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Por que o sono é essencial para a memória? Entenda o papel das diferentes fases do descanso na mente

Ao longo das últimas décadas, pesquisas em neurociência e psicologia cognitiva passaram a mostrar com mais clareza que a qualidade do sono liga-se diretamente à memória. Saiba por que o sono é essencial para esse processo.

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Ao longo das últimas décadas, pesquisas em neurociência e psicologia cognitiva passaram a mostrar com mais clareza que a qualidade do sono liga-se diretamente à memória. Não se trata apenas de descansar o corpo. Afinal, durante a noite, o cérebro continua ativo, reorganizando informações que recebemos ao longo do dia e definindo o que será esquecido e o que será armazenado com mais estabilidade. Portanto, é nesse período que experiências recentes ganham espaço na estrutura da memória de longo prazo.

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Esse processo não ocorre de forma aleatória. Diferentes estágios do sono, como o sono profundo e o sono REM, participam de tarefas específicas na consolidação de lembranças. Assim, a expressão dormir para aprender melhor passou a ter uso em contextos educacionais e clínicos justamente porque a ciência mostra que, sem um descanso adequado, o cérebro encontra mais dificuldade para fixar conteúdos estudados, organizar memórias emocionais e manter a atenção no dia seguinte.

A expressão dormir para aprender melhor passou a ter uso em contextos educacionais e clínicos justamente porque a ciência mostra que, sem um descanso adequado, o cérebro encontra mais dificuldade para fixar conteúdos estudados, organizar memórias emocionais e manter a atenção no dia seguinte – depositphotos.com / AllaSerebrina

Como o sono influencia a memória ao longo da noite?

O ciclo de sono divide-se em fases que se repetem várias vezes durante a noite. As duas que mais são objeto de estudos em relação à memória são o sono de ondas lentas, ou sono profundo, e o sono REM, estágio em que surgem os sonhos mais vívidos. Na fase profunda, predominam ondas cerebrais lentas e sincronizadas, que se associam à transferência de memórias recentes, armazenadas temporariamente no hipocampo, para regiões corticais responsáveis pela memória de longo prazo.

Já no sono REM, o cérebro apresenta atividade elétrica mais rápida, que se parece com a vigília, mas com o corpo em relativa paralisia muscular. Nessa etapa, ocorre forte interação entre áreas que se associam à emoção, como a amígdala, e regiões corticais envolvidas no raciocínio. Assim, estudos indicam que o sono REM auxilia na integração de conteúdos novos com conhecimentos antigos e na regulação emocional de lembranças. Ou seja, tudo isso ajuda a tornar experiências intensas mais manejáveis.

Qual é o papel do sono profundo e do sono REM na consolidação da memória?

A expressão-chave nesse tema é consolidação da memória, processo em que lembranças frágeis e recentes se tornam mais estáveis. A palavra-chave central, sono e memória, aparece justamente nessa relação. Afinal, durante o sono profundo, o hipocampo reapresenta ao córtex cerebral padrões de atividade registrados durante o dia. Portanto, essa repetição silenciosa fortalece as conexões sinápticas ligadas às informações consideradas relevantes, como um treino interno automatizado.

No sono REM, a consolidação assume outra faceta. Além de reforçar traços de memória, essa etapa favorece a associação entre ideias distantes e a criatividade. Pesquisas mostram que pessoas que dormem após aprender um conteúdo tendem a ter melhor desempenho em testes de aplicação prática do que aquelas que permanecem acordadas pelo mesmo período. A combinação entre o sono de ondas lentas e o sono REM parece formar um ciclo complementar: primeiro ocorre a estabilização mais bruta das informações; depois, a integração e a reorganização em redes mais amplas.

Em termos cerebrais, esse processo envolve alterações na força das sinapses, conhecida como plasticidade sináptica. Durante a noite, algumas conexões neurais são reforçadas, enquanto outras são enfraquecidas, garantindo equilíbrio e evitando sobrecarga. Estruturas como o hipocampo, o córtex pré-frontal e regiões sensoriais participam ativamente dessa reconfiguração. Dessa forma, o cérebro seleciona o que será mantido, o que será ajustado e o que perderá relevância.

O que a privação de sono provoca no aprendizado e na atenção?

A falta de sono, seja por noites maldormidas frequentes ou por insônia persistente, tende a prejudicar o funcionamento da memória em três etapas: codificação (aprender algo novo), consolidação (fixar o conteúdo) e recuperação (lembrar depois). Quando uma pessoa dorme pouco, o hipocampo apresenta menor capacidade de registrar informações, o que reduz a quantidade de dados que chegam com clareza à memória de longo prazo.

No dia seguinte, esse mesmo indivíduo costuma apresentar lapsos de atenção, dificuldade de concentração e menor velocidade de raciocínio. Em tarefas do cotidiano, isso se traduz, por exemplo, em esquecer um recado recebido horas antes, confundir horários de compromissos ou ter mais trabalho para aprender um conteúdo escolar ou profissional que, em condições de sono adequado, seria assimilado com menos esforço. Em ambientes de trabalho que exigem tomada de decisão rápida, a privação de sono pode aumentar o risco de erros.

Além disso, noites insuficientes ou de baixa qualidade prejudicam o equilíbrio emocional. A amígdala tende a reagir com mais intensidade a estímulos negativos, enquanto o córtex pré-frontal, responsável pelo controle e avaliação, fica menos ativo. Isso pode interferir na forma como memórias emocionais são processadas, tornando lembranças relacionadas a estresse ou conflitos mais marcantes. Em longo prazo, esse quadro se associa a maior risco de problemas de saúde mental.

A falta de sono, seja por noites maldormidas frequentes ou por insônia persistente, tende a prejudicar o funcionamento da memória em três etapas: codificação (aprender algo novo), consolidação (fixar o conteúdo) e recuperação (lembrar depois) – depositphotos.com / VitalikRadko

Quais hábitos ajudam a proteger o sono e a memória no dia a dia?

Em contextos acadêmicos, profissionais ou familiares, pequenas mudanças de rotina podem favorecer a relação saudável entre sono e memória. Especialistas em medicina do sono costumam destacar a importância da chamada higiene do sono, um conjunto de práticas que tornam o descanso noturno mais estável e reparador.

  • Manter horários regulares para dormir e acordar, inclusive nos fins de semana.
  • Reduzir o uso de telas luminosas, como celular e computador, pelo menos 1 hora antes de deitar.
  • Evitar refeições muito pesadas, cafeína e bebidas energéticas no período noturno.
  • Criar um ambiente escuro, silencioso e com temperatura agradável no quarto.
  • Associar a cama principalmente ao ato de dormir, evitando trabalhar ou estudar nesse local.

Algumas estratégias práticas podem colaborar diretamente com o aprendizado e a fixação de conteúdos:

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  1. Distribuir os estudos ao longo do dia, em blocos menores, permitindo que o cérebro revisite o conteúdo antes do sono.
  2. Realizar breves revisões no final da tarde ou à noite, para que essas informações sejam priorizadas na consolidação durante o sono profundo.
  3. Evitar virar a noite estudando, já que o cansaço excessivo reduz a capacidade de codificar novas informações e compromete o desempenho no dia seguinte.

No cotidiano, quem preserva um padrão de sono adequado tende a relatar maior facilidade para lembrar nomes, cumprir tarefas no prazo e compreender conteúdos complexos em diferentes áreas. A relação entre sono e memória, investigada por neurocientistas e psicólogos cognitivos, aponta que o descanso noturno funciona como uma fase essencial do próprio processo de aprendizagem, e não apenas como uma pausa entre dois dias de atividades.

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