Ainda há muito para se estudar e conhecer sobre a Guerra dos Emboabas (1707-1709), o conflito entre os paulistas descobridores das minas de ouro, estabelecidos nos arraiais que iam de Caeté a São João del-Rei, e os emboabas, grupo formado por portugueses, baianos e pernambucanos. Também chamados de reinóis e forasteiros, esses chegaram em massa, invadindo a área e revoltando os pioneiros. Atento a essa empolgante página da história e interessado nas origens do nosso estado, o pesquisador mineiro Charles Eládio Nazareth Faria, natural de Caeté, mergulhou profundamente no tema, idealizou um roteiro e propõe uma novidade: a criação de um corredor cultural e turístico ligando cinco regiões ancestrais e 14 cidades nascidas nos primórdios de Minas.
O resultado do trabalho de Charles Faria, na forma do livro “Expedição Minas Gerais – Nova porta de entrada às minas”, com 240 páginas e tipo guia de viagem, será conhecido na próxima sexta-feira (23), às 19h30, na Igreja Nossa Senhora dos Homens Pretos (Igreja de Pedra), no Centro de Sabará. Na oportunidade, haverá recital de clavicórdio, instrumento musical de cordas e dotado de teclado, usado na Europa desde a Idade Média. A apresentação será do clavicordista Pedro Zanatta.
A obra demandou dois anos para ser elaborada, sendo organizada a partir de um recorte temático, temporal e geográfico para conectar lugares fundamentais na Guerra dos Emboabas, “onde Minas nasceu”, ressalta o autor. Assim, fazem parte do “território embrião” o distrito de Barra do Guaicuí, em Várzea da Palma, Belo Horizonte (capital inaugurada em 1897 e construída na área onde existiu o Arraial de Curral del-Rei), Caeté, Catas Altas, Congonhas, Itabirito, Mariana, Ouro Preto, Pitangui, Piranga, Raposos, Sabará, São João del-Rei e Tiradentes.
CORRIDA DO OURO
E como tudo conheceu? Com a palavra, o autor. “No final do século 17, houve um aumento nas expedições rumo ao interior do Brasil, ainda inexplorado, em busca de metais e pedras preciosas. Para estimular a prospecção do território, a Coroa Portuguesa havia prometido o direito de exploração das minas (achados minerais) aos seus descobridores, conforme sua capacidade de exploração.”
De onde vieram os pioneiros? “Do Norte, acompanhando o Rio São Francisco, desceram os criadores de gado da Bahia, expandindo seus currais. Do Sul, subiram os bandeirantes paulistas, enfrentando todo tipo de adversidade em busca de ouro. Nesse contexto histórico instigante e também lendário, teve início a formação do embrião que deu origem a Minas Gerais, consolidado algum tempo depois com a Guerra dos Emboabas.”
Durante a corrida do ouro, explica Charles Faria, o território começou a ser mapeado. “O ouro depositado nos cursos d’água e que também aflorava da terra impulsionou a abertura de caminhos, a fundação de arraiais e a edificação e decoração de capelas. Devido à rivalidade entre paulistas e forasteiros, ocorreu a Guerra dos Emboabas, que resultou na formação do Governo Primaz de Minas – organizado de forma independente, à revelia da Coroa Portuguesa, com leis próprias e mando polêmico.
A Guerra dos Emboabas serviu como estopim para a criação das Vilas do Ouro, instalação de casas de câmara e cadeia, eleição e posse de vereadores, construção de pelourinhos, reorganização geopolítica do território e, por fim, a criação da Capitania de Minas – autônoma em relação às demais. Esse conflito contribuiu para inaugurar um novo capítulo na história de Minas.
“Mais de 300 anos depois, ainda é possível visitar muitos testemunhos físicos dos primeiros tempos do nosso estado em seus locais de origem, conferindo rosto e alma à história contada e também escrita nos livros. O destino é uma ótima oportunidade para o estudo da história, da arte e da arquitetura”, afirma o pesquisador. O território é cortado por três caminhos antigos importantes e hoje, para facilitar a vida do viajante, o corredor cultural tem distâncias inferiores a 400 quilômetros, partindo de BH.
Faria informa que o livro foi escrito em linguagem simples e acessível. “Não se trata de uma obra historiográfica, mas as informações aqui apresentadas foram selecionadas a partir de uma pesquisa bibliográfica rigorosa. Nas chamadas Cidades da Guerra e do Ouro, ou seja, aquelas envolvidas direta ou indiretamente no conflito, o leitor-visitante poderá explorar o Patrimônio da Guerra: locais, monumentos e objetos que ajudam a narrar parte da história da formação de Minas Gerais. Paralelamente, será possível, se desejar, realizar visitas extras a sete circuitos estaduais nas proximidades, incluindo a Via Liberdade, que tem como referência a rodovia BR-040.
ANO NOVO, VIDA NOVA E CONHECIMENTO...
Que tal começar 2026 aprendendo, na prática, a preservar o patrimônio e ainda ampliar os horizontes profissionais? Estão abertas até domingo (25/1) as inscrições para os cursos gratuitos, deste semestre, na Escola de Ofícios Tradicionais de Mariana. A primeira chamada será divulgada no dia 30, com início das aulas em 3 de março. São oferecidos cursos presenciais voltados à formação em conservação do patrimônio e práticas construtivas sustentáveis. Aulas às terças, quartas e quintas-feiras, das 18h30 às 22h, com a realização de visitas técnicas em alguns sábados letivos, no horário diurno. Todos os cursos são gratuitos, e contam com lanche e vale-transporte para os estudantes. Inscrições devem ser feitas exclusivamente pelo site www.escoladeoficios.org.br. Aviso importante: os candidatos selecionados serão comunicados por e-mail e WhatsApp, conforme os dados informados no ato da inscrição.
...PARA PRESERVAR O PATRIMÔNIO
No curso de Alvenaria Tradicional e Técnicas Bioconstrutivas – Módulo III, os alunos aprendem sobre o uso de materiais, a exemplo de cerâmica, cal e terra crua, por meio de oficinas práticas que abordam revestimentos, sistemas construtivos tradicionais e soluções aplicadas ao patrimônio edificado. Já Cantaria – Módulo I se dedica à introdução da arte de modelar e esculpir pedras. O conteúdo contempla estudo das rochas, ferramentas e técnicas do ofício, além de noções de conservação e restauração. Em Carpintaria – Módulo I, os estudantes entram em contato com sistemas construtivos tradicionais em madeira, aprendendo técnicas de corte, encaixe, montagem e acabamento, enquanto Pintura – Módulo II é organizado em quatro oficinas independentes ao longo do semestre, que abordam pintura arquitetônica, produção de tintas de terra, pintura decorativa com estêncil e pintura mural. A Escola de Ofícios Tradicionais de Mariana, iniciativa do Instituto Pedra, tem patrocínio master da Vale, e conta com apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e da Prefeitura de Mariana. Mais informações no instagram e facebook: @escoladeoficiosdemariana
PAREDE DA MEMÓRIA
A comunidade católica lembra, na quarta-feira (21), os 40 anos do falecimento da irmã Maria da Glória do Coração Eucarístico. Haverá missa às 7h, no Mosteiro de Macaúbas, na zona rural de Santa Luzia. Conforme pesquisa da Associação Cultural Comunitária de Santa Luzia, ela nasceu no distrito de Cachoeira do Campo, em Ouro Preto, em 1903, e foi batizada Maria Gomes de Oliveira. Chegou a Macaúbas ainda no tempo do Recolhimento, em 8 de outubro de 1926, fazendo, oito anos depois, os votos de profissão religiosa na Ordem da Imaculada Conceição, implantada no local no ano anterior. Na década de 1940, a monja foi internada em hospital de BH para tratamento, sendo “desenganada” pelos médicos. Mas retornou ao mosteiro e atravessou mais de quatro décadas acamada, desafiando prognósticos de especialistas. Em 1962, deu depoimento a uma comissão de religiosos que conduziam o processo de beatificação do Padre Eustáquio (1890-1943), hoje Beato Padre Eustáquio e a caminho da canonização. Segundo a pesquisa da entidade, há diversos relatos atribuindo à irmã Maria da Glória “a intercessão junto a Deus em situações de dúvida, descrença e perigo”. Dessa forma, “as virtudes da fé, obediência e caridade estiveram impressas na vida da Irmã Maria da Glória, falecida em 21 de janeiro de 1986.”
SÃO FRANCISCO DE ASSIS
Nas homenagens a São Francisco de Assis pelos 800 anos do seu falecimento ou “trânsito”, moradores e visitantes podem ver a relíquia de primeiro grau do “protetor da natureza”. Está no Santuário Arquidiocesano São Francisco de Assis, a chamada Igreja da Pampulha, em BH, um fragmento do osso do santo. Na noite de ontem, foi iniciada uma série de celebrações no templo conhecido por Igreja da Pampulha, e novas missas ocorrerão sempre aos domingos, às 7h. 10h e 16h, informa o reitor do santuário, padre Elias Souza. A relíquia está na igreja graças a uma parceria do santuário com a Congregação das Irmãs Franciscanas Penitentes Recoletinas.
NARIZ NA PORTA 1
Estive no Rio, na semana passada, movido pela imensa vontade de visitar o Palácio Gustavo Capanema (foto), marco da arquitetura modernista no Brasil recém-restaurado com recursos do Novo PAC. Mas ficou só na vontade mesmo. Na recepção, perguntei a um funcionário se havia visita guiada e ele foi de poucas palavras: “As visitas estão suspensas”. Por quê?, perguntei. “Suspensas pelo período de festas”. Fiquei sem o que dizer, já que o Natal e o réveillon ocorreram há dias, até ver um grupo grande cruzando o espaço de entrada. “E esse pessoal aí? Não são visitantes?”, voltei à carga. E o homem da recepção rebateu: “Isso é outra coisa”. Impressionante em pleno período de férias, e numa sexta-feira, um prédio que consumiu milhões de reais estar fechado aos visitantes.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
NARIZ NA PORTA 2
Como era de manhã e eu estava no Centro do Rio, com a viagem de volta a BH às 13h, caminhei alguns metros até o Museu Nacional de Belas Artes, na Cinelândia. A imponente construção se encontra em obras há anos, mas permite visita a algumas áreas, conforme havia lido. Bati novamente com o nariz na porta. “Visita só a partir das 13h”, disse uma funcionária, retirando uma corrente para chegar mais perto e me dar a informação. Contei que era de outra cidade, falei do horário da viagem, enfim, “resumi a ópera” sem resultado. As duas situações mostram como funciona o turismo cultural no país: há lugares que fecham para almoço, em plenas férias, ou não têm gente para atender o turista. É de lascar!
