No Vale Europeu catarinense, uma cidade de pouco mais de 34 mil habitantes mantém vivo um pedaço de Alemanha que quase desapareceu do mapa original. Pomerode tem placas em dois idiomas, casas centenárias sem um único prego e dois títulos mundiais que a colocaram nos livros de recorde.
Por que três idiomas são oficiais na mesma cidade?
A resposta está na história da imigração. Em Pomerode, o português divide o posto de língua oficial com o alemão e com o pomerano, idioma trazido pelos colonos que chegaram da Pomerânia na segunda metade do século XIX.
O pomerano foi oficializado em 2010 e o alemão em 2017, ao lado do português. A medida é rara no Brasil e ajuda a explicar por que o município ganhou o apelido de cidade mais alemã do país, com o lema Unser Kleines Deutschland, ou Nossa Pequena Alemanha.
O nome Pomerode também nasceu dessa origem. Uma das versões liga a palavra à junção de Pommern, a Pomerânia em alemão, com o trabalho de limpar a terra para o cultivo, marca dos primeiros moradores que ergueram a colônia.

Quais recordes mundiais a cidade conquistou?
Pomerode tem dois títulos chancelados pelo Guinness World Records, ambos ligados à Páscoa. O primeiro, de 2017, é o da maior Osterbaum do mundo, a tradicional árvore de Páscoa, decorada com mais de 100 mil casquinhas de ovos naturais pintadas à mão.
O segundo é ainda mais imponente. Trata-se do maior ovo de Páscoa decorado do planeta, uma estrutura de 16,72 metros de altura por 10,88 metros de diâmetro, segundo o Governo de Santa Catarina.
O ovo gigante tem uma trajetória curiosa. Reconhecido pela primeira vez em 2019, perdeu o posto para a cidade de Salou, na Espanha, em 2022, e foi retomado por Pomerode em 2023. Os dois recordes são atrações da Osterfest, uma das maiores festas de Páscoa da América Latina.

Como 50 casas seguem de pé sem nenhum prego?
A explicação está numa técnica medieval europeia. As construções da Rota do Enxaimel, no bairro Testo Alto, usam vigas de madeira encaixadas por pinos, também de madeira, sem prego ou parafuso, preenchidas por tijolos de argila.
São cerca de 50 casas ao longo de 16 km, a maior concentração desse estilo fora da Europa. O percurso é tombado como patrimônio paisagístico pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e detalhado pela Fundação Catarinense de Cultura.
O reconhecimento ultrapassou as fronteiras do país. Em 2021, a Rota do Enxaimel foi eleita uma das melhores vilas turísticas do mundo pela Organização das Nações Unidas (ONU), escolhida entre mais de 170 destinos de 75 países pelo selo Best Tourism Villages.
Quem sonha em conhecer a cidade mais alemã do Brasil, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Camila da Mata, que conta com mais de 9.500 visualizações, onde Camila da Mata mostra o que fazer em apenas um dia, preços e comidas típicas em Pomerode, Santa Catarina:
O idioma que o Brasil preserva e a Europa perdeu
O pomerano é o detalhe mais surpreendente de Pomerode. Não se trata de um dialeto do alemão, mas de uma língua própria, aparentada ao saxão antigo, hoje praticamente extinta no continente onde nasceu.
Após a Segunda Guerra Mundial, a Pomerânia foi dividida e sua população se dispersou, abandonando aos poucos o idioma na Europa. No Brasil, os descendentes seguiram falando pomerano entre gerações, e o país abriga hoje mais falantes da língua do que a própria região de origem.
Essa preservação faz de Pomerode um caso único. A sonoridade antiga ainda ecoa nas ruas, nas festas e nos clubes de caça e tiro, mantendo viva uma herança que o tempo apagou do outro lado do Atlântico.
Por que Pomerode surpreende
Pomerode reúne o que poucos lugares conseguem manter: idioma raro, arquitetura intacta e recordes que a colocaram no mapa mundial. É uma cidade onde a herança dos imigrantes virou identidade viva, não apenas memória de museu.
Quem se interessa por história e cultura encontra na Nossa Pequena Alemanha um destino que guarda uma Europa que quase deixou de existir.




