A 111 km de Belo Horizonte, Itabira guarda a história mais paradoxal do interior mineiro. Foi nesta cidade que o Pico do Cauê, gigante de 1.385 metros de minério de ferro, foi pulverizado em poucas décadas para alimentar a maior mineradora do país e, ao mesmo tempo, viu nascer Carlos Drummond de Andrade, considerado o maior poeta brasileiro.
Por que uma montanha inteira desapareceu do mapa?
O nome da cidade vem do tupi e significa “pedra que brilha”. O brilho citado pelos indígenas era o do minério de ferro que cobria o Pico do Cauê, descoberto em 1720 pelos irmãos Francisco e Salvador de Faria Albernaz. Por séculos, a montanha foi o cartão-postal local.
A exploração industrial começou em 1911 com a Itabira Iron Ore Company, fundada pelo empresário norte-americano Percival Farquhar. Em 1942, no auge da Segunda Guerra Mundial, o presidente Getúlio Vargas nacionalizou as minas e, pelo mesmo decreto, criou a Companhia Vale do Rio Doce. Em 1973, a Mina do Cauê tornou-se a maior frente de extração de minério de ferro do mundo ocidental, segundo registros do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No lugar do pico restou uma cratera, hoje em processo de revegetação pela Vale.

Como o desaparecimento do Cauê marcou a obra de Drummond?
Carlos Drummond de Andrade nasceu em 31 de outubro de 1902 em Itabira e cresceu observando o Pico do Cauê pela janela de casa. A destruição do gigante de ferro virou tema central de sua poesia, especialmente no livro “A Falta que Ama”, publicado em 1968, e no poema “Triste Horizonte”, que registrou o sumiço da montanha.
Sua obra mais conhecida sobre o tema é “Confidência do Itabirano”, em que descreve a cidade como “noventa por cento de ferro nas calçadas, oitenta por cento de ferro nas almas”. A relação ambígua entre o poeta e a mineração, sustento de sua família e destruidora de sua paisagem natal, atravessa boa parte de sua escrita madura. Drummond morreu em 17 de agosto de 1987, no Rio de Janeiro.

O que fazer nos Caminhos Drummondianos?
A cidade transformou a memória do poeta em roteiro turístico oficial. Os Caminhos Drummondianos reúnem 44 placas de ferro fundido, cada uma pesando cerca de 240 quilos, espalhadas por pontos citados em poemas. O roteiro central, segundo o portal oficial Minas Gerais, dura cerca de três horas e inclui:
- Memorial Carlos Drummond de Andrade: projeto do arquiteto Oscar Niemeyer, amigo pessoal do poeta, inaugurado em 31 de outubro de 1998.
- Fazenda do Pontal: antiga propriedade do pai de Drummond, onde o poeta passou parte da infância, com escultura de Drummond criança recebendo visitantes.
- Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade: abriga biblioteca, teatro e exposições no centro da cidade.
- Mirante do Pico do Amor: ao lado do Memorial, oferece vista panorâmica sobre a cidade e os restos do Pico do Cauê.
- Praça Acrísio Alvarenga: ponto de partida tradicional do roteiro, no coração histórico de Itabira.
- Centro histórico: sobrados e casarões dos séculos XVIII e XIX em estrutura de adobe e pau a pique.
O que mais procurar além do legado poético?
Itabira faz parte do Circuito do Ouro e da Estrada Real, e a região guarda atrações que escapam do circuito drummondiano:
- Distrito de Ipoema: vila rural com o Museu do Tropeiro e cachoeiras a cerca de 35 km do centro.
- Serra dos Alves: distrito a 30 km do centro com mirante, trilhas e clima de altitude mais fresco.
- Igreja Matriz Nossa Senhora do Rosário: construção do século XVIII no centro histórico, ligada à Irmandade Negra.
- Mina do Cauê: o que sobrou do antigo pico hoje funciona como crista da paisagem industrial da Vale.
- Feira de Artesanato do Largo: encontro semanal de produtores locais com queijos, doces e peças de ferro forjado.
Quando visitar a terra de Drummond e o que fazer em cada estação?
O clima de Itabira é tropical de altitude, com inverno seco e verão chuvoso. As variações sazonais definem o melhor mês para cada experiência na cidade:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar à terra natal do poeta?
De Belo Horizonte, o trajeto leva cerca de 2h30 pela BR-381 e segue pela MGC-120. O percurso atravessa a paisagem do Quadrilátero Ferrífero, com curvas sinuosas e mirantes naturais ao longo da serra. A cidade também é acessível por ônibus regulares que partem da rodoviária da capital mineira em pouco mais de duas horas e meia.
Visite a cidade onde poesia e ferro contam a mesma história
Poucos lugares no Brasil traduzem com tanta intensidade a relação entre paisagem, trabalho e literatura. Itabira reúne em um só território a herança industrial que ergueu uma das maiores mineradoras do mundo e o berço do poeta que escreveu sobre a destruição dessa mesma terra.
Você precisa subir até o Memorial projetado por Niemeyer e conhecer Itabira, a cidade onde a paisagem virou matéria-prima e a saudade virou poesia.




