Muito antes de Belo Horizonte se afirmar nacionalmente como um dos maiores carnavais do Brasil, a cidade já se organizava a partir das comunidades. Foi nelas que o samba encontrou abrigo, voz e continuidade, dando origem às escolas de samba que, há décadas, traduzem em desfile a história, memória e cotidiano de seus territórios.
As primeiras manifestações organizadas do samba surgiram ainda nos anos 1930, quando batalhas de confete tomavam as ruas do Centro e bairros populares, e a Pedreira Unida desfilava na Pedreira Prado Lopes como a primeira escola de samba da capital. Após a Segunda Guerra Mundial, essas agremiações se consolidaram como parte central do carnaval belo-horizontino, atingindo seu auge nas décadas de 1970 e 1980, com desfiles luxuosos, arquibancadas lotadas e a Avenida Afonso Pena transformada em passarela do samba.
Mesmo enfrentando períodos de interrupção e perda de investimento nos anos 1990 e 2000, quando se chegou a decretar o “fim” do carnaval de passarela, as escolas resistiram. O retorno à Afonso Pena, a partir de 2014, simbolizou a retomada do espetáculo e da valorização das comunidades que sustentam o samba em Belo Horizonte. Em 2026, o carnaval reafirma esse elo ao reunir oito escolas do Grupo Especial, cada uma carregando para a avenida a identidade de seu território.
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Acadêmicos de Venda Nova: samba que preserva a memória do Norte de BH
A Acadêmicos de Venda Nova é considerada o maior símbolo do samba na Regional Venda Nova, território com mais de 300 anos de história, anterior à própria fundação de Belo Horizonte. Fundada a partir de uma gestão familiar, liderada por Francisco Gonçalves, a escola integra diversos bairros da região por meio do samba e de ações culturais contínuas.
Com sede no bairro São João Batista, a agremiação funciona como um centro cultural comunitário, oferecendo oficinas de percussão, adereçaria e formação artística para jovens da região. Sua identidade está diretamente ligada à preservação da memória de Venda Nova como antigo ponto de pouso de tropeiros, orgulho que se transforma em espetáculo na avenida.
A Acadêmicos de Venda Nova transforma a memória de um território mais antigo que Belo Horizonte em samba, reunindo gerações da região Norte em torno da cultura popular
No carnaval 2026, o enredo “Belo HorizONTEM – Cidade Oculta”, desenvolvido pelo carnavalesco heptacampeão Marco Aurélio Gonçalves, propõe uma viagem nostálgica pela capital mineira. O desfile revisita personagens, lugares, edifícios e histórias que permanecem no imaginário coletivo, mesmo soterrados pelas camadas de concreto e asfalto. A mensagem central é um convite à reconexão com um passado que resiste, ainda que não esteja acessível a todos
Com enredo nostálgico em 2026, a escola leva para a avenida histórias, lugares e personagens que resistem sob o concreto da capital mineira
Mocidade Verde e Rosa: tradição e rigor na região Oeste
Uma das escolas mais tradicionais e vitoriosas de Belo Horizonte, a Mocidade Verde e Rosa está profundamente ligada ao bairro Nova Gameleira, na região Oeste da cidade. Suas cores, verde e rosa, homenageiam a Estação Primeira de Mangueira, escola madrinha que inspira sua estética, disciplina e rigor técnico.
Campeã do Grupo de Acesso em 2025, a Mocidade consolidou sua identidade vencedora ao longo dos anos, com destaque recorrente em quesitos como Bateria e Harmonia. Mais do que títulos, a escola atua como polo de resistência cultural, envolvendo gerações de moradores em oficinas de samba, dança e confecção de fantasias.
No carnaval 2026, o enredo “O fogo que aquece a vida, ilumina, purifica e regenera” aborda o simbolismo do fogo como elemento essencial da existência humana, da sobrevivência à transformação, da destruição ao renascimento. A narrativa dialoga com a própria trajetória da escola, marcada pela capacidade de se reinventar sem romper com suas raízes comunitárias.
Cidade Jardim: a escola que mudou o Carnaval de BH
Fundada em 13 de abril de 1961, no Conjunto Santa Maria, a Cidade Jardim é a escola de samba mais antiga em atividade em Belo Horizonte e uma das maiores campeãs do carnaval da capital, com 18 títulos. Nascida de uma dissidência da antiga União Serrana, do Aglomerado da Serra, a escola surgiu com o objetivo de revolucionar o carnaval local.
Fundada no Conjunto Santa Maria, a Cidade Jardim é a escola de samba mais antiga em atividade em BH e um dos maiores símbolos do Carnaval de passarela da cidade
Foi a primeira agremiação de BH a adotar todos os quesitos do modelo carioca, como comissão de frente, mestre-sala e porta-bandeira, ala das baianas e harmonia, estabelecendo um novo padrão técnico para os desfiles. Sua hegemonia marcou época, com a conquista de 11 títulos consecutivos entre 1962 e 1972.
Com 18 títulos, a agremiação leva para 2026 um enredo que celebra a força feminina e reafirma sua ligação histórica com a região Centro-Sul
Em 2026, o enredo “Mulher: a força que move o tempo” coloca a mulher como protagonista das transformações sociais e culturais ao longo da história. A narrativa utiliza o tempo e a ancestralidade como fios condutores, conectando passado e presente em um discurso que reflete a própria trajetória da escola.
Estrela do Vale: a ascensão do Barreiro no carnaval
Fundada em 2009, no bairro Vale do Jatobá, a Estrela do Vale representa a força cultural do Barreiro, uma das regionais mais populosas de Belo Horizonte. Em pouco mais de uma década, a escola deixou de ser estreante para se tornar uma potência do carnaval mineiro, conquistando o título do Grupo Especial em 2024.
Representante do Barreiro, a Estrela do Vale transformou o orgulho periférico em protagonismo no Carnaval de Belo Horizonte
Reconhecida por enredos que valorizam personagens e cidades de Minas Gerais, a Estrela do Vale levará à avenida em 2026 o enredo “Barbacena, Cidade das Rosas”. O desfile exalta a história, a cultura e os símbolos do município, destacando tradições como a Festa das Rosas, a arquitetura colonial e a vocação artística da cidade.
No desfile de 2026, a escola exalta Barbacena e reforça sua vocação para contar histórias mineiras por meio do samba-enredo
Mais do que um tributo externo, o enredo reafirma o papel da escola como instrumento de visibilidade para o Barreiro, transformando o orgulho periférico em narrativa central do carnaval.
Imperavi de Ouros: paixão que nasce da união
Criada em 2013, nas comunidades dos bairros do Carmo e Jardim Leblon, a Imperavi de Ouros surgiu da união de lideranças do samba local. O nome homenageia outras agremiações da cidade e simboliza respeito às tradições carnavalescas de Belo Horizonte.
Criada em 2013, a Imperavi de Ouros nasceu da união de comunidades da região Leste e rapidamente se firmou no cenário do samba belo-horizontino
Sediada no bairro Boa Vista, a escola atua como polo cultural da Regional Leste, promovendo inclusão social por meio de ensaios, oficinas e atividades comunitárias. Em 2026, a Imperavi apresenta um enredo que homenageia o Clube Atlético Mineiro, conectando sua própria fundação ao ano da conquista da Libertadores pelo time.
A narrativa celebra valores como superação, fé e resistência, comuns tanto à trajetória do clube quanto à da escola, reforçando o samba como espaço plural de expressão da paixão coletiva.
A escola homenageia o Clube Atlético Mineiro em 2026, conectando paixão esportiva, resistência e identidade comunitária na avenida
Imperatriz de Venda Nova: memória, arte e pertencimento
Fundada em 2005, a Imperatriz de Venda Nova nasceu de uma conversa entre amigos em um bar do bairro São João Batista. Dessa iniciativa informal surgiu uma escola que hoje reúne cerca de 500 foliões, majoritariamente moradores da região.
A Imperatriz se consolidou como uma das principais vozes da Zona Norte de Belo Horizonte, com desfiles marcados pela criatividade e emoção. Para 2026, o enredo “Senhoras e Senhores… A Vida Vai Entrar em Cena!” presta homenagem ao Cine Theatro Brasil, ícone cultural da capital.
Fundada a partir de uma conversa entre amigos, a Imperatriz de Venda Nova se tornou uma das principais vozes culturais da região Norte de BH
O desfile transforma a avenida em palco, resgatando memórias afetivas ligadas ao cinema, ao teatro e à vida cultural da Praça Sete. A proposta reforça a arte como elemento de resistência e celebração da memória coletiva belo-horizontina.
Triunfo Barroco: ancestralidade e experimentação
Criada em 2020, a Triunfo Barroco apresenta uma identidade distinta no Carnaval de BH. Sem vínculo exclusivo com um único bairro, a escola se conecta ao centro cultural da cidade, com barracão no bairro São Pedro e ensaios realizados em espaços simbólicos da vida noturna e artística da capital.
O enredo de 2026, “Chico Rei – Reinos da Liberdade em Solo Mineiro”, resgata a história de Galanga, o Chico Rei, símbolo de resistência negra e ancestralidade em Minas Gerais. A narrativa transforma dor, luta e esperança em espetáculo, reafirmando o samba como ferramenta de memória histórica e afirmação cultural.
Canto da Alvorada: o Brasil que festeja
Fundada em 1979, no bairro Campo Alegre, a Canto da Alvorada é uma das maiores campeãs do Carnaval de Belo Horizonte. Sua trajetória é marcada por inovação, intercâmbio com escolas do Rio de Janeiro e forte ligação comunitária.
Fundada no bairro Campo Alegre, a Canto da Alvorada é uma das escolas mais vitoriosas do Carnaval de BH e referência em tradição
No carnaval 2026, o enredo “Brasil de Todos os Cantos, Festanças de Todos os Encantos” celebra as festas populares como expressão máxima da identidade brasileira. O desfile transforma a avenida em um grande encontro de tradições, fé, música e alegria, reafirmando o samba como espaço de memória coletiva e celebração da diversidade cultural.
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