crônica irreversível”, declarou o veterinário.

O diagnóstico

Chica foi resgatada em 14 de janeiro de 2026, na região da Mata do Ipê, em Uberaba, após apresentar comportamento apático e sinais clínicos compatíveis com comprometimento respiratório. O resgate foi realizado por servidores da Prefeitura Municipal de Uberaba, e o animal foi encaminhado ao Hospital Veterinário da Uniube para avaliação e tratamento especializado.

Segundo o HVU, durante a internação, a equipe do Setor de Animais Silvestres realizou exame clínico completo, além de exames laboratoriais e de imagem. Inicialmente, o tratamento foi direcionado para um quadro de broncopneumonia.

Após a estabilização clínica e a realização de exames complementares, foi confirmada a presença de diabetes mellitus, condição que exige manejo permanente, dieta controlada e monitoramento periódico.

Ao longo do período de internação, Chica respondeu bem ao tratamento clínico, apresentando melhora do estado geral, ganho de peso e boa adaptação ao manejo alimentar com verduras e alimentos naturais adequados para a espécie, finaliza o hospital.

Vários exames

O diagnóstico da diabetes no animal aconteceu após 25 dias de internação no HVU. O médico-veterinário conta que o primeiro diagnóstico foi de broncopneumopatia (pneumonia), confirmado por radiografia torácica, com início imediato de antibioticoterapia, analgesia e suporte metabólico.

Ainda na admissão, exames laboratoriais indicaram hiperglicemia. No entanto, a equipe clínica optou por não fechar o diagnóstico de diabetes naquele momento. “O estresse agudo de captura eleva o cortisol e as catecolaminas, podendo causar hiperglicemia transitória. Além disso, agentes sedativos utilizados em procedimentos anestésicos também interferem temporariamente na glicemia. Diagnosticar diabetes exige confirmação”, explicou Yudi.

Então, após 19 dias de estabilização clínica, com melhora respiratória, adaptação ao ambiente hospitalar e normalização do estado geral, foi realizada uma nova bateria de exames. A dosagem de hemoglobina glicada (HbA1c), marcador de hiperglicemia crônica, confirmou o diagnóstico definitivo de diabetes mellitus.

Não poderá retornar à vida livre

Durante a internação, a equipe de Yudi implementou protocolo de manejo específico, incluindo dieta com redução de carboidratos simples e aumento de vegetais frescos. Ainda assim, o prognóstico é permanente e, segundo Yudi, a macaca não poderá retornar à vida livre.

Ainda conforme o médico-veterinário, o caso de Chica demonstra que, uma vez instalada a diabetes mellitus em primatas, isso exige cuidado permanente, especializado e custoso. “O animal necessitará de monitorização contínua, medicamentos diários, dieta rigorosamente controlada e acesso a laboratório para exames periódicos, algo que a natureza não pode oferecer”, destaca o veterinário.

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“O diagnóstico de Chica é considerado raro em primatas não-humanos de vida livre no Brasil. Eu conheço apenas um caso no zoológico de Bauru. Existem casos em zoológicos, mas em vida livre, como é o caso da Chica, é raro”, declarou Yudi.

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