O caso de Richard Keedwell, um engenheiro aposentado de 71 anos, tornou-se um alerta global sobre o custo emocional e financeiro de lutar contra o sistema. O que começou como uma simples multa de trânsito transformou-se em uma batalha jurídica de quase uma década que consumiu as economias da família.
Qual foi o motivo da autuação e a tese de defesa?
Em 2016, Keedwell foi autuado por trafegar a 56,3 km/h em uma via cujo limite era de 48,2 km/h. Convicto de sua inocência, ele recusou o pagamento da multa de aproximadamente R$ 500 e contratou peritos em eletrônica para provar que o radar havia cometido um erro de leitura.
A defesa técnica alegou que o equipamento poderia ter sido ativado por um veículo em outra faixa ou que sofria de falhas na calibração. No entanto, o Tribunal de Magistrados de Worcester e, posteriormente, o Tribunal da Coroa (Crown Court) rejeitaram os argumentos, mantendo a punição original e acumulando custos processuais sobre o engenheiro.

Quanto custou a persistência jurídica de Richard Keedwell?
Ao longo dos anos, os honorários advocatícios e as taxas de peritos particulares escalaram rapidamente. O valor total desembolsado chegou a 28 mil libras, o equivalente a cerca de R$ 150 mil em valores de 2026. Keedwell confessou que utilizou toda a herança que pretendia deixar para seus filhos para financiar o processo.
Confira a divisão aproximada dos gastos do engenheiro:
- Honorários Advocatícios: 21 mil libras.
- Custas Judiciais: 7 mil libras.
- Peritagem Técnica: Inclusa nos custos de defesa.
- Deslocamentos: Gastos extras com transporte para múltiplas audiências.
O que esse caso revela sobre as leis do Reino Unido?
Diferente do sistema brasileiro, onde a Defensoria Pública e os honorários de sucumbência atenuam gastos para o cidadão comum, no sistema inglês os custos de litigância em processos criminais sumários são extremamente elevados. O réu é o responsável integral pela contratação de seus próprios especialistas para contestar provas do Estado.
Keedwell expressou indignação com o que chamou de “sistema que atrapalha as pessoas comuns”. Sua experiência destaca que, em muitos casos, a multa administrativa é apenas a ponta do iceberg, e a busca por “justiça plena” pode ser financeiramente inviável no modelo britânico de justiça paga.
Existem outras alternativas legais para o engenheiro?
Mesmo após a derrota nas instâncias superiores, o aposentado afirmou que não se arrepende de ter lutado por seus princípios. Ele agora avalia uma revisão judicial (judicial review), um procedimento mais barato que foca na legalidade da decisão da autoridade pública, e não apenas nos fatos do excesso de velocidade.
Compreender o funcionamento da justiça inglesa é essencial para entender por que casos simples de trânsito podem arruinar patrimônios. Para o motorista comum, o episódio serve como um lembrete de que contestar uma multa exige, além de provas técnicas, um fôlego financeiro que poucas pessoas possuem.




