Tula, que morreu em 2015, aos 95 anos, se considerava ‘‘um sofrido feliz’’
A frase dita décadas depois sintetiza a parte mais dolorosa da trajetória de João Rodrigues Neves, o Tula. Motorista da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Segunda Guerra Mundial, ele conduzia mantimentos até a linha de batalha, em território italiano, e retornava com soldados feridos. Muitos seguiam para hospitais em Nápoles; os casos mais graves eram transferidos para os Estados Unidos. O que via no trajeto jamais o abandonou.
Natural de Santa Luzia, Tula integrou o grupo de 12 luzienses enviados ao front italiano – todos voltaram vivos. Ainda assim, o retorno não apagou as marcas. Em entrevista concedida ao Leia Agora, jornal local da sua terra natal, em março de 2008, quando tinha 87 anos, relembrou o peso daquelas viagens. “Eu transportava mantimento para a frente de batalha e voltava carregando os feridos. Eu chorava vendo o sofrimento deles.”
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As cenas de dor não se limitavam aos combatentes. João também guardava na memória as crianças italianas que ajudou a alimentar. “Eram magérrimas. Havia uma menina que era só pele e osso. Achei que não fosse vingar. Ajudei a alimentá-la. E ela foi até avó”, contou. Impressionava-se com as filas de meninos e meninas que aguardavam restos de comida. “Entravam na fila para pegar o que sobrava, o que a gente punha na lavagem. Eram cenas muito tristes.”
Apesar do cenário devastador, mantinha a fé e a convicção na vitória aliada. Em carta enviada de Livorno ao irmão Paulo Rodrigues Neves, residente na capital mineira, demonstrava confiança. “Estou em forma para cumprir o meu dever de soldado brasileiro”, escreveu. Afirmava que os alemães “entregarão os pontos” em breve e que a FEB era “muito admirada pelos americanos”.
Na mesma correspondência, revelava também o desejo de manter-se conectado à terra natal. “Gostaria de receber sempre notícias daí. Se não for muito difícil, peço-lhe enviar-me um exemplar do Estado de Minas, ao menos uma vez por mês.” A leitura do jornal mineiro era uma forma de reduzir a distância entre Livorno e Santa Luzia, entre a guerra e a vida cotidiana que havia deixado para trás.
Na despedida da carta, enviava lembranças à Conceição, Efigenia e Maria. Recomendava-se ao músico Gil Santiago, da Rádio Guarani, e aos amigos George, Helena, Alzira e Edison. Encerrava com um “forte e saudoso abraço”.
Mas nem só o combate marcou sua passagem pela Itália. Ao desembarcar, enfrentou também o preconceito racial. Muitos italianos jamais tinham visto uma pessoa negra. O estranhamento se manifestava sobretudo nas crianças.
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“Quando cheguei a Torino, as crianças passavam a unha no meu braço para ver se saía tinta. Ficaram admiradas. Queriam saber por que eu era negro. Elas corriam de mim, com medo. Até que um italiano apareceu e começou a conversar comigo. Aquela noite, eu não dormi. Passamos conversando e bebendo. Eles comemoravam o fato de terem conhecido um preto.”
O episódio, que anos depois contava com um sorriso discreto, revelava o contraste entre o preconceito inicial e a curiosidade que, aos poucos, se transformava em aproximação.
Após o retorno ao Brasil, mudou-se para Belo Horizonte. Mesmo décadas depois, admitia que a guerra ainda o visitava nos sonhos. “Coisas boas e coisas ruins”, resumia. Encontrou na fé uma forma de manter o equilíbrio emocional. “Preciso rezar muito. Tenho essa necessidade.”
“Sou um sofrido feliz”, definia-se. João Rodrigues Neves faleceu em 18 de outubro de 2015, aos 95 anos, deixando o testemunho de um pracinha que atravessou a brutalidade da guerra, chorou pelos feridos, alimentou crianças famintas e, apesar de tudo, preservou a sensibilidade e a fé. Foi sepultado no cemitério de Santa Luzia, com as honras militares prestadas pelo Exército brasileiro.
“Se não for muito difícil, peço-lhe enviar-me um exemplar do ESTADO DE MINAS, ao menos uma vez por mês”
“Querido irmão Paulo. Saudações e abraço. É com imenso prazer que lhe escrevo estas linhas para dar minhas notícias e para falar alguma coisa do que estamos fazendo aqui, nesta distante e bonita Itália.
Eu vou muito bem e estou em forma para cumprir o meu dever de soldado brasileiro.
Todos estamos certos de que os alemães entregarão os pontos para os aliados muito depressa.
Os exércitos estão atacando mesmo de verdade os nazistas e eles não poderão resistir por muito tempo mais.
A Força Expedicionária Brasileira está sendo muito admirada pelos americanos, e estes são muito nossos amigos. Reza-se sempre pela nossa vitória.
Gostaria de receber sempre notícias daí. Se não for muito difícil, peço-lhe enviar-me um exemplar do Estado de Minas, ao menos uma vez por mês. Estamos com a Conceição, Efigênia, Maria, de elas muitas lembranças.
Recordem-me também ao Gil Santiago, que tocava aí na Rádio Guarani, ao George, Helena, Alzira e Edilson.
No mais, termino esta carta mandando para o meu querido irmão um forte e saudoso abraço. João Rodrigues Neves
João Rodrigues Neves, expedicionário, natural de Santa Luzia e conhecido como Tula, escreveu ao irmão Paulo Rodrigues Neves, residente na capital. A carta foi publicada em 1944 no Estado de Minas.