O espaço entre as estrelas parece vazio, mas abriga gases, poeira e moléculas que não podem ser vistas em uma fotografia comum. Cada uma deixa uma assinatura própria nas ondas captadas por grandes antenas. A descoberta de açúcar no espaço mostra até onde essa química pode avançar antes mesmo do nascimento de um planeta.
Qual açúcar foi encontrado no espaço?
A molécula encontrada é a eritrulose, um açúcar formado por 4 átomos de carbono. Ela também existe na Terra e pode ser encontrada em frutas como a framboesa.
Os pesquisadores não encontraram frutas, gotas doces ou cristais de açúcar flutuando no espaço. O que apareceu foi a assinatura química da mesma molécula presente em materiais terrestres. O estudo publicado na Nature Astronomy apresenta a primeira detecção confirmada de um açúcar verdadeiro no meio interestelar.

Onde a eritrulose foi detectada?
A eritrulose foi detectada na nuvem molecular G+0.693-0.027, localizada na região central da Via Láctea. A área fica a cerca de 8,2 quiloparsecs da Terra, perto do centro galáctico.
Nuvens moleculares são grandes regiões com gás e poeira. Algumas guardam centenas de compostos químicos e fornecem material para a formação de estrelas e sistemas planetários.
A G+0.693 é conhecida por sua grande variedade química. Ela já permitiu a identificação de outras moléculas com interesse para os estudos sobre a origem da vida.
Como os cientistas identificaram uma molécula tão distante?
Os cientistas identificaram a eritrulose por meio das frequências de rádio emitidas pela molécula. Cada composto gira e vibra de uma forma própria, criando um padrão que funciona como uma impressão digital.
A observação usou os radiotelescópios de Yebes, com 40 metros, e do IRAM, com 30 metros. O radiotelescópio de 30 metros do IRAM fica na Sierra Nevada, na Espanha.
O processo de confirmação reuniu:
- Busca ampla: as antenas cobriram mais de 91 GHz de frequências.
- Padrão conhecido: a assinatura da eritrulose havia sido medida em laboratório.
- Várias linhas: foram identificados 12 conjuntos com 17 transições da molécula.
- Sinais mais limpos: 6 conjuntos tinham pouca mistura com outras substâncias.
- Modelo completo: os dados foram comparados com mais de 180 espécies moleculares.
Por que a descoberta é importante para a origem da vida?
A descoberta é importante porque açúcares participam de processos básicos da vida. Eles fornecem energia, formam estruturas biológicas e fazem parte de moléculas ligadas ao material genético.
A eritrulose pode mudar de forma em ambientes com água e dar origem à treose. Esse açúcar aparece em estudos sobre moléculas que poderiam ter existido antes do RNA. Modelos químicos indicam que a eritrulose pode surgir em grãos de poeira cobertos por gelo. Moléculas menores se juntariam nessas superfícies antes de serem liberadas no gás.
| O que a pesquisa confirmou | O que ela não prova |
|---|---|
| A eritrulose existe no espaço interestelar. | Não foram encontradas framboesas ou alimentos no espaço. |
| A molécula pode se formar sem a presença de vida. | A descoberta não mostra que há organismos vivos na nuvem. |
| Açúcares complexos podem surgir antes dos planetas. | Não se sabe quanto material chegaria intacto a um planeta. |
| A nuvem possui uma química rica e variada. | A região não foi apresentada como um ambiente habitável. |
Leia também: Fóssil com filhotes de 125 milhões de anos revela cuidado raro na época dos dinossauros
Encontrar açúcar significa que existe vida na região?
Não. A eritrulose pode surgir por reações químicas sem a participação de qualquer ser vivo. Sua presença mostra que parte dos ingredientes usados pela vida pode se formar em ambientes muito anteriores aos planetas.
Cometas, meteoritos e asteroides podem levar moléculas orgânicas para mundos em formação. Açúcares como ribose e glucose já foram encontrados em materiais do Sistema Solar.
O próximo passo é procurar açúcares ainda mais complexos e moléculas diretamente ligadas aos primeiros ácidos nucleicos. A descoberta não encontrou vida, mas mostrou que a química necessária para construí-la pode começar muito antes.




