Relatos reunidos em memórias publicadas após a Revolução Cultural descrevem apartamentos silenciosos em Pequim, onde conversas políticas passaram a acontecer em voz baixa, quase sussurrada. Em muitas famílias, livros desapareceram das estantes durante a madrugada. Fotografias antigas foram queimadas. Objetos religiosos passaram a ser escondidos dentro de gavetas ou enterrados longe de casa.

A política havia entrado definitivamente na vida privada chinesa.

O avanço dos Guardas Vermelhos transformou adolescentes e universitários em protagonistas da mobilização revolucionária convocada por Mao Tsé-Tung. Fotografias da época mostram estudantes viajando em vagões lotados rumo a Pequim para participar de manifestações políticas e encontros organizados pelo regime. Muitos carregavam braçadeiras vermelhas e exemplares do Livro Vermelho como símbolos de fidelidade revolucionária.

A juventude chinesa havia recebido autorização simbólica para desafiar toda autoridade anterior. Pais incluídos.

Em escolas e universidades, estudantes passaram a organizar sessões públicas contra professores considerados "burgueses" ou "contrarrevolucionários". Em algumas cidades, grupos rivais competiam entre si para demonstrar maior radicalismo político. Quanto mais agressiva a denúncia, maior parecia ser a demonstração de lealdade ideológica.

O ambiente rapidamente ultrapassou os limites das instituições de ensino.

Historiadores chineses e estrangeiros registraram inúmeros casos de filhos denunciando os próprios pais às autoridades revolucionárias. Bastava possuir livros antigos, manter tradições religiosas ou ter origem familiar associada às antigas elites urbanas para despertar suspeita política.

Em relatos publicados décadas depois, sobreviventes recordariam o medo constante de fazer comentários considerados inadequados dentro de casa.

A escritora Jung Chang, autora de ‘Cisnes Selvagens’ e uma das vozes mais conhecidas sobre o período, descreveu como o ambiente da Revolução Cultural alterava até relações afetivas básicas. Demonstrar apego excessivo à família podia ser interpretado como sinal de fraqueza ideológica. A devoção ao Partido deveria estar acima de qualquer vínculo pessoal.

Enquanto isso, a propaganda revolucionária alcançava intensidade monumental. Retratos gigantes de Mao passaram a dominar fachadas inteiras das cidades chinesas. Alto-falantes transmitiam discursos políticos desde o amanhecer. Em escolas, fábricas e repartições públicas, sessões coletivas de leitura do “Livro Vermelho” tornaram-se parte da rotina.

Fotografias históricas mostram jovens chorando ao ver Mao aparecer na Praça Tiananmen durante as grandes mobilizações de 1966. Alguns guardavam retratos do líder como objetos sagrados. Outros copiavam frases do “Livro Vermelho” à mão para demonstrar comprometimento político. O culto à personalidade atingia níveis raramente vistos na história contemporânea.

Mas nem toda a juventude chinesa aderiu passivamente ao fervor revolucionário. Relatos preservados em memórias e estudos históricos registram também episódios isolados de resistência silenciosa dentro da própria geração mobilizada por Mao.

 

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Um dos casos mais impressionantes foi o da estudante Wang Rong-fen.

Aos 19 anos, ela participou do gigantesco comício realizado na Praça Tiananmen em 18 de agosto de 1966 – o mesmo encontro que consolidaria nacionalmente os Guardas Vermelhos como principal força da Revolução Cultural.

Segundo registros posteriores, Wang comparou o ambiente político da mobilização ao nazismo. Em uma carta enviada diretamente a Mao Tsé-Tung, questionou o rumo da Revolução Cultural e escreveu que o movimento não representava uma verdadeira mobilização popular, mas "um homem manipulando as massas".

O gesto teve consequências devastadoras. Relatos reunidos anos depois descrevem Wang tentando suicídio diante da embaixada soviética após ingerir inseticida, na esperança de que diplomatas estrangeiros encontrassem seu corpo e divulgassem seu protesto ao mundo exterior.Ela sobreviveu. Foi presa e condenada à prisão perpétua.


Testemunhos posteriores descrevem meses de encarceramento em condições extremas. Suas mãos permaneceram algemadas às costas durante longos períodos, obrigando-a a se alimentar diretamente do chão da cela.

Décadas depois, a história de Wang Rong-fen continuaria sendo lembrada como um raro exemplo documentado de resistência aberta ao culto político construído em torno de Mao Tsé-Tung durante os anos mais radicais da Revolução Cultural.

Fotografias feitas em Wuhan no verão de 1967 mostram caminhões ocupados por milícias revolucionárias atravessando ruas tomadas por barricadas improvisadas. Em algumas imagens, jovens aparecem armados com rifles, bastões de madeira e barras metálicas enquanto cartazes gigantes de Mao dominam fachadas industriais da cidade.

A Revolução Cultural havia ultrapassado os limites de uma campanha política controlada. Agora, a própria estabilidade chinesa parecia ameaçada.

Ao longo de 1967, diferentes facções revolucionárias passaram a disputar violentamente o controle de universidades, fábricas e administrações locais. Cada grupo afirmava representar a interpretação mais fiel do pensamento de Mao Tsé-Tung. O país mergulhava numa fragmentação política crescente.

Relatórios históricos indicam confrontos armados em diversas cidades chinesas. Em algumas regiões, linhas ferroviárias deixaram de operar regularmente. Hospitais funcionavam sob forte tensão. Universidades permaneciam ocupadas por grupos rivais. A violência deixava de ser apenas simbólica – ela começava a assumir características de conflito interno generalizado.

O próprio Partido Comunista passou a perceber que o movimento incentivado por Mao ameaçava atingir a estrutura do regime.


Até veteranos históricos da revolução comunista tornaram-se alvo da máquina política maoísta.

O caso mais emblemático foi o de Liu Shaoqi. Presidente da China e oficialmente o segundo homem mais poderoso do regime, Liu havia sido um dos principais dirigentes responsáveis pela reorganização econômica do país após o desastre do Grande Salto Adiante. Durante a Revolução Cultural, porém, transformou-se no principal símbolo do chamado "revisionismo burguês".

Fotografias da época mostram o dirigente sendo exposto em sessões públicas de humilhação enquanto cartazes o acusavam de traição e conspiração contra Mao. Relatos reunidos posteriormente descrevem Liu vivendo em condições degradantes após sucessivos interrogatórios políticos. Doente, isolado e sem tratamento médico adequado, morreu em 1969 praticamente apagado da vida pública chinesa. Durante anos, o regime tentou ocultar detalhes de sua morte.

A perseguição atingiu também sua esposa, Wang Guangmei, antiga primeira-dama chinesa e uma das mulheres mais conhecidas da elite política do país. Educada, fluente em idiomas estrangeiros e frequentemente associada à ala mais cosmopolita do Partido Comunista, Wang transformou-se rapidamente em alvo simbólico dos Guardas Vermelhos. Fotografias históricas da Revolução Cultural mostram Wang sendo exibida diante de multidões usando colares improvisados com bolas de pingue-pongue e roupas consideradas "burguesas" pelos grupos revolucionários. A sessão pública de humilhação foi cuidadosamente encenada para ridicularizar sua imagem e simbolizar a destruição da antiga elite política chinesa.

Outro dirigente destruído pela Revolução Cultural foi o marechal Peng Dehuai, herói militar da revolução comunista e uma das figuras mais respeitadas do Exército chinês. Peng havia criticado internamente os efeitos do Grande Salto Adiante. Durante a Revolução Cultural, foi submetido a interrogatórios violentos, sessões públicas de humilhação e sucessivas perseguições políticas. Morreu em 1974.

Nem mesmo dirigentes próximos a Mao permaneceriam protegidos. Ao redor do líder chinês, crescia a influência da chamada Gangue dos Quatro – grupo liderado por Jiang Qing, esposa de Mao e antiga atriz de Xangai que se transformaria numa das figuras mais poderosas da Revolução Cultural. Os outros integrantes eram Zhang Chunqiao, Yao Wenyuan e Wang Hongwen, todos ligados ao aparato de propaganda e mobilização do regime.

Enquanto isso, a violência seguia avançando pelo interior do país. Na província de Guangxi, pesquisas históricas realizadas décadas depois apontariam episódios extremos de perseguição política e massacres coletivos. Funcionários públicos desapareceram após denúncias políticas. Médicos passaram a ser acusados de elitismo. Intelectuais foram enviados para campos de reeducação.A paranoia revolucionária atingia praticamente todos os níveis da sociedade chinesa.

OS EXPURGADOS

LIU SHAOQI
Presidente da China e sucessor natural de Mao. Foi humilhado publicamente, preso e morreu doente em 1969.

WANG GUANGMEI
Primeira-dama chinesa. Tornou-se símbolo da humilhação pública ao ser exibida pelos Guardas Vermelhos com colares feitos de bolas de pingue-pongue.

PENG DEHUAI
Herói militar da revolução comunista. Sofreu perseguições, espancamentos e morreu após anos de prisão.

DENG XIAOPING
Expurgado duas vezes durante a Revolução Cultural. Retornaria anos depois para liderar a abertura econômica chinesa e redefinir o país
até o presente.

LIN BIAO
Sucessor oficial de Mao no auge da Revolução Cultural. Morreu em 1971 após a queda de um avião na Mongólia em circunstâncias nunca totalmente esclarecidas.

 

Mao Tsé-Tung morreu em setembro de 1976, e entrou para a história como um dos líderes mais letais do século 20. Estima-se que, durante o período em que esteve no poder na China, entre 1949 e 1976, políticas implementadas por ele provocaram a morte de cerca de 40 milhões a 70 milhões de pessoas, principalmente em consequência de fome, expurgos políticos, execuções e perseguições.

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DEPOIS DE MAO, restou o silêncio

Fotografias feitas em Pequim em setembro de 1976 mostram multidões reunidas diante de retratos de Mao Tsé-Tung logo após o anúncio da morte do líder comunista. Depois de uma década marcada por perseguições políticas, sessões públicas de humilhação e campanhas ideológicas permanentes, a China parecia entrar num raro momento de suspensão histórica.

Mao estava morto.

Ao longo dos 10 anos anteriores, sua imagem havia dominado praticamente todos os espaços visíveis da vida chinesa. Retratos gigantes ocupavam fachadas urbanas. Alto-falantes transmitiam seus discursos diariamente. Milhões de estudantes decoravam frases do “Livro Vermelho” como demonstração pública de fidelidade ideológica.

Poucas semanas após a morte de Mao, a Gangue dos Quatro foi presa. A operação marcou simbolicamente o encerramento do período mais radical da Revolução Cultural.

Nos anos seguintes, o Partido Comunista iniciou um processo delicado de reconstrução interna. Era necessário reconhecer os danos provocados pela Revolução Cultural sem destruir completamente a imagem de Mao, ainda tratado oficialmente como fundador da China contemporânea.

Em 1981, uma resolução oficial do Partido Comunista Chinês classificou a Revolução Cultural como um "grave erro". Mesmo assim, o tema jamais deixou de ser sensível dentro da China.

Relatos de sobreviventes mostram que muitas famílias evitaram discutir abertamente o período mesmo décadas depois. Ex-Guardas Vermelhos envelheceram carregando culpa e silêncio. A memória da Revolução Cultural passou a sobreviver de forma fragmentada: em fotografias escondidas, livros publicados no exterior e testemunhos registrados anos depois.

As consequências culturais também foram profundas. Templos budistas destruídos durante a campanha dos "Quatro Velhos" jamais recuperaram integralmente esculturas e manuscritos perdidos. Obras de arte foram destruídas. Parte da herança histórica chinesa deixou simplesmente de existir.

Ao mesmo tempo, historiadores apontam que o trauma da Revolução Cultural ajudou a moldar a China contemporânea – tanto na memória de quem viveu o período quanto nas estruturas de controle político que o regime manteve e aperfeiçoou nas décadas seguintes.

Hoje, caminhar por Pequim significa atravessar diferentes camadas da história chinesa. Turistas fotografam a Praça Tiananmen enquanto o enorme retrato de Mao continua observando a multidão do alto da Cidade Proibida.

A contradição é deliberada. O Partido Comunista condena oficialmente a Revolução Cultural como erro histórico, mas preserva intacto o culto à figura que a criou. Sessenta anos depois, esse silêncio não é ausência. É política.

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A MULHER QUE ESPALHOU O MEDO


Jiang Qing foi a última esposa de Mao Tsé-Tung e uma das figuras mais temidas da Revolução Cultural Chinesa. Nascida em 1914, começou a carreira como atriz em Xangai, usando o nome artístico Lan Ping, antes de se aproximar do Partido Comunista Chinês. O casamento com Mao, em 1938, impulsionou sua ascensão política. Em 1966, com o início da Revolução Cultural, Jiang Qing ganhou enorme poder dentro do regime. Tornou-se responsável pela política cultural chinesa e liderou perseguições contra intelectuais, artistas, professores e dirigentes acusados de “desvios burgueses”. Ela apoiou campanhas de humilhação pública, censura e repressão conduzidas pelos Guardas Vermelhos. Milhares de pessoas foram presas, torturadas ou enviadas para campos de trabalho. Após a morte de Mao, Jiang Qing foi presa (foto) e julgada pelos crimes cometidos durante o período. No tribunal, declarou: “Eu era o cachorro do presidente Mao. Mordia quem ele mandava morder”. Condenada à prisão perpétua, suicidou-se em 1991, aos 77 anos.

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