O achado de mais de 400 moedas de ouro no fundo do mar, na costa sul da Inglaterra, transformou uma exploração de mergulhadores em um estudo de três décadas sobre comércio marítimo, poder econômico e circulação de metais preciosos no século XVII, conectando o litoral de Devon, o Norte da África e os portos da Europa em uma mesma história.
Moedas de ouro africano no fundo do mar revelam redes globais
A descoberta feita em 1995 próximo a Devon envolveu não apenas moedas, mas também joias, utensílios e restos de uma antiga embarcação mercante. Só recentemente, com o cruzamento de dados arqueológicos e documentos de arquivo, pesquisadores conseguiram vincular o tesouro a um navio holandês que partira do Marrocos rumo aos Países Baixos em 1633.
As moedas de ouro africano, hoje expostas no Museu Britânico, apresentavam inscrições ligadas à Costa da Barbária, no litoral marroquino, indicando origem na África Ocidental. Ao redor delas, foram encontrados uma pepita de ouro puro, joias trabalhadas, fragmentos de cerâmica, pílulas medicinais e utensílios de estanho, sugerindo o naufrágio de um navio de grande porte.

Como as moedas ajudam a entender o comércio entre Marrocos e a Europa
Os ducados marroquinos, cunhados com ouro da África Ocidental, fazem parte de um amplo circuito de metais preciosos que abastecia os mercados europeus. Pesquisadores destacam que esse é um raro exemplo de “tesouro de lingotes”, em que o valor está diretamente associado ao metal e não apenas à circulação monetária cotidiana.
Estudos de arqueologia marítima e numismática indicam que o ouro africano era frequentemente derretido para cunhar moedas holandesas amplamente aceitas nas transações internacionais. Nesse naufrágio, a carga permaneceu intocada por séculos, preservando um recorte específico de um carregamento destinado ao circuito financeiro europeu e ao fortalecimento do império comercial holandês.
Como o naufrágio foi identificado como o navio Dom van Keulen
A identificação do navio responsável pelo transporte das moedas de ouro exigiu um longo trabalho interdisciplinar. A origem marroquina das moedas indicava apenas um navio mercante do século XVII, até que uma tigela e uma colher de estanho, de fabricação holandesa, reduziram drasticamente o universo de possibilidades.
Com essa pista, o historiador Ian Friel e outros especialistas buscaram registros de perdas de navios holandeses em rotas entre Marrocos e os Países Baixos. Documentos da década de 1630 descrevem o navio Dom van Keulen, que partiu do Marrocos, enfrentou “clima muito tempestuoso” e afundou perto de Salcombe, transportando cerca de 9.000 ducados da Barbária, goma arábica, salitre e peles, em total correspondência com o material arqueológico.

Quais objetos encontrados ajudam a reconstruir o cotidiano a bordo
Além do ouro, a carga revela aspectos do dia a dia de bordo e do comércio atlântico envolvendo o ouro do Norte da África. Esses artefatos conectam o naufrágio ao contexto dos Sharifs Sa’dian, dinastia que governava o Marrocos, e às rotas que ligavam o Saara, o litoral magrebino e os portos europeus.
Entre os itens identificados, alguns ganham destaque pela capacidade de iluminar práticas comerciais, médicas e náuticas do século XVII:
- Joias marroquinas dos séculos XVI e XVII, raramente preservadas em contexto subaquático;
- Utensílios de mesa de estanho, que revelam hábitos alimentares em navios mercantes holandeses;
- Pílulas revestidas de resina, associadas a práticas médicas e conservação de remédios;
- Peso de sondagem em forma de peixe, instrumento náutico para medir profundidade e examinar o fundo marinho.
Por que essa descoberta ainda importa e o que fazer com esse legado
A importância do naufrágio associado ao Dom van Keulen vai muito além do valor material das moedas de ouro encontradas. O caso mostra como a combinação de arqueologia subaquática e pesquisa documental preenche lacunas sobre economia, política, tecnologia naval e rotas comerciais globais ainda pouco conhecidas e, muitas vezes, ameaçadas por exploração predatória.
Esses vestígios submersos são um laboratório real para entender nosso passado compartilhado e precisam ser protegidos agora. Apoiar pesquisas, visitar exposições e defender a preservação de sítios arqueológicos marítimos é urgente: cada objeto retirado sem estudo é uma história perdida para sempre. Não espere o próximo naufrágio ser destruído — valorize e divulgue esse patrimônio hoje.




