Ao longo de mais de sete décadas no trono, Elizabeth II construiu uma trajetória marcada pela capacidade de oferecer estabilidade em um período de profundas transformações globais. Quando assumiu a Coroa, em 1952, aos 25 anos, herdou não apenas o posto de chefe de Estado, mas a responsabilidade de conduzir uma instituição milenar em um cenário cada vez mais moderno e instável. Para os britânicos, sua presença constante tornou-se um ponto de referência em meio às incertezas, um símbolo de continuidade em uma era de mudanças aceleradas.

 

Da coroação na Abadia de Westminster, em 1953, ao silêncio do luto em Windsor, em 2021, as imagens resumem duas dimensões da Rainha Elizabeth II: o peso da tradição que a colocou no trono e a humanidade que marcou seus últimos anos

AFP

Essa percepção não se limitava ao campo simbólico. Mesmo após décadas de reinado, manteve elevados índices de aprovação. Pesquisas indicavam que cerca de 75% da população britânica avaliava positivamente sua atuação, reflexo de uma postura discreta, disciplinada e construída ao longo dos anos.

Ainda assim, por trás da imagem de solidez, houve momentos em que a dimensão humana se impôs. Um dos mais marcantes ocorreu em 2021, após a morte do príncipe Philip, seu companheiro de 74 anos. Em meio às restrições da pandemia, Elizabeth II foi vista sozinha durante a cerimônia fúnebre na capela de Windsor. A imagem rompeu a aura de invulnerabilidade e revelou uma mulher idosa enfrentando o luto em silêncio, como milhões ao redor do mundo. Ao longo do reinado, adotou a neutralidade política como princípio. Evitou manifestações públicas sobre temas sensíveis e manteve suas opiniões reservadas, preservando a imagem institucional da monarquia. Essa postura, aliada ao rigor no cumprimento do dever, ajudou a reduzir desgastes e consolidar uma percepção de equilíbrio.

 

AFP

Crises, no entanto, não faltaram. Em 1992, marcado por separações na família real e por um incêndio no Castelo de Windsor, foi definido pela própria rainha como “annus horribilis”. Em 1997, a morte da princesa Diana provocou comoção global e forte pressão sobre a monarquia. Mais recentemente, episódios envolvendo o príncipe Andrew e o afastamento do príncipe Harry voltaram a expor fragilidades. Ainda assim, sua postura permaneceu contida, firme e orientada pelo dever.

No plano internacional, Elizabeth II teve papel relevante na projeção da influência britânica. Realizou viagens oficiais, encontrou líderes e participou de agendas diplomáticas que reforçaram a presença do Reino Unido no mundo. Sua visita ao Brasil, em 1968, permanece como marco histórico, sendo a única de um monarca britânico à América Latina. Sua atuação foi associada ao chamado soft power, capaz de influenciar sem uso direto de força.

Ao mesmo tempo, Elizabeth II compreendeu a importância da imagem em uma sociedade mediada pela comunicação. Sua participação em eventos como a abertura das Olimpíadas de Londres, em 2012, mostrou habilidade para dialogar com o espetáculo global sem comprometer o cargo. Essa combinação de tradição e adaptação manteve a monarquia relevante.

Sua vida pessoal também alimentou o fascínio público. Casada com o príncipe Philip por mais de sete décadas, teve quatro filhos, oito netos e 12 bisnetos. Ainda assim, pouco se sabia sobre seus pensamentos íntimos, o que ampliou o interesse em torno de sua figura.
Elizabeth II testemunhou o fim do Império Britânico e a consolidação do Reino Unido em um novo contexto global, preservando vínculos com antigas colônias por meio da Comunidade das Nações.

Sua morte não representa apenas o fim de um reinado, mas o início de um novo capítulo para a monarquia. Com a ascensão de Charles III, a instituição enfrenta o desafio de equilibrar tradição e modernização em um cenário mais crítico e exigente.

Vida de rainha

AFP

21/4/1926 Elizabeth Alexandra Mary nasce em Londres, filha dos duques de York, futuros George VI e rainha Elizabeth. Em 1930, nasce sua irmã Margaret, completando a família.

11/12/1936 Com a abdicação de Edward VIII, seu pai assume como George VI. Elizabeth passa a ocupar posição central na sucessão.

20/11/1947 Casa-se com o príncipe Philip. Nos anos seguintes, nascem Charles, Anne, Andrew e Edward.

6/2/1952 – 2/6/1953 Assume o trono aos 25 anos após a morte do pai. Em 1953, é coroada.

1968 – 1970 Visita o Brasil e participa de evento no Maracanã com Pelé. Em seguida, na Nova Zelândia, intensifica o contato com o público.

 

AFP

1977– 1981 Celebra o jubileu de prata em meio a críticas culturais. Em 1979, Margaret Thatcher assume o governo. Em 1981, o casamento de Charles e Diana mobiliza o mundo.

1992 – 1997 Classifica 1992 como “annus horribilis” após crises familiares e incêndio em Windsor. Em 1997, a morre Diana.

2002 – 2011 Perde a irmã Margaret e, pouco depois, a rainha-mãe. Em 2011, o casamento de William e Kate reforça a imagem da monarquia.

2012 – 2015 Celebra o jubileu de diamante em 2012. Em 2015, torna-se a monarca britânica mais longeva, superando a rainha Vitória.

2021 – 2022 Morre o príncipe Philip em 2021. Em 2022, celebra 70 anos de reinado e, meses depois, morre aos 96 anos, encerrando uma era.

 

ARQUIVO O CRUZEIRO

Relatos de um brasileiro na coroação

Enviado da revista “O Cruzeiro”, o repórter Luciano Carneiro testemunhou, em Londres, o início do reinado de Elizabeth II e relatou para o Brasil o momento marcante na monarquia britânica


Na manhã fria e úmida de 2 de junho de 1953, em Londres, o mundo assistia à consagração de uma nova soberana enquanto, entre a multidão e os convidados, um repórter brasileiro registrava cada detalhe de um dos eventos mais simbólicos do século XX. Enviado especial da revista “O Cruzeiro”, o jornalista Luciano Carneiro acompanhou de perto a cerimônia na Abadia de Westminster e descreveu não apenas o ritual, mas o sentimento coletivo que tomou conta da capital britânica naquele dia histórico da coroação de Elizabeth II.

“Havia muitas coisas por êste mundo afora que podem encher a alma de um repórter. Mas será difícil achar, de futuro, algo como a coroação de Elizabeth II”, anotou, sintetizando o impacto do momento.

Antes mesmo da cerimônia, Londres já vivia um clima de expectativa incomum. Multidões enfrentaram horas, em alguns casos, mais de um dia inteiro , de espera sob frio e chuva. “Dezoito horas de espera no chão duro, com frio de inverno e tempo chuvoso de verão”, relatou, destacando a resistência de um público movido por algo maior que o desconforto: a devoção à monarquia.

 

ARQUIVO O CRUZEIRO

O olhar do repórter captou também o contraste entre o ceticismo de alguns estrangeiros e o entusiasmo dos britânicos. “Os ingleses são uns sonhadores. Cuidam de coisas antigas”, ouviu de um visitante que preferiu deixar a cidade. Mas, nas ruas, a realidade era outra. O fascínio pela jovem rainha se impunha. “Havia a Rainha para ver. Se vocês a vissem também talvez tivessem uma surpresa pela graça, talvez com uma candura de conto de fadas.”

Essa percepção se confirmava nos gestos espontâneos da população. Diante de uma fotografia desfavorável publicada em jornal, uma mulher reagiu com indignação:“Isso é injusto. Ela é adorável.” Em outro momento, uma voz anônima traduzia o sentimento coletivo: “Nossa Rainha parece encarnar a própria felicidade.”

A cerimônia em si seguiu um rigor milenar. Mais de sete mil pessoas ocuparam a Abadia de Westminster, entre autoridades, membros da realeza e representantes de diversos países. “Os membros da Corte, os representantes diplomáticos e os jornalistas começaram a tomar posição nos seus lugares às 7:30”, registrou, enquanto o povo permanecia do lado de fora, suportando as intempéries.

A chegada das delegações internacionais transformou o entorno em um espetáculo à parte. “Sultões, marajás, príncipes-herdeiros, marechais, lordes, formavam com suas fardas um cordão multicolorido”, descreveu, evidenciando o alcance global da cerimônia. Entre os presentes, a comitiva brasileira também despertou atenção: “Chateaubriand, de casaca e cartola, fez sucesso.”

Quando finalmente a jovem soberana entrou na Abadia, o ambiente atingiu seu ápice simbólico. “Os olhos de sete mil pessoas se fixavam na Rainha, jovem de 27 anos”, escreveu. Era o instante em que tradição, política e emoção convergiam.

 

ARQUIVO O CRUZEIRO

Para Carneiro, o que tornava Elizabeth singular ia além da pompa. “Grande em Elizabeth é que ela conserva, nos momentos de pompa, a simplicidade de modos que faz parecer, em ocasiões comuns, uma das nossas.” Essa combinação de solenidade e proximidade ajudava a explicar a conexão imediata com o povo.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

Ao final, mais do que uma cerimônia, a coroação representava o início de uma nova era. Entre protocolos rígidos e manifestações contidas, o repórter identificou um traço essencial da cultura britânica: “O inglês é grave até mesmo quando aplaude.” Ainda assim, sob essa contenção, havia um sentimento profundo de renovação – a sensação de que, naquele dia, nascia não apenas uma rainha, mas um novo capítulo da história.

compartilhe