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Aos 33 anos, Simone, diarista e mãe solo de 2 filhos, abrigou na caixa de sapatos um filhote silvestre encontrado no quintal, manteve o apego por 4 dias e só depois soube pelo Ibama que precisava acionar o Cetas ou os Bombeiros antes de qualquer tentativa de soltura

João Victor Por João Victor
02/08/2026
Em Notícias
Mulher agachada perto da porta de casa cuida de um pequeno filhote dentro de uma caixa de papelão, enquanto duas crianças observam a cena.

Mulher e duas crianças acompanham o cuidado inicial com um filhote encontrado no quintal, em cena ligada à orientação correta para resgate de animal silvestre. Imagen generada por IA.

EM Resumo
✓A manutenção doméstica de espécimes da fauna silvestre sem autorização é vedada pela Lei de Crimes Ambientais.
✓A entrega voluntária do animal ao Ibama ou ao Cetas extingue a aplicação de multas ou sanções penais ao cidadão.
✓O convívio domiciliar prolongado gera a domesticação forçada (imprinting), reduzindo drasticamente as chances de sobrevivência na natureza.
✓A soltura direta por conta própria em matas ou parques expõe o filhote fragilizado a predadores e à inanição imediata.
✓O resgate emergencial deve ser solicitado ao Corpo de Bombeiros (193) ou à Polícia Ambiental quando houver riscos de manejo.

Um som fraco vinha do canto do quintal, entre as folhas caídas de uma tarde quente de verão. Simone, diarista e mãe solo de 33 anos, moradora de uma casa na periferia de uma cidade próxima a uma área de mata, foi checar e encontrou um filhote de animal silvestre, ainda sem penas completas, encolhido perto do muro.

Os 2 filhos pequenos, curiosos, já tinham se aproximado antes dela. Ninguém sabia dizer havia quanto tempo o filhote estava ali, nem se a mãe dele continuava por perto, procurando.

Diante do medo de que algum gato do bairro alcançasse o animal primeiro, ela optou por abrigá-lo numa caixa de sapatos forrada com um pano, dentro de casa, “só até descobrir o que fazer” — foi o que disse aos filhos, sem imaginar que aquele “só até” se estenderia por dias.

Os meninos já tinham dado nome ao filhote antes mesmo de a caixa ser fechada pela primeira vez. Passaram a tarde espiando pela fresta, discutindo o que ele comia, se sentia frio, se precisava de água num potinho. Para eles, aquilo era só um bichinho encontrado no quintal. Para Simone, começava a virar uma responsabilidade que ela não sabia bem como conduzir.

Por que oferecer comida e leite ao filhote pode piorar a situação

Mulher prepara uma caixa ventilada para manter uma ave encontrada em local protegido, sem oferecer alimentos ou medicamentos.

Animais silvestres, principalmente filhotes, têm necessidades alimentares muito específicas. Uma dieta errada pode causar problemas graves de saúde, e o contato prolongado com humanos pode comprometer o comportamento natural do animal, dificultando ou até impedindo seu retorno à natureza. O que parece cuidado, aos olhos de quem resgatou, pode na prática significar açúcar, gordura ou nutrientes incompatíveis com o que aquela espécie consumiria na natureza, além de reforçar um vínculo com pessoas que dificulta a soltura mais adiante. Por isso, a orientação de órgãos ambientais é clara: animal silvestre encontrado ferido ou filhote aparentemente abandonado não deve ser alimentado, medicado ou criado por conta própria — o caminho é acionar quem tem estrutura para avaliar e cuidar dele.

Foi só ao abrir a caixa de sapatos na manhã seguinte, para ver se o filhote tinha se alimentado do resto de fruta deixado ali, que Simone percebeu o quanto a situação exigia mais do que boa vontade. O animal parecia mais fraco, não mais forte.

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Como funciona o acionamento do Cetas ou do órgão ambiental

Os Centros de Triagem de Animais Silvestres, conhecidos como Cetas, recebem animais resgatados, avaliam a saúde de cada um e decidem o destino possível: tratamento, reabilitação e eventual soltura, ou destinação a criadouros e instituições autorizadas quando o retorno à natureza não é viável. O contato pode ser feito com o Cetas mais próximo, com a polícia ambiental ou com o órgão ambiental estadual ou municipal. Em caso de animal silvestre de grande porte ou que ofereça risco imediato, o mais seguro é não se aproximar e acionar o Corpo de Bombeiros, pelo 193.

Ao acionar o órgão responsável, ajuda descrever com detalhes onde o animal foi encontrado, em que condição estava, há quanto tempo aproximadamente e se apresenta ferimentos visíveis. Uma foto tirada a distância segura, sem manuseio direto, também facilita a triagem antes mesmo de o animal chegar ao centro especializado.

Eu não tive coragem de deixar ele lá fora sozinho — só não sabia que cuidar bem também podia ser um jeito de atrapalhar.

O que muda quando o animal já criou apego à família

Profissional recolhe a caixa com a ave resgatada enquanto a moradora e as crianças acompanham o atendimento.

Mesmo depois de 4 dias de convívio, manter um animal silvestre em casa não é legal nem seguro, ainda que ele pareça domesticado. O apego que a família desenvolve não altera o status do animal nem substitui a avaliação técnica de quem trabalha com fauna silvestre.

Impactos Práticos da Retenção de Espécies Entenda os desdobramentos técnicos causados pelo confinamento provisório e a conduta jurídica adequada para a regularização.
Risco Biológico Efeitos do Confinamento
Perda de Instintos: A proximidade diária elimina o medo natural de predadores, inviabilizando a soltura imediata.
Dependência Alimentar: O filhote deixa de aprender as técnicas necessárias para forragear e caçar seu próprio sustento.
Segurança Jurídica Entrega Voluntária
Isenção Legal: A apresentação espontânea do animal aos postos credenciados afasta a tipificação de crime ambiental.
Encaminhamento Cetas: Garante que biólogos realizem exames sanitários e a readaptação gradual ao bioma nativo.
Diretrizes conceituais estruturadas em conformidade com a Lei Federal nº 9.605/1998 e os manuais de manejo de fauna silvestre do Ibama.

Explicar isso às crianças, sem transformar a entrega em uma perda, também faz parte do processo — vale conversar sobre o motivo da decisão antes de agir, em vez de simplesmente levar o filhote embora sem aviso. Entregar o filhote a um Cetas ou órgão ambiental, o quanto antes, aumenta as chances de recuperação e de um destino adequado, seja a soltura, seja um ambiente controlado apropriado para a espécie.

Quando a soltura por conta própria não é indicada

Devolver o animal ao mesmo lugar onde foi encontrado pode parecer o gesto mais bondoso, mas sem avaliação de saúde e de comportamento, a soltura pode expor o filhote a predadores, fome ou doenças que ele não teria condição de enfrentar sozinho. É a equipe técnica do Cetas, e não a família que resgatou, quem tem condições de decidir o momento e o lugar certos para essa etapa. Soltar cedo demais, no lugar errado, ou sem confirmar que o filhote já sabe se alimentar e se defender sozinho pode significar condená-lo a um risco maior do que o que motivou o resgate.

Uma história como esta, embora hipotética, mostra o que fazer quando um animal silvestre é encontrado ou entregue voluntariamente: acionar Cetas ou órgão ambiental e não manter, medicar ou soltar por conta própria. Cada espécie tem necessidades diferentes, e a avaliação de um profissional é o que determina o melhor caminho para o animal.

Informações sobre os Centros de Triagem de Animais Silvestres estão disponíveis no site do Ibama sobre os Cetas, e os serviços relacionados à fauna silvestre podem ser consultados na página de avaliação e destinação de fauna. Rotinas de cuidado com animais também apareceram em outra reportagem sobre voluntariado dedicado a cuidar de animais.

Tags: animal silvestrecetasfauna silvestreibamameio ambienteresgate de animais

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