O caixa convencional não desapareceu dos supermercados brasileiros, mas está perdendo espaço com velocidade surpreendente. Assaí e Atacadão, duas das maiores redes de atacarejo do país, transformaram o self-checkout de experimento pontual em padrão de operação, instalando terminais em centenas de unidades espalhadas pelo Brasil. A mudança não é só tecnológica: ela reflete uma nova relação entre o consumidor e o varejo alimentar, onde autonomia e agilidade no checkout pesam tanto quanto o preço na prateleira.
Como o autoatendimento chegou ao atacarejo brasileiro?
O Assaí foi pioneiro no formato dentro do atacarejo nacional. O piloto começou em 2022 na unidade Anhanguera, em São Paulo, e envolveu adequações de infraestrutura, atualização de sistemas e treinamento das equipes de frente de loja. A proposta desde o início era simples: oferecer uma saída rápida para quem compra até 20 itens ou 50 quilos, sem precisar enfrentar a fila dos caixas tradicionais. A receptividade foi imediata, segundo o próprio Assaí: mais de mil clientes por dia passaram a usar os terminais em cada unidade onde foram instalados.
O crescimento desde então foi consistente. Segundo o Assaí Atacadista, a rede concluiu em dezembro de 2025 a expansão do modelo para todas as suas lojas, abrangendo todas as regiões do país. Até junho de 2025, mais de 1.000 caixas de autoatendimento já haviam sido instalados, tornando o formato um padrão da rede, e não mais um diferencial de poucas unidades.

Quantas lojas do Atacadão já operam com self-checkout?
O Atacadão seguiu caminho parecido, com expansão progressiva do autoatendimento em suas unidades físicas. Segundo a empresa, em abril de 2025 já eram 191 lojas com caixas de autoatendimento instalados. O sistema é fornecido pela Perto, empresa gaúcha especializada em terminais de autoatendimento que também equipa redes bancárias com caixas eletrônicos.
O foco das duas redes é o mesmo: compras de menor volume, feitas pelo próprio consumidor sem a intermediação de um operador de caixa. O cliente passa os produtos no leitor de código de barras, acompanha os valores na tela e finaliza o pagamento por cartão, aproximação ou PIX. Um funcionário permanece próximo para auxiliar em caso de dúvidas, mas a operação inteira fica nas mãos do comprador.
Quais são os benefícios reais do checkout por autoatendimento?
As redes citam consistentemente dois ganhos principais: redução do tempo de espera na fila e ampliação da capacidade de atendimento sem necessidade de abrir mais caixas convencionais. Para o consumidor final, a experiência do consumidor melhora sobretudo nos horários de pico, quando as filas nos caixas tradicionais podem tomar 15 a 20 minutos de espera. Com o autoatendimento, compras pequenas são concluídas em poucos minutos.
Os benefícios para as redes também são concretos. Um único funcionário consegue supervisionar vários terminais simultaneamente, o que muda a equação de custo operacional sem necessariamente eliminar postos de trabalho. As próprias redes reforçam esse ponto: a automação foi apresentada internamente não como corte de equipe, mas como resposta a uma crise de contratação que o setor enfrenta há anos.

Por que o varejo aposta no autoatendimento mesmo com 357 mil vagas abertas?
O paradoxo do setor é real. Segundo a Associação Brasileira de Supermercados (Abras), os supermercados brasileiros encerraram 2025 com cerca de 357 mil vagas abertas e sem candidatos. As funções com maior dificuldade de contratação são justamente operador de caixa, repositor e açougueiro: os cargos que mais interagem com o cliente no dia a dia da loja.
Nesse contexto, o self-checkout funciona como uma resposta operacional a uma lacuna que o mercado não consegue preencher pela via tradicional. Os jovens que historicamente ocupavam essas posições passaram a priorizar jornadas mais flexíveis e remunerações mais altas, segundo análise da própria Abras. O autoatendimento permite que a loja funcione com menos operadores de caixa sem comprometer o fluxo de atendimento, especialmente em horários de alta demanda.
O caixa humano vai desaparecer dos supermercados?
A resposta das redes é uniforme: não, pelo menos não no horizonte próximo. O diretor de tecnologia e inovação do Assaí, Rodrigo Callisperis, declarou em entrevista à Mobile Time que os caixas de autoatendimento são uma adição valiosa, mas não substituem o atendimento humano, ainda valorizado por uma parcela relevante dos clientes. A estratégia das redes é manter as duas modalidades, direcionando compras pequenas ao autoatendimento e compras maiores aos caixas convencionais com operador.
O modelo de convivência entre as duas modalidades parece ser o caminho mais estável para o varejo alimentar brasileiro. A tecnologia avança, os terminais se multiplicam, mas o caixa humano permanece, agora com um perfil diferente: menos volume, mais complexidade, atendendo quem prefere ou precisa do contato direto com um funcionário para concluir a compra.




