A primeira testemunha ouvida na audiência de instrução e julgamento do rompimento da barragem da mina de Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG), foi Kenya Silva, viúva de Adriano Aguiar Lamounier, que era técnico de planejamento de eletrotécnica da Vale. O julgamento teve início nesta segunda-feira (23/2), no Tribunal Regional Federal da 6ª Região (TRF-6), no Bairro Santo Agostinho, Região Centro-Sul de Belo Horizonte (MG).

A viúva contou que Adriano trabalhava há 16 anos na mineradora, sempre no complexo da mina de Córrego do Feijão. Ela disse ainda que o ex-marido nunca relatou temer pela sua segurança por eventual rompimento de barragens. Porém, a mulher contou que, após a tragédia, um amigo dele a procurou e relatou que o marido se preocupava, sim, com essa possibilidade. “Me disse que ele vivia triste e preocupado por treinamentos na empresa em função de possíveis rompimentos.”

Quando a barragem em Mariana se rompeu, em 2015, a viúva questionou Adriano se o mesmo poderia acontecer em Brumadinho. Segundo ela, a resposta foi que a Vale não deixaria isso acontecer. Ainda de acordo com ela, porém, o ex-marido sabia que havia essa possibilidade, mas nunca comentou com ela. “Se eu soubesse, ia ficar muito abalada, mas as pessoas que trabalhavam lá sabiam dessa possibilidade.”

Adoecimento

Kenya relembrou como ficou sabendo do rompimento. Ela contou que o filho recebeu uma ligação, durante o almoço, e saiu para atender. Quando voltou, mostrou a ela um vídeo com uma avalanche de lama dizendo que era na mina em que o marido trabalhava. A viúva afirma que ficou em choque, porém não acreditou que fosse realmente verdade e pediu ao filho para telefonar para o pai. Ele disse que já tinha tentado, mas ninguém atendia. 

“Nunca recebi telefonema da empresa. Passei dias recebendo notícias pela imprensa, e a empresa nunca fez contato”, declarou, emocionada. 

O corpo de Adriano foi encontrado em 20 de fevereiro, próximo ao viaduto que também foi destruído pela avalanche de lama. “Meu marido foi minerado. Igual a Vale faz com minério”, declarou. 

Kenya contou ainda que ela e os filhos desenvolveram problemas de saúde por causa da tragédia. “Desenvolvemos gatilho. Quando falamos que somos de Brumadinho, as pessoas fazem perguntas até cruéis. Tomo remédio para dormir e acordar. Fiquei mais de 15 dias sem sair de casa, na frente da televisão”, relembrou. 

Outro fato que marcou a família, de acordo com ela, era levar os filhos para coletar material no Instituto Médico-Legal (IML).

“Um crime horroroso desse mata não só quem se foi, marca de uma forma muito drástica a vida das famílias. Qual a história que tenho para contar do fim da vida do meu marido? Esperei quase 30 dias, tem gente que esperou seis meses, tem gente que espera até hoje. Isso te adoece. Não posso dizer que sou de Brumadinho que as pessoas me perguntam se eu perdi alguém”, desabafou.

Diante disso, a viúva diz que os filhos pediram para parar de falar que moram em Brumadinho. “Não tenho direito nem ao meu território.”

Em nota, a Vale disse que reafirma seu respeito às vítimas, familiares e comunidades atingidas e reitera seu compromisso com a reparação integral dos danos. A empresa não comenta ações judiciais em andamento. 

Julgamento

A Justiça Federal de Minas Gerais inicia hoje as audiências de instrução e julgamento relacionadas ao rompimento da barragem. O caso é considerado um dos maiores processos da história da Justiça Federal e envolve 17 réus. As audiências vão ouvir réus e testemunhas sobre os crimes.

Segundo o Tribunal Regional Federal da 6ª Região (TRF-6), a fase de instrução terá 76 audiências, com previsão de duração até 17 de maio de 2027. As sessões serão realizadas na sede do TRF-6.

A Vale, a TÜV SÜD e 16 ex-executivos vinculados a essas empresas figuram como réus na ação penal e respondem por crimes de homicídio e ambientais.

A fase de instrução e julgamento se destina à produção de provas e à oitiva de testemunhas de acusação e defesa, para apurar eventuais falhas nos sistemas de segurança e possíveis condutas negligentes que possam ter concorrido para a morte de 272 pessoas. 

Linha do Tempo: busca por justiça

  • 25 de janeiro de 2019: a barragem B1 da mina Córrego do Feijão rompe, matando 272 pessoas e destruindo a bacia do Rio Paraopeba.

  • Janeiro de 2020:o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) denuncia 16 pessoas e as empresas Vale e TÜV SÜD por homicídio qualificado e crimes ambientais na Justiça estadual.

  • Fevereiro de 2021:é assinado o Acordo Judicial de Reparação, no valor de R$ 37,7 bilhões, focado em danos socioeconômicos e ambientais (esfera cível).

  • Outubro de 2021:o Superior Tribunal de Justiça (STJ) decide que a competência para julgar o caso criminal é daJustiça Federal, anulando os atos da Justiça estadual.

  • Junho de 2022:o Supremo Tribunal Federal (STF) mantém a decisão do STJ, confirmando que o processo deve tramitar na esfera federal devido a possíveis crimes contra o patrimônio da União e órgãos federais.

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  • Janeiro de 2023:a Justiça Federal aceita a denúncia do Ministério Público Federal (MPF), tornando réus os 16 ex-executivos e as duas empresas.

  • 23 de fevereiro de 2026: início das audiências de instrução e julgamento no TRF-6, em Belo Horizonte, para a produção de provas e oitiva de testemunhas.
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