O SAGRADO NAS ALTURAS

Triunfo de Cristo à luz do rococó resplandece em fazenda de Minas

Envolto em manto vermelho, o Messias em ascensão ocupa o teto de capela em Belo Vale, parte de conjunto de pinturas atribuídas a João Nepomuceno

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No calendário cristão, a Páscoa é o dia mais importante do ano, até mais do que o Natal, pois celebra a vitória da vida sobre a morte. Ao longo dos séculos, na visão dos artistas, a imagem de Jesus após a crucificação e a ressurreição se apresenta geralmente em vestes brancas, rodeada de feixes de luz ou subindo ao céu dentro de um halo – e talvez por isso cause tanto impacto a magnífica pintura no forro da capela da Fazenda Boa Esperança, em Belo Vale, na Região Central de Minas.

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Atribuída a João Nepomuceno Correia e Castro (1752-1795), “Ascensão de Cristo em triunfo” ocupa o teto do pequeno templo datado do século 18 e início do 19. Envolto em manto vermelho, entre nuvens e anjos, o Messias está retratado à luz do esplendor rococó, realmente triunfal como diz o título da pintura. E maravilha os olhos de quem ergue a cabeça e busca os detalhes do trabalho de Nepomuceno, mineiro de Mariana.


Na última matéria da série “O sagrado nas alturas”, o Estado de Minas mostra o conjunto pictórico da capela que contém, entre outras belezas também atribuídas ao artista, a santa ceia, a cena da transfiguração, o lava-pés e obras da misericórdia. “Esta capela é uma joia. Pequena no tamanho, mas com pinturas bem interessantes”, observa o arquiteto e professor David Prado Machado, autor da tese de doutorado (2019) “A privatização da fé: Capelas domésticas nas Minas Gerais dos séculos 18 e 19”.


TESOURO RELIGIOSO
EM AMBIENTE RURAL

São 10h de uma manhã ensolarada, com a luz realçando o tom forte do amplo gramado e o extenso muro de pedras na base do casarão construído entre o fim do século 18 e início do 19. Sapucaias frondosas dão as boas-vindas ao som de centenas de maritacas. A equipe do EM está diante da Fazenda Boa Esperança, propriedade do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha-MG), que conduz obras de restauro e pretende reabri-la à visitação pública no próximo ano como equipamento cultural museológico.


“O próximo passo será a questão de acessibilidade”, adianta o diretor de Conservação e Restauro da instituição estadual, Itallo Gabriel. As obras na capela dedicada ao Senhor dos Passos contemplaram o retábulo-mor, em estilo rococó. As pinturas do forro e das paredes, com barrados laterais que remetem a azulejos, são atribuídas ao marianense João Nepomuceno Correia e Castro (1752-1795), que também trabalhou na Basílica do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas.


Quando as portas do templo se abrem, com chaves originais de ferro, a atenção se volta para as pinturas, já que as imagens dos santos foram retiradas para restauro no ateliê do Iepha, em BH. No forro, de forma grandiosa, se vê a “Ascensão de Cristo em triunfo”. A contemplação eleva o espírito, tira o desassossego causado pela correria diária, faz a comunhão entre o divino e o terreno.


Para pintar a “Ascensão de Cristo em triunfo”, Nepomuceno se inspirou na gravura de um missal do século 18, impresso na Tipografia Régia, de Lisboa, conforme identificou o especialista em história da arte professor Alex Bohrer, autor do livro “Discurso da imagem” (2019). Ele explica que no século 18 era comum os pintores retratarem Jesus seminu, protegido apenas por um manto.

OBRAS DA MISERICÓRDIA

Além da monumental pintura no forro, as laterais, bem mais próximas do olhar, mostram a bela obra de Nepomuceno. Do lado direito (de quem está diante do altar), se veem a santa ceia, a cena da transfiguração, a Natividade e o barrado com as “obras da misericórdia”, que remetem à azulejaria. São elas: dar abrigo aos forasteiros, vestir os nus e alimentar os famintos.


Do lado esquerdo, estão a cena do lava-pés, o sacrifício de Isaac e a Anunciação. No barrado, em tom azulado, estão mais três obras da misericórdia: dar de beber aos sedentos, amparar os doentes e visitar os cativos. Já sobre a porta de entrada, se vê a cena da samaritana no poço de Jacó.


O “Guia de Bens tombados Iepha-MG (2011/2012) traz a seguinte descrição: “A capela é requintada. O tratamento decorativo reservado ao interior evidencia ostentação e riqueza, reafirmando o poder e prestígio do antigo proprietário da fazenda, o Barão de Paraopeba. Com dedicação ao Senhor dos Passos, o retábulo preserva trabalhos ornamentais apurados e pintura de filiação rococó característicos de fins do século 18 e início 19. Teto e paredes são revestidos por painéis pintados, tendo autoria atribuída a João Nepomuceno. Representam cenas do Evangelho, a Anunciação de Nossa Senhora, a Adoração dos pastores, o Sacrifício Isaac, e a santa ceia, entre outros”.


Por onde se olha, o templo brilha como um tesouro desse “palacete do sertão”, conforme ressalta o arquiteto David Prado Machado, professor do curso de arquitetura do Centro Universitário Dom Helder, em Belo Horizonte. David pesquisou essa e mais duas capelas para sua tese de doutorado, defendida em 2019, “A privatização da fé: Capelas domésticas nas Minas Gerais dos séculos 18 e 19”. Os dois templos pesquisados são a Igreja Nossa Senhora da Conceição da Fazenda da Jaguara, em Matozinhos, na Grande BH, e a capela da Fazenda Rio São João, em Bom Jesus do Amparo, na Região Central do estado.


PALACETE TOMBADO

A propriedade com 22 cômodos pertenceu outrora ao coronel José Romualdo Monteiro de Barros (1756-1855), o Barão de Paraopeba, figura de projeção no cenário político do império. Foi membro da Junta Governativa da Independência do Brasil (1822) e, por duas vezes, presidente da província de Minas (década de 1830).


Situada a 87 quilômetros da capital, a Boa Esperança se tornou um dos principais estabelecimentos rurais da região, servindo de hospedagem a personagens ilustres do Império de passagem por Minas, incluindo imperador Dom Pedro II (1825-1891), recebido diversas vezes pelo barão. Após a morte do proprietário, a fazenda passou por sucessivas gerações, sendo adquirida, em 1970, pelo governo de Minas e incorporada ao conjunto de bens do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha-MG). Além do tombamento pelo Iepha, em 1975, a sede da fazenda está sob proteção federal desde 1959, quando foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).


CONJUNTO DE MEMÓRIAS

Conforme pesquisas do Iepha-MG, a Fazenda Boa Esperança figura entre as grandes propriedades rurais formadas em Minas Gerais entre os séculos 18 e 19, período marcado pela consolidação da ocupação territorial após o Ciclo do Ouro e pela expansão das atividades agropecuárias. Tais fazendas desempenharam papel fundamental na organização econômica e social do estado, funcionando como unidades produtivas, espaços de sociabilidade e também como centros de expressão cultural e religiosa.


Nesse cenário, a presença da capela era elemento estruturante. Mais do que um espaço de culto, representava o eixo simbólico da vida na fazenda, na qual se realizavam celebrações religiosas, batizados, casamentos e rituais que organizavam o cotidiano da comunidade local – incluindo trabalhadores, famílias residentes e populações do entorno.


Do ponto de vista arquitetônico e artístico, a capela da Fazenda Boa Esperança revela características típicas dos singelos templos rurais mineiros, com destaque para altares decorados, especialmente o altar-mor, como foco litúrgico e artístico; forros ornamentados, frequentemente com pintura decorativa ou elementos simbólicos; cimalhas e elementos de transição, que estruturam e qualificam o espaço interno; painéis parietais, que contribuem para a ambientação estética e narrativa religiosa.


Os técnicos informam que esses elementos indicam não apenas investimento estético, mas também a circulação de saberes artísticos e técnicas construtivas no meio rural, muitas vezes vinculadas a mestres e artífices que atuavam também em igrejas urbanas.


TRANSFORMAÇÕES

Ao longo do tempo, com as transformações econômicas e sociais, entre elas o declínio de certos ciclos produtivos e a mudança na dinâmica rural – muitas propriedades perderam parte de suas funções originais. Ainda assim, conjuntos como o da Fazenda Boa Esperança, em Belo Vale, continuaram testemunhas materiais dessa organização histórica, preservando tanto a arquitetura quanto os valores simbólicos associados à religiosidade e à vida no campo.


O reconhecimento institucional do valor de tão importante patrimônio se consolidou com seu tombamento em nível estadual, em 1975, e federal, em 1950 (no caso da sede), denotando sua relevância não apenas para Minas, mas para o patrimônio cultural brasileiro.


Hoje, a Fazenda Boa Esperança e sua capela se afirmam como um conjunto de memória, no qual se entrelaçam história, arte, religiosidade e paisagem — elementos que justificam sua preservação contínua e o acompanhamento técnico sistemático de seus bens integrados. 

CERIMÔNIAS DA SEMANA

SANTA UNEM DEVOÇÃO E CULTURA

Até domingo, Belo Horizonte e o interior mineiro oferecem missas solenes, procissões luminosas e cerimônias com ritos em latim. Em cada município, uma tradição bem particular se faz presente, cabendo ao visitante conhecer igrejas, capelas, mosteiros e outros monumentos para descobrir o rico acervo religioso e compreender melhor a história local. Veja alguns destaques da programação que une fé e cultura.

BELO HORIZONTE

Quinta-feira (2/4), às 9h – Na Catedral Cristo Rei, no Bairro Juliana, na Região Norte – Missa da Unidade, com a presença de todo o clero.

19h – Celebração de lava-pés

Sexta-feira (3/4), às 9h30 – Via-sacra e Paixão do Senhor, saindo da Praça Rui Barbosa (Praça da Estação, no Centro, até o Viaduto Santa Tereza, no Centro. Nesse local, será servido almoço preparado pela equipe da Catedral Cristo Rei na iniciativa solidária “Dai-lhes vós mesmos de comer”

SABARÁ, NA GRANDE BH

Quinta-feira (2), às 15h – Abertura do sepulcro e início da guarda do Senhor Morto e Nossa Senhora das Dores, na Igreja São Francisco de Assis, no Centro Histórico

Sexta-feira (3), às 4h – Via-sacra com a imagem de Nossa Senhora das Dores saindo da Igreja São Francisco até a Capela Senhor Bom Jesus, no Morro da Cruz
CAETÉ, SERRA DA PIEDADE,
GRANDE BH

Sexta-feira (3/4), às 7h – Via-sacra que partirá da entrada do santuário até o alto da Serra da Piedade. Encenação com 50 artistas do Grupo de Teatro São João Batista

SANTA LUZIA, NA GRANDE BH

Hoje (31/3), às 19h30 – Missa e Sermão da Soledade de Nossa Senhora. Em seguida, procissão do depósito da imagem de Nossa Senhora das Dores até a Capela Nossa Senhora da Conceição e São Cristóvão

DIAMANTINA, NO VALE DO JEQUITINHONHA

Sexta-feira (3/4), às 9h – Via-sacra encenada, com início na Igreja Senhor do Bonfim. À noite (20h), haverá o Sermão do Descendimento da Cruz seguido de procissão até a Igreja do Carmo


MARIANA, NA REGIÃO CENTRAL

Hoje (31/3), às 19h – Missa na Igreja do Rosário seguida da Procissão dos Passos de Nosso Senhor Jesus Cristo, com execução dos tradicionais motetos

OURO PRETO, NA REGIÃO CENTRAL

Sexta-feira (3/4), às 20h
Diante da Igreja Nossa Senhora do Rosário, apresentação do figurado bíblico, seguido do Sermão do Descendimento da Cruz e Procissão do Enterro

SÃO JOÃO DEL-REI, NO CAMPO DAS VERTENTES

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Amanhã (1/4), às 7h – Missa na Igreja Nossa Senhora do Carmo. À noite (19h), Ofício de Trevas: Matinas e Laudes, na Igreja Nossa Senhora do Carmo

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