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A psicologia explica por que alunos que rabiscavam os cadernos desenvolveram uma vantagem cognitiva que os outros não tinham

André Rangel  Por André Rangel 
28/05/2026
Em Curiosidades, Notícias
Os rabiscos no caderno podem revelar muito mais do que você imagina

Os rabiscos no caderno podem revelar muito mais do que você imagina

Aquela criança que passava a aula inteira enchendo as margens do caderno de desenhos, forminhas e garatujas enquanto o professor falava não estava desatenta. Estava, sem saber, praticando uma técnica cognitiva que a psicologia científica levou décadas para compreender e que hoje é reconhecida como genuinamente benéfica para a memória, a concentração e a criatividade. Os rabiscos aparentemente sem sentido têm muito mais sentido do que parecia.

O que o estudo mais importante sobre rabiscos descobriu sobre memória?

Em 2009, a professora Jackie Andrade, da Escola de Psicologia da Universidade de Plymouth, na Inglaterra, conduziu um experimento publicado no Applied Cognitive Psychology que mudou a forma como a ciência olha para esse hábito. Andrade separou 40 participantes em dois grupos: 20 ouviram uma mensagem de voz monótona enquanto rabiscavam livremente; os outros 20 ouviram a mesma mensagem sem fazer nada com as mãos. Em seguida, todos foram testados sobre o conteúdo da mensagem, sem aviso prévio.

O resultado foi inequívoco: o grupo que rabiscou durante a escuta recordou em média 29% mais informações do que o grupo que ficou parado. Os doodlers retiveram 7,5 itens de 16 possíveis, contra 5,8 do grupo controle. O estudo foi amplamente replicado e suas conclusões são hoje citadas em literatura de neurociência cognitiva, psicologia educacional e treinamento corporativo ao redor do mundo.

Os rabiscos no caderno podem revelar muito mais do que você imagina
Os rabiscos no caderno podem revelar muito mais do que você imagina

Por que rabiscar melhora a memória em vez de prejudicá-la?

A explicação de Andrade é contraintuitiva, mas precisa. O principal inimigo da retenção de informações durante uma aula ou reunião não é o rabisco: é o devaneio. Quando a mente começa a vagar por pensamentos não relacionados ao conteúdo apresentado, ela ativa redes neurais extensas que consomem grande parte da capacidade de processamento do cérebro, competindo diretamente com a retenção do que está sendo dito.

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O rabisco age como uma âncora atencional: ocupa o nível mínimo de processamento cognitivo necessário para manter o cérebro em estado de ativação sem sobrecarregá-lo. Ele impede o devaneio sem exigir atenção executiva que competiria com o conteúdo principal. É o ponto de equilíbrio entre pensar demais e não pensar o suficiente.

O rabisco também ajuda na criatividade e na resolução de problemas?

Sim, por um mecanismo diferente. Enquanto o benefício para a memória vem da âncora atencional, o benefício para a criatividade vem da liberação do pensamento linear. Rabiscar permite que o cérebro explore associações livres sem a pressão de produzir algo coerente ou útil imediatamente. Pesquisa citada pelo portal de psicologia educacional GoStudent indica que o doodling acessa partes do inconsciente que o pensamento dirigido normalmente não alcança, trazendo conexões e ideias que não surgiriam numa sessão de trabalho convencional.

Não é por acaso que nomes como Ralph Waldo Emerson, Sylvia Plath, Hillary Clinton e Bill Gates são citados entre os rabiscadores compulsivos históricos. O Google chegou a manter um “chief doodler” no quadro de funcionários por anos. O rabisco não é hábito de mente vazia: é a mente trabalhando de forma não supervisionada, o que frequentemente produz seus melhores resultados.

O que o conteúdo dos rabiscos pode revelar sobre o estado emocional de quem os faz?

A psicologia também estuda o conteúdo dos rabiscos como janela para o estado mental e emocional de quem os faz. O tipo de forma desenhada automaticamente, como linhas angulosas, círculos, espirais ou figuras humanas, tende a refletir o estado de ânimo e o nível de ansiedade do momento. Rabiscos com muita pressão sobre o papel costumam aparecer em estados de alta tensão. Espirais e círculos são mais comuns em estados reflexivos. Essas interpretações são usadas como ferramenta complementar em contextos terapêuticos, embora não tenham o mesmo peso científico do estudo de Andrade.

Rabiscos nas margens do caderno ajudam o cérebro mais do que você pensa
Rabiscos nas margens do caderno ajudam o cérebro mais do que você pensa

O que a ciência confirma com solidez é que rabiscar reduz o cortisol, o hormônio do estresse, e acalma a amígdala, a região do cérebro associada às respostas de medo e ansiedade. Em provas e apresentações, fazer rabiscos antes ou durante pode ajudar a regular o estado emocional e criar condições melhores para o desempenho cognitivo.

Como usar o doodling de forma intencional para melhorar o aprendizado e o foco?

O benefício cognitivo vem do processo, não do resultado visual. Não é preciso saber desenhar nem produzir algo esteticamente interessante. Garatujas simples, padrões geométricos repetitivos, espirais e figuras abstratas ativam os mesmos mecanismos de âncora atencional que formas mais elaboradas. A pesquisadora Francesca Sciandra, que trabalha com neurociência e desenho, recomenda começar com cinco minutos diários de sketch-noting durante reuniões ou leituras, rabiscando objetos ao redor enquanto processa informações.

Para pais que repreendem filhos por rabiscar durante as aulas e para gestores que desaprovam garatujas em reuniões: a ciência está do lado dos rabiscadores. Desde que o conteúdo principal esteja sendo acompanhado, o caderno cheio de desenhos nas margens pode ser sinal de atenção, não de dispersão. Compartilhe com quem ainda acha que rabiscar é sinal de desatenção e vai se surpreender com o que a psicologia descobriu.

Tags: aulaCérebrocriatividadefocomemóriapsicologiarabiscar no caderno

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