-  (crédito: Reprodução)

crédito: Reprodução

Assim que os primeiros contingentes da Força Expedicionária Brasileira desembarcaram na Itália, em julho de 1944, o Estado de Minas passou a publicar, de forma contínua, as correspondências enviadas pelos pracinhas mineiros. As cartas começaram a aparecer poucos meses após a instalação das tropas brasileiras em solo italiano e, sob o título “Cartas do front”, tornaram-se uma seção aguardada pelos leitores. Entre outubro e dezembro de 1944, período em que a FEB já consolidava sua presença no front e enfrentava os combates no norte da Itália, o fluxo dessas mensagens se intensificou. Escritas por soldados, cabos, sargentos, oficiais e enfermeiras, as cartas cruzavam o Atlântico e chegavam às páginas do jornal carregadas de fé, disciplina, saudade e confiança na vitória aliada.

Submetidas à censura militar, evitavam qualquer referência a posições estratégicas ou movimentações de tropas, mas revelavam a dimensão humana da guerra. Nos relatos, apareciam o orgulho de representar Minas Gerais, a esperança do retorno e o compromisso com a pátria. Oito décadas depois, esses textos permanecem como documentos históricos valiosos da participação mineira na Segunda Guerra Mundial, preservando vozes que resistiram ao tempo e ao silêncio dos campos de batalha. Veja, a seguir, o que disseram 10 heróis brasileiros.


SEBASTIÃO PIRES, SARGENTO (BH)


“O mineiro dá um boi para não entrar na briga, mas dá uma boiada para não sair dela”

Em outubro de 1944, já na Itália, o sargento Sebastião Pires escreveu à mãe relatando sua chegada ao teatro de operações na Segunda Guerra. Integrante da Força Expedicionária Brasileira (FEB), ele fazia parte do contingente mineiro incorporado ao 5º Exército dos EUA A carta revela cuidado e o esforço de tranquilizar a família sobre a viagem e o treinamento.“Chegamos hoje, e, infelizmente, não posso dizer-lhe onde estamos”, registrou. Em seguida, comparou a travessia marítima a uma viagem tranquila pela ferrovia mineira. Demonstrando espírito combativo, escreveu: “O mineiro dá um boi para não entrar na briga, mas dá uma boiada para não sair dela”. Ao final, afirmou que teria juízo, seria um soldado valoroso e não desonraria o nome do Brasil.

 

Reprodução

JOÃO TEIXEIRA FILHO, 2º SARGENTO (BETIM)

“Depois, a liberdade surgirá em todos os horizontes do mundo”

Datada de 15 de outubro de 1944, a carta do 2º sargento João Teixeira Filho foi escrita quando as tropas brasileiras consolidavam posições. Natural de Betim, integrava a FEB nas montanhas, onde enfrentavam terreno difícil e resistência alemã. O texto revela equilíbrio emocional e cuidado em tranquilizar a família. “Eu, apesar da cruel saudade, estou forte e muito satisfeito”, registrou. Alertou para que não se desse atenção a “boatos alarmantes” no Brasil. Confiante, afirmou: “Marcharemos ombro a ombro até o final desta jornada heroica”. Ao concluir, sintetizou o ideal dos pracinhas: “Depois, a liberdade surgirá em todos os horizontes do mundo”.

ARQUIVO

GERALDO MAJELA DE SOUSA, SOLDADO (bh)

“A nossa vitória é certa e está muito próxima”

Em carta datada de 6 de outubro de 1944, o soldado Geraldo Majela de Sousa escreveu à família. Identificado como soldado nº 315 da Força Expedicionária Brasileira, participava das operações aliadas contra o Eixo. O texto retrata o moral das tropas naquele momento da campanha. “Eu, com a ajuda de Deus, estou perfeitamente apto para cumprir a minha missão de brasileiro na Europa”, afirmou, destacando o sentido patriótico da mobilização. Confiante, escreveu: “Confiamos em nossas armas e em nossos aliados. A nossa vitória é certa e está muito próxima”. A carta transmite fé, segurança e a preocupação em tranquilizar a mãe.

ANFRIDO ZILLER, SOLDADO (RIO BRANCO)

‘‘Podem os senhores estar certos de que seu filho não os envergonhará’’

Em 20 de outubro de 1944, dias após chegar ao front italiano, o expedicionário Anfrido Ziller escreveu aos pais relatando as primeiras impressões da guerra. Natural de Rio Branco (MG), aos 24 anos integrava as ações contra as tropas alemãs. A carta revela serenidade e forte apego aos valores familiares. Informou que todos estavam satisfeitos e dispostos, indicando moral elevado. Em trecho marcante, recordou a educação recebida no lar e afirmou que qualquer sacrifício seria pequeno diante do dever de lutar pela paz e pela honra da pátria. Ao concluir, prometeu: “Podem os senhores estar certos de que seu filho não os envergonhará”, evidenciando disciplina e caráter.


VICENTE VALERIO, cabo (DIVINÓPOLIS)

‘‘Muito breve a Itália estará livre do jugo dos tedescos’’

Em 22 de outubro de 1944, o cabo Vicente Ferreira Valerio escreveu da Itália ao amigo Félix Fernandes. Natural de Divinópolis (MG), integrava o 1º Contingente no front europeu. A carta revela serenidade e saudade da terra natal. No início, explicou que o tempo era escasso diante dos deveres militares e descreveu a travessia como tranquila, embora sentisse a distância do Brasil. Ao mencionar um vizinho italiano que conhecera na região onde estava aquartelado, pediu que lhe transmitissem a mensagem: “Muito breve a sua Itália estará livre do jugo dos tedescos”, expressando confiança na libertação e solidariedade ao povo local.

HELIO NAZARETH, soldado (MONTES CLAROS)

“Só regressaremos com a vitória”

Com 21 anos, Helio Silvestre Nazareth escreveu ao irmão, em 1944. Natural de Montes Claros (MG), participava das operações aliadas contra as forças do Eixo. A carta revela preocupação em transmitir tranquilidade à família. Na abertura, enviou abraços e afirmou estar feliz por poder dar boas notícias. Destacou sua condição física, mencionando ganho de peso como sinal de saúde e boa alimentação, reforçando que estava bem disposto para cumprir a missão. Em trecho sintetiza o espírito da tropa: “Só regressaremos com a vitória – é o pensamento dos expedicionários brasileiros”.

José Pereira, soldado (santa luzia)

“Em todos os lugares por que passo, é só destruição e desolação”

Natural de Santa Luzia (MG), o cabo José da Fonseca Pereira relatou suas impressões do cenário devastado pela guerra. A carta revela serenidade pessoal, mas também forte impacto diante da destruição observada nas cidades italianas. Logo nas primeiras linhas, desejou saúde à família e informou estar bem, apesar das saudades do Brasil e da terra natal. Ao descrever o ambiente ao redor, registrou: “Em todos os lugares é só destruição e desolação”. Em seguida, sintetizou: “Os alemães estigmatizaram esta terra de maneira cruel”. A correspondência possui caráter histórico, revelando o olhar de um jovem diante das marcas da guerra.

 

 

CARLOTA MELO, ENFERMEIRA (SÃO JOSÉ)

‘‘estou Feliz por ser útil à Pátria e ao seu povo’’

Em 28 de dezembro de 1944, de Nápoles, a enfermeira Carlota Melo escreveu à família relatando sua atuação nos hospitais de campanha que atendiam soldados brasileiros feridos na Itália. Natural de São José (MG) e formada na capital, integrava o grupo de profissionais da saúde que acompanhou a FEB. Descreveu a rotina intensa de trabalho e as condições difíceis do inverno europeu.Em trecho marcante, registrou: “Sente-se feliz por ser útil à pátria e ao seu povo”. Também mencionou um Natal cheio de esperança e enviou votos de saúde para o novo ano. A correspondência evidencia o papel decisivo das brasileiras na guerra.


JOÃO BATISTA MOREIRA, cabo (BH)

“Temos de vencer definitivamente os nazistas”

Integrante da FEB, o cabo João Batista Moreira escreveu ao pai do front italiano em 1944. Natural de BH, participava das ações aliadas em território europeu, enfrentando o rigor do inverno e a intensidade dos combates. A carta revela convicção patriótica. Logo no início, pediu a bênção do pai e informou estar com saúde e disposição para enfrentar a situação presente. Demonstrou compreender a dimensão histórica do conflito:“Temos de vencer definitivamente os nazistas”. Em outro trecho, expressou que mais filhos deveriam ser enviados para defender a pátria. Tombaria posteriormente em combate.

OLYMPIO FALCONIERE, GENERAL (OURO PRETO)

“Os soldados brasileiros já se impuseram ao conceito dos americanos e ingleses”

Em 29 de novembro de 1944, o general Olympio Falconiere escreveu ao coronel Marius Neto registrando a atuação das tropas no front europeu. Natural de Ouro Preto (MG), integrava o alto comando militar. Diferentemente das cartas familiares enviadas por soldados e cabos, sua correspondência possui caráter institucional e estratégico, refletindo avaliação oficial sobre o desempenho. Em trecho, destacou: “Os soldados brasileiros já se impuseram ao conceito dos americanos e dos ingleses”. A frase evidencia o reconhecimento internacional alcançado pela tropa após meses de combate em condições adversas.