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Família cria filhote silvestre por 4 meses, ganha apego e descobre que cuidar bem não vira posse legal e o artigo 29 da Lei 9.605 prevê de 6 meses a 1 ano por manter fauna

João Victor Por João Victor
29/07/2026
Em Curiosidades
Família observa um pássaro pousado na cortina enquanto um homem com caixa de transporte estende a mão dentro de uma casa.

Mulher e crianças acompanham a presença de um pássaro silvestre em casa enquanto um homem se prepara para colocá-lo na caixa de transporte. Imagen generada por IA.

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EM RESUMO
✓Crime ambiental (Art. 29): Manter fauna silvestre em cativeiro sem permissão prevê de 6 meses a 1 ano de detenção mais multa.
✓Isenção por entrega voluntária: Entregar o animal por iniciativa própria ao CETAS ou Ibama elimina a aplicação de multas ou penas criminais.
✓Perdão judicial não é licença: O perdão previsto na lei é analisado por um juiz no processo, e não autoriza a continuidade do animal em casa.
✓Danos à sobrevivência: Criar filhotes em casa impede que aprendam a caçar, fugir de predadores e conviver com a própria espécie.
✓Canais oficiais de resgate: Ao encontrar um bicho machucado ou filhote, acione o CETAS local, a Polícia Ambiental ou o Corpo de Bombeiros (193).

Tudo começou com um piado fraco no fundo do quintal. As crianças acharam um filhote de pássaro caído perto do muro, sem a mãe por perto, e correram para dentro pedindo ajuda. A família de dona Cleide, comovida, montou uma caixa com pano, ofereceu água e migalhas e decidiu cuidar “só até ele melhorar”.

O só até virou uma rotina. O filhote comia na mão, respondia à voz das crianças e ganhou nome. Quatro meses depois, já era parte da casa, empoleirado na cortina e recebendo visita da vizinhança. Para todos, aquilo parecia um final feliz: um animal salvo, bem tratado e querido.

O sinal de alerta veio de um sobrinho que estudava biologia. Ele explicou que a espécie era silvestre nativa, que criar um bicho desses em casa não é permitido só porque a intenção foi boa, e que o próprio bem-estar do animal estava em risco — sem aprender a se alimentar e a fugir de predadores, ele dificilmente sobreviveria solto depois de tanto tempo dependente de gente.

Pessoa oferece alimento a um pássaro que entrou na residência enquanto outras aves permanecem do lado de fora.

A descoberta doeu. Cuidar bem, com carinho e comida, não transforma a criação num direito de posse, e a boa intenção não substitui a autorização de um órgão ambiental. A família entendeu que o gesto generoso, feito por conta própria, tinha entrado num terreno que a lei trata com rigor.

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Sem saber se podia se aproximar, e diante de um macaco-prego ferido na varanda, Fernanda, enfermeira de 34 anos, isolou as 2 crianças e o cachorro por 40 minutos, ligou para o Ibama e só depois entendeu, com os Bombeiros, por que resgate de fauna silvestre pede distância, não comida

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Aos 33 anos, Simone, diarista e mãe solo de 2 filhos, abrigou na caixa de sapatos um filhote silvestre encontrado no quintal, manteve o apego por 4 dias e só depois soube pelo Ibama que precisava acionar o Cetas ou os Bombeiros antes de qualquer tentativa de soltura

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Mulher idosa no quintal segura um cachorro e estende a mão em direção a uma menina, enquanto uma caixa de papelão cobre uma ave ferida no chão perto do varal.

Ao ouvir a filha de 8 anos gritar no quintal, Marisa, professora aposentada de 63 anos, reconheceu um gavião jovem com a asa caída, cobriu o animal com uma caixa de papelão e só depois, pelo Ibama e pelo 193 dos Bombeiros, descobriu como agir diante do risco

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Antes de decidir o que fazer com um animal silvestre, é preciso saber onde essa história esbarra na lei e na segurança de todos.

Por que manter fauna silvestre em casa é problema

A Lei de Crimes Ambientais (Lei nº 9.605/1998) é clara no artigo 29: matar, perseguir, caçar, apanhar, utilizar, guardar ou manter em cativeiro espécimes da fauna silvestre sem a devida permissão constitui crime, com pena de detenção de seis meses a um ano, além de multa. A lei prevê situações em que o juiz pode deixar de aplicar a pena, mas essa análise cabe ao Judiciário, caso a caso, e não é uma autorização prévia para criar o animal.

Há ainda o lado do bicho. Filhotes criados por pessoas costumam perder a capacidade de se virar sozinhos, se machucam ao tentar voar em ambiente errado e podem transmitir ou contrair doenças. Boa vontade, sem manejo técnico, muitas vezes condena o animal que se queria salvar.

Direito Ambiental & Cidadania
Guia de Regularização & Entrega Voluntária de Fauna
Diagnostique a situação do animal resgatado e gere a Declaração de Entrega Voluntária com amparo na isenção de multas e penalidades.
Situação perante a Lei: Isenção por Entrega Voluntária
Proteção Integral ao Entregar: Pelo Decreto nº 6.514/2008 (Art. 24, § 5º), quem entrega voluntariamente o animal silvestre ao CETAS/Ibama fica ISENTO de qualquer multa administrativa ou processo criminal (Art. 29 da Lei 9.605/98).
Termo de Entrega Voluntária (Apresentar ao CETAS):
TERMO DE DECLARAÇÃO DE ENTREGA VOLUNTÁRIA DE FAUNA SILVESTRE Eu, [NOME COMPLETO], portador(a) do CPF [NÚMERO], declaro que compareço espontaneamente a este Centro de Triagem de Animais Silvestres (CETAS / Órgão Ambiental) para realizar a entrega voluntária de 01 (um) espécime da fauna silvestre ([ESPÉCIE/TIPO]), acolhido em residência após resgate por fragilidade. Solicito a lavratura do Termo de Recebimento com a devida ISENÇÃO DE SANÇÕES ADMINISTRATIVAS E PENAIS, conforme assegurado pelo Artigo 24, § 5º do Decreto Federal nº 6.514/2008.
Base regulatória: Lei de Crimes Ambientais (Lei nº 9.605/1998) e Decreto nº 6.514/2008.

O que fazer ao encontrar um animal silvestre

  • Não tente criar, alimentar com dieta caseira nem soltar por conta própria;
  • Mantenha o animal em local escuro, arejado e silencioso, sem manuseio;
  • Acione um Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas) ou o órgão ambiental da sua região;
  • Se houver risco à segurança das pessoas, chame o Corpo de Bombeiros no 193.

Os Cetas recebem animais por entrega voluntária, resgate ou apreensão, cuidam da recuperação e definem o destino adequado, seja a soltura, seja o encaminhamento a locais autorizados. Entregar o bicho a quem tem estrutura aumenta a chance real de ele voltar à natureza.

Crianças acompanham o atendimento de uma ave silvestre em um centro especializado de recuperação e proteção animal.

Vale um cuidado extra com a saúde de quem faz o resgate. Animais silvestres podem morder, arranhar e carregar agentes que causam doenças, e manusear sem proteção é arriscado tanto para adultos quanto para crianças. O ideal é usar luvas, evitar contato com o rosto e lavar bem as mãos depois. Se alguém for mordido ou ferido e sentir mal-estar, febre ou reação na pele, o caminho é procurar atendimento e, em urgência, ligar para o SAMU no 192. Proteger as pessoas faz parte de resgatar bem o animal, e as duas coisas não competem entre si.

Outro engano frequente é achar que soltar o animal depois de meses resolve tudo. Um filhote que cresceu dependente de pessoas costuma não saber procurar alimento, reconhecer predadores ou conviver com outros da mesma espécie, e a soltura feita sem preparo pode ser uma sentença. Por isso a decisão sobre devolver à natureza cabe a quem avalia o caso com critério técnico, e não ao apego de quem cuidou. Reconhecer isso é difícil, mas é o que separa o gesto bonito do gesto realmente eficaz.

Cuidar da natureza começa no quintal

Quem gosta de ter vida ao redor de casa pode ajudar a fauna sem infringir a lei, oferecendo abrigo e plantas que atraem visitantes silvestres de passagem. Montar um espaço verde, com flores que crescem rápido e transformam o jardim, é uma forma de conviver com os animais sem retirá-los do ambiente natural.

Cada situação tem particularidades, e o encaminhamento correto depende da espécie e das condições do animal; não há solução única. O que a vivência de dona Cleide deixa é uma lição sem culpa: diante de um filhote silvestre, o gesto mais amoroso é chamar quem sabe cuidar, não adotar em casa.

Fontes: Lei nº 9.605/1998 (Crimes Ambientais); Ibama — Centros de Triagem de Animais Silvestres (Cetas).

Sua história pode virar reportagem

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Tags: animal silvestrecetasfauna silvestreibamameio ambienteresgate de animais

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