Retirado de uma turfeira, o emaranhado de crina permaneceu décadas sem idade determinada. A datação estabeleceu cerca de 3.000 anos. Hoje, o chapéu de crina de cavalo de Kirtomy é a peça de vestuário reconhecível mais antiga da Escócia e preserva uma técnica artesanal inédita na Grã-Bretanha e Irlanda.
Como um emaranhado encontrado numa turfeira virou um chapéu pré-histórico?
O objeto pertence à Idade do Bronze britânica, mas isso só ficou claro décadas depois. Encontrado em 1953 perto de Kirtomy, na Escócia, ele chegou ao museu como uma massa confusa de pelos enrolados, mantida em posição pela própria turfa.
A especialista Audrey Henshall desmontou cuidadosamente partes do emaranhado, mediu cada seção e percebeu uma estrutura coerente: coroa, paredes e aba. O objeto passou a fazer sentido como um chapéu elaborado em camadas, embora sua idade ainda permanecesse desconhecida até a realização de datação por radiocarbono.

Como os pesquisadores descobriram que o chapéu tinha 3.000 anos?
Uma nova etapa de pesquisa foi apoiada pela Society of Antiquaries of Scotland. A datação colocou o material entre 1190 e 920 a.C., na Idade do Bronze Final, muito antes do período medieval em que o objeto havia sido inicialmente armazenado.
Análises posteriores confirmaram que os fios eram pelos retirados da cauda de um cavalo ou pônei. A superfície estava degradada demais para uma identificação simples, mas medições de diâmetro e estudos realizados com a Universidade de York reforçaram a origem equina e a reconstrução da técnica.
O que havia de tão diferente na maneira de fabricar esse chapéu?
A técnica identificada é chamada wrapped twining, uma variação de entrelaçamento em que elementos rígidos e flexíveis trabalham juntos. No chapéu, feixes de crina funcionavam como parte da trama, enquanto outra estrutura orgânica, provavelmente palha, dava sustentação e desapareceu quase completamente na turfeira.
Cada cordão reunia cerca de 12 a 15 fios de crina, presos por outro pelo. A construção exigia mudanças de direção para formar coroa e aba, além de esconder nós na parte interna. Uma reconstrução moderna indicou que um artesão experiente poderia levar dezenas de horas para produzir a peça.
A seguir listamos quatro detalhes da construção do chapéu que mostram o nível de planejamento necessário para transformar crina e palha em uma peça vestível:
- Feixes: cada cordão reunia aproximadamente 12 a 15 pelos de cavalo.
- Amarração: fios individuais envolviam os feixes e mantinham a estrutura unida.
- Base: uma armação orgânica, provavelmente de palha, fornecia rigidez ao conjunto.
- Aba: camadas de crina formavam uma borda trabalhada para ser vista por cima e por baixo.

Por que a crina de cavalo é uma pista importante sobre a Idade do Bronze?
O chapéu não é relevante apenas como roupa. Ele está entre as evidências antigas do uso de cavalos domésticos na Grã-Bretanha e Irlanda. Outros objetos do mesmo período mostram equipamentos ligados a veículos, sugerindo que os animais tinham valor especial e podiam fornecer pelos de cauda para trabalhos artesanais.
Uma hipótese é que as caudas fossem aparadas para evitar que se prendessem ao equipamento de tração. Isso criaria uma fonte regular de crina longa para objetos como o chapéu. A ideia ainda depende de interpretação, mas conecta tecnologia têxtil, manejo de animais e circulação de veículos prestigiosos.
A seguir listamos quatro pistas reunidas pelo objeto que ajudam a conectar vestuário, cavalos e tecnologia na Escócia da Idade do Bronze:
| Pista | O que mostra | Por que importa |
|---|---|---|
| Crina | Uso de cavalo | Material doméstico |
| Datação | 1190–920 a.C. | Cronologia segura |
| Técnica | Wrapped twining | Conhecimento artesanal |
| Reconstrução | Processo demorado | Especialização |
O que ainda não sabemos sobre quem usou o chapéu de Kirtomy?
A peça parece ter sido feita para um adulto e exige trabalho especializado, mas não sabemos quem a usou. Também permanece sem resposta a razão de ter terminado numa área encharcada: poderia ter sido perdido, descartado ou depositado intencionalmente, hipóteses que hoje não podem ser separadas com segurança.
O que sobreviveu já é extraordinário. Um material tão frágil atravessou três milênios porque a turfa preservou aquilo que normalmente desapareceria. O chapéu de crina de cavalo de Kirtomy permite enxergar uma tecnologia quase invisível no registro arqueológico e mostra quanto da roupa pré-histórica pode ter desaparecido sem deixar vestígios.
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