A 25 minutos de Belo Horizonte, uma das vilas mais antigas do ciclo do ouro guarda surpresas que fogem do roteiro previsível. Sabará reúne arte oriental num templo barroco, o segundo teatro mais antigo do Brasil em atividade e uma fruta tão sua que virou patrimônio com certificação nacional.
Por que uma capela mineira tem pinturas que imitam laca chinesa?
A explicação está num estilo decorativo chamado chinesice, que chegou ao Brasil por meio de Portugal e se inspirava na arte do Extremo Oriente. A Capela de Nossa Senhora do Ó, erguida por volta de 1717, esconde atrás de uma fachada simples de adobe um interior coberto de painéis vermelhos, azuis e dourados, com pássaros e pagodes que imitam a laca oriental.
O contraste entre o exterior modesto e a riqueza interna impressiona há séculos. O historiador francês Germain Bazin classificou o templo como um dos mais belos monumentos de Minas, e a capela é tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) desde 1938.
A ornamentação foi concluída por volta de 1725 e segue o estilo nacional-português. É uma das poucas igrejas brasileiras a exibir esse diálogo improvável entre o barroco mineiro e o imaginário asiático.

A fruta que virou patrimônio e enche as praças em novembro
Sabará é conhecida como a Terra da Jabuticaba, e o título tem respaldo oficial. Em 2018, o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) concedeu o selo de Indicação Geográfica aos derivados produzidos no município, segundo o Governo de Minas Gerais.
O reconhecimento abrange cinco produtos feitos a partir da fruta: licor, geleia, molho, compota e casca cristalizada. O selo limita o uso do nome jabuticaba-sabará aos produtores do município, num modelo parecido ao de vinhos e queijos com origem certificada.
Essa tradição vira festa todo ano. O Festival da Jabuticaba, realizado desde 1987, atrai cerca de 200 mil visitantes em quatro dias de programação nas praças do centro, com shows, oficinas e concursos de melhor licor e geleia.

O que ver no centro histórico em um bate-volta de BH
As principais atrações de Sabará ficam a curta distância umas das outras, possíveis de percorrer a pé numa manhã. Estas são as paradas que valem o passeio:
- Capela de Nossa Senhora do Ó: a joia oriental do barroco mineiro, com painéis que imitam laca chinesa.
- Teatro Municipal: inaugurado em 1819, é o segundo teatro mais antigo do Brasil em atividade, com camarotes em três galerias.
- Igreja de Nossa Senhora do Carmo: de 1763, guarda portada e esculturas em pedra-sabão atribuídas a Aleijadinho.
- Museu do Ouro: instalado na antiga Casa de Intendência e Fundição, de 1730, conta a história do ciclo da mineração.
- Chafariz do Kaquende: fonte colonial de 1750 preservada em pedra, perto do centro.
Depois da caminhada, a mesa mineira e a jabuticaba assumem o protagonismo. Vale provar:
- Licor de jabuticaba: o produto mais famoso da cidade, com receita certificada e tradição familiar.
- Geleia de jabuticaba: acompanha pães e queijos, vendida nas praças durante o festival.
- Comida mineira de raiz: feijão-tropeiro, frango com quiabo e tutu servidos nos restaurantes do centro.
- Doces de quintal: compotas e cascas cristalizadas feitas pelos produtores locais.
Quem busca mergulhar no ciclo do ouro e na beleza das cidades coloniais, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal De fora em Juiz de Fora, que conta com mais de 88 mil visualizações, onde Tati Marmon mostra a história e as riquezas do centro histórico de Sabará, Minas Gerais:
Qual a melhor época para visitar a Terra da Jabuticaba?
O inverno seco, entre junho e agosto, é a fase mais garantida para o turismo, com céu limpo e ideal para os passeios a pé. O clima acompanha o padrão da Grande BH, de verões chuvosos e invernos amenos:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar a Sabará
Saindo de Belo Horizonte, o caminho mais direto é a Avenida Cristiano Machado no sentido da MG-262, num trajeto de cerca de 23 km que leva por volta de 25 minutos sem trânsito. Há também linhas de ônibus metropolitanas que ligam o centro da capital a Sabará. Quem vem de São Paulo segue pela BR-381, a Rodovia Fernão Dias, até Belo Horizonte antes de acessar a cidade.
Uma manhã basta para mudar o olhar
Sabará concentra em poucas quadras o que outras cidades históricas espalham por roteiros longos: arte oriental num templo barroco, um teatro bicentenário e uma fruta alçada a identidade cultural. Tudo isso a um quarto de hora da capital mineira.
Separe uma manhã, cruze a Avenida Cristiano Machado e deixe a Terra da Jabuticaba mostrar por que a vizinha mais próxima de Belo Horizonte é também uma das mais surpreendentes do circuito colonial mineiro.




