Na Baía da Ilha Grande, no litoral sul fluminense, a maior ilha do estado do Rio de Janeiro guarda 106 praias, 16 trilhas oficiais e um pedaço de Mata Atlântica que cobre quase todo o seu território. Em 2019, a região foi inscrita pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) como o primeiro sítio misto da América Latina, e até hoje preserva uma rotina sem carros, sem estradas e sem estrutura urbana convencional.
Uma ilha sem carros que já abrigou piratas, presos políticos e um lazareto imperial
O passado da Ilha Grande ajuda a explicar o silêncio das trilhas atuais. Originalmente chamada de Ipaum-Guaçu, ou Ilha Grande na língua tupi, segundo o portal oficial Visite Angra dos Reis, foi habitada por povos tamoios e tupinambás antes da chegada dos europeus.
Entre o século XVI e o XVIII, virou refúgio de piratas holandeses, franceses e ingleses que buscavam água potável nas enseadas tranquilas. Depois, foi rota de comerciantes ilegais de escravizados até 1850, quando a marinha brasileira passou a patrulhar a região por pressão inglesa. A virada veio com a construção do Lazareto, em 1884, hospital de quarentena para imigrantes infectados, seguido pela Colônia Penal Cândido Mendes, no povoado de Dois Rios, onde Graciliano Ramos cumpriu pena durante a Era Vargas.
O presídio foi demolido em 1994, e a Mata Atlântica voltou a ocupar as áreas antes usadas pela agricultura. Hoje, as ruínas do Lazareto e o museu erguido sobre as fundações do antigo presídio são pontos visitáveis nas trilhas históricas.

Quais reconhecimentos internacionais essa ilha já recebeu?
Três principais selos internacionais. O mais importante foi concedido em 2019, quando o sítio Paraty e Ilha Grande, Cultura e Biodiversidade, entrou para a Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO, durante a 43ª sessão do Comitê do Patrimônio Mundial em Baku, no Azerbaijão. Foi o primeiro sítio misto, com valor cultural e natural reconhecido em conjunto, da América Latina, segundo a Prefeitura de Angra dos Reis.
Antes disso, em 1991, a área já havia sido reconhecida pela mesma organização como Reserva da Biosfera da Mata Atlântica. O terceiro reconhecimento veio da BirdLife International, que listou o território como uma Important Bird and Biodiversity Area, área prioritária para a conservação da biodiversidade de aves. Conforme registrado pela Prefeitura, a região abriga 45% das espécies de aves da Mata Atlântica e 34% dos sapos e pererecas do bioma, além de mamíferos raros como a onça-pintada e o muriqui, o maior primata das Américas.
O reconhecimento da UNESCO cobre quase 150 mil hectares, incluindo o Parque Estadual da Ilha Grande, a Reserva Biológica da Praia do Sul, o Parque Nacional da Serra da Bocaina, a Área de Proteção Ambiental de Cairuçu, o Centro Histórico de Paraty e o Morro da Vila Velha.

O que fazer em Ilha Grande
O roteiro combina passeios de barco, trilhas e dias inteiros em praias quase desertas. Entre os principais pontos do destino, destacam-se:
- Praia de Lopes Mendes: 3 km de areia branca acessíveis por trilha de cerca de 30 minutos a partir da Praia do Pouso, segundo o portal oficial da prefeitura, frequentemente citada entre as mais bonitas do Brasil.
- Lagoa Azul: piscina natural com águas transparentes entre ilhotas, ponto clássico para snorkel com cardumes de peixes coloridos.
- Praia do Aventureiro: cartão-postal da face oceânica com o famoso coqueiro deitado e ocupação caiçara tradicional.
- Vila do Abraão: principal núcleo urbano, com pousadas, restaurantes, comércio e feirinha noturna de artesanato.
- Ruínas do Lazareto e Aqueduto: marcos históricos do final do século XIX, no Circuito do Abraão.
- Praia de Dois Rios: cenário do antigo presídio Cândido Mendes, hoje com museu e duas faixas de areia separadas por dois rios.
- Pico do Papagaio: ponto alto da ilha, com trilha de nível pesado e vista panorâmica da baía inteira.
Na mesa, a tradição caiçara aparece em pratos preparados com peixes frescos comprados direto dos pescadores locais. Para provar o melhor do destino:
- Moqueca caiçara: ensopado de badejo ou garoupa com leite de coco, tomate e coentro, servido nos restaurantes da Vila.
- Peixe com banana-da-terra: combinação típica da cozinha caiçara, preparada com peixe fresco e banana cozida na própria panela.
- Caldeirada de frutos do mar: mistura de peixes, camarões, lulas e mariscos servida com arroz.
- Casquinha de siri: carne de siri desfiada, refogada com temperos e gratinada na própria casca.
- Camarão na moranga: tradição da Costa Verde, servido em pousadas e restaurantes pé na areia.
Quem quer economizar muito na viagem para um paraíso natural, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Casal Alencar, que conta com mais de 93 mil visualizações, onde Bruna e Adriano Alencar mostram um roteiro completo de 3 dias com opções de baixo custo na Ilha Grande, Rio de Janeiro:
Qual o clima em Ilha Grande e a melhor época para visitar
O clima da Ilha Grande é tropical úmido, com chuvas concentradas no verão e dias secos no inverno. O outono, entre março e junho, costuma ser o melhor período, com céu mais aberto, praias menos cheias e preços mais baixos. Veja as médias por estação no destino:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar à ilha sem estradas
O acesso é exclusivamente por mar, a partir de três pontos no continente. De Angra dos Reis, a 150 km do Rio de Janeiro pela BR-101 (Rio-Santos), saem barcas e lanchas com travessia de 30 a 90 minutos até a Vila do Abraão. De Mangaratiba, a 100 km da capital fluminense, a barca da CCR cruza a baía em cerca de 1h40. A travessia mais rápida sai de Conceição de Jacareí, distrito de Mangaratiba, com fast boats que chegam em 15 a 20 minutos. Não há entrada de veículos motorizados particulares, e a ilha não tem caixas eletrônicos nem agências bancárias.
Vale desligar o motor e atravessar pelo menos uma vez
A ilha junta o silêncio das trilhas, a beleza das praias e o peso de uma história que vai dos piratas aos presos políticos. Poucos lugares no Brasil reúnem reconhecimento da UNESCO, uma das praias eleitas entre as mais bonitas do mundo e zero ruído de carros no mesmo território.
Você precisa atravessar a baía e conhecer Ilha Grande pelo menos uma vez para entender por que essa fatia da Costa Verde virou patrimônio de toda a humanidade.




