Um som fraco vinha do canto do quintal, entre as folhas caídas de uma tarde quente de verão. Simone, diarista e mãe solo de 33 anos, moradora de uma casa na periferia de uma cidade próxima a uma área de mata, foi checar e encontrou um filhote de animal silvestre, ainda sem penas completas, encolhido perto do muro.
Os 2 filhos pequenos, curiosos, já tinham se aproximado antes dela. Ninguém sabia dizer havia quanto tempo o filhote estava ali, nem se a mãe dele continuava por perto, procurando.
Diante do medo de que algum gato do bairro alcançasse o animal primeiro, ela optou por abrigá-lo numa caixa de sapatos forrada com um pano, dentro de casa, “só até descobrir o que fazer” — foi o que disse aos filhos, sem imaginar que aquele “só até” se estenderia por dias.
Os meninos já tinham dado nome ao filhote antes mesmo de a caixa ser fechada pela primeira vez. Passaram a tarde espiando pela fresta, discutindo o que ele comia, se sentia frio, se precisava de água num potinho. Para eles, aquilo era só um bichinho encontrado no quintal. Para Simone, começava a virar uma responsabilidade que ela não sabia bem como conduzir.
Por que oferecer comida e leite ao filhote pode piorar a situação

Animais silvestres, principalmente filhotes, têm necessidades alimentares muito específicas. Uma dieta errada pode causar problemas graves de saúde, e o contato prolongado com humanos pode comprometer o comportamento natural do animal, dificultando ou até impedindo seu retorno à natureza. O que parece cuidado, aos olhos de quem resgatou, pode na prática significar açúcar, gordura ou nutrientes incompatíveis com o que aquela espécie consumiria na natureza, além de reforçar um vínculo com pessoas que dificulta a soltura mais adiante. Por isso, a orientação de órgãos ambientais é clara: animal silvestre encontrado ferido ou filhote aparentemente abandonado não deve ser alimentado, medicado ou criado por conta própria — o caminho é acionar quem tem estrutura para avaliar e cuidar dele.
Foi só ao abrir a caixa de sapatos na manhã seguinte, para ver se o filhote tinha se alimentado do resto de fruta deixado ali, que Simone percebeu o quanto a situação exigia mais do que boa vontade. O animal parecia mais fraco, não mais forte.
Como funciona o acionamento do Cetas ou do órgão ambiental
Os Centros de Triagem de Animais Silvestres, conhecidos como Cetas, recebem animais resgatados, avaliam a saúde de cada um e decidem o destino possível: tratamento, reabilitação e eventual soltura, ou destinação a criadouros e instituições autorizadas quando o retorno à natureza não é viável. O contato pode ser feito com o Cetas mais próximo, com a polícia ambiental ou com o órgão ambiental estadual ou municipal. Em caso de animal silvestre de grande porte ou que ofereça risco imediato, o mais seguro é não se aproximar e acionar o Corpo de Bombeiros, pelo 193.
Ao acionar o órgão responsável, ajuda descrever com detalhes onde o animal foi encontrado, em que condição estava, há quanto tempo aproximadamente e se apresenta ferimentos visíveis. Uma foto tirada a distância segura, sem manuseio direto, também facilita a triagem antes mesmo de o animal chegar ao centro especializado.
Eu não tive coragem de deixar ele lá fora sozinho — só não sabia que cuidar bem também podia ser um jeito de atrapalhar.
O que muda quando o animal já criou apego à família

Mesmo depois de 4 dias de convívio, manter um animal silvestre em casa não é legal nem seguro, ainda que ele pareça domesticado. O apego que a família desenvolve não altera o status do animal nem substitui a avaliação técnica de quem trabalha com fauna silvestre.
Explicar isso às crianças, sem transformar a entrega em uma perda, também faz parte do processo — vale conversar sobre o motivo da decisão antes de agir, em vez de simplesmente levar o filhote embora sem aviso. Entregar o filhote a um Cetas ou órgão ambiental, o quanto antes, aumenta as chances de recuperação e de um destino adequado, seja a soltura, seja um ambiente controlado apropriado para a espécie.
Quando a soltura por conta própria não é indicada
Devolver o animal ao mesmo lugar onde foi encontrado pode parecer o gesto mais bondoso, mas sem avaliação de saúde e de comportamento, a soltura pode expor o filhote a predadores, fome ou doenças que ele não teria condição de enfrentar sozinho. É a equipe técnica do Cetas, e não a família que resgatou, quem tem condições de decidir o momento e o lugar certos para essa etapa. Soltar cedo demais, no lugar errado, ou sem confirmar que o filhote já sabe se alimentar e se defender sozinho pode significar condená-lo a um risco maior do que o que motivou o resgate.
Uma história como esta, embora hipotética, mostra o que fazer quando um animal silvestre é encontrado ou entregue voluntariamente: acionar Cetas ou órgão ambiental e não manter, medicar ou soltar por conta própria. Cada espécie tem necessidades diferentes, e a avaliação de um profissional é o que determina o melhor caminho para o animal.
Informações sobre os Centros de Triagem de Animais Silvestres estão disponíveis no site do Ibama sobre os Cetas, e os serviços relacionados à fauna silvestre podem ser consultados na página de avaliação e destinação de fauna. Rotinas de cuidado com animais também apareceram em outra reportagem sobre voluntariado dedicado a cuidar de animais.




