Existem lugares onde a rocha decide a paisagem, e outros onde ela decide tudo. No topo da Serra das Letras, no sul de Minas Gerais, as ruas, as casas e as igrejas foram erguidas com o mesmo material que sustenta a montanha. São Thomé das Letras repousa a 1.440 metros de altitude sobre um imenso depósito de quartzito, e a cidade guarda tantas lendas mal explicadas quanto camadas de pedra sob o próprio chão.
Por que uma carta escrita por um analfabeto deu nome à cidade?
A origem do nome mistura história e tradição oral em partes iguais. No final do século XVIII, o escravo João Antão fugiu da fazenda do capitão João Francisco Junqueira e se refugiou em uma gruta no alto da serra. Segundo a tradição preservada pela Prefeitura de São Thomé das Letras, ali apareceu um senhor de vestes brancas que lhe entregou uma carta com caligrafia perfeita, destinada ao antigo dono.
O detalhe que ninguém explicou até hoje é simples e desconcertante: João Antão não sabia ler nem escrever. Ao visitar a gruta, o capitão encontrou apenas uma imagem de São Tomé, concedeu a alforria e mandou erguer uma capela ao lado da caverna. O complemento “das Letras” veio depois, das inscrições rupestres em tom avermelhado gravadas nos paredões e atribuídas aos antigos indígenas cataguases, marcas que despertaram lendas mantidas vivas até hoje.

Do que exatamente é feita a montanha que sustenta a cidade?
A montanha inteira é um bloco de quartzito, uma rocha metamórfica formada por temperatura e pressão ao longo de tempos difíceis de imaginar. Segundo o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), esse quartzito é coeso, antiderrapante, resistente à abrasão e tem baixa condutividade térmica, característica que o mantém fresco mesmo sob sol forte e o torna ideal para revestir pisos, muros e bordas de piscina.
A exploração comercial começou na década de 1940, quando o geólogo Josiel Cerqueira Luz constatou que a cidade estava sentada sobre uma jazida de fácil extração. Desde então, a chamada pedra São Tomé deixou de servir apenas às construções locais e passou a ser exportada. O mesmo material que forma as calçadas onde os moradores andam todos os dias reveste fachadas e piscinas na Europa e em outros continentes.

O que o registro do INPI reconheceu sobre a pedra São Tomé?
Em julho de 2024, a pedra recebeu um reconhecimento que poucos produtos brasileiros carregam. O INPI concedeu à Região Pedra São Thomé o registro de Indicação Geográfica na espécie Denominação de Origem, tornando-a a 125ª Indicação Geográfica do país, ao lado de nomes consagrados como o mármore de Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo.
O selo funciona como uma espécie de certidão de origem: só pode ser chamado de pedra São Tomé o quartzito extraído nessa faixa específica de São Tomé das Letras e da vizinha Luminárias. A documentação apresentada ao INPI apontou que a rocha da região é diferenciada tecnologicamente e mais valorizada comercialmente do que quartzitos similares de outros lugares, resultado das condições geológicas únicas em que se formou.

Como um patrimônio de pedra encaixada sem argamassa chegou até aqui?
O centro histórico chama atenção justamente porque foge do modelo colonial mineiro de casario branco e portas coloridas. As construções foram montadas com lascas de quartzito empilhadas e encaixadas sem argamassa, num arranjo que lembra construções medievais europeias. Esse conjunto foi tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA/MG).
O núcleo mais simbólico reúne a Gruta de São Thomé, a igreja erguida sobre ela e a Pirâmide próxima, um mirante de pedra a mais de 1.400 metros com vista para os vales do sul mineiro. A Igreja de Nossa Senhora do Rosário, a chamada Igreja de Pedra, foi construída com blocos de quartzito encaixados sem uso de argamassa e tombada individualmente. Era o templo dos escravos, e sobrevive como um dos registros mais tocantes dessa arquitetura de pedra seca. Não por acaso, o vilarejo entra na lista dos refúgios serranos que atraem quem busca o interior mineiro, mesma vocação de outros povoados que nasceram da mineração e viraram destino de contemplação.

Por que São Thomé virou capital dos místicos e dos que veem luzes no céu?
A fama esotérica nasceu da própria geologia. As formações de quartzo espalhadas pela serra alimentam a crença de que o lugar concentra energias raras, e a cidade é apontada por seus frequentadores como um dos sete pontos energéticos da Terra. A reputação atrai místicos, ufólogos e curiosos que organizam vigílias nos mirantes à espera de fenômenos no céu.
Moradores relatam luzes inexplicadas há décadas, e a cidade convive naturalmente com esse duplo caráter, metade destino geológico, metade território de lendas. O circuito de grutas reforça a atmosfera: além da Gruta de São Thomé, o roteiro reúne a Gruta do Carimbado, a Gruta do Feiticeiro e outras cavidades abertas na própria rocha, cercadas por cachoeiras como a Cachoeira Antares e a Cachoeira da Lua. A cidade também é ponto de passagem da histórica Estrada Real, rota usada no período colonial para escoar o ouro de Minas até o litoral.
Quem quer conhecer o lado místico de São Thomé das Letras, vai curtir esse vídeo do canal Boa Sorte Viajante, com mais de 500 mil visualizações, que explora a famosa cidade de pedra:
Como é o clima na cidade mais alta do sul mineiro?
A altitude define quase tudo por aqui: as noites são frias mesmo no verão, e o ar seco do inverno traz o céu limpo que os visitantes procuram. Confira abaixo o comportamento das estações ao longo do ano:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Uma cidade que é a própria pedra que exporta
Poucos lugares carregam sua identidade de forma tão literal. Em São Thomé das Letras, a mesma rocha que sustenta a montanha vira parede, calçada, igreja e mercadoria embarcada para o outro lado do oceano. A pedra que os moradores pisam todos os dias é a que arquitetos escolhem para revestir piscinas em outro continente.
Talvez seja essa fusão entre chão, casa e lenda que mantém o mistério vivo. A cidade não guarda seus segredos em cofres, ela os expõe nas ruas, nas grutas e nas inscrições que ninguém decifrou por completo, esperando que cada visitante decida por conta própria onde termina a geologia e onde começa a história.




