A 90 km de Florianópolis, no litoral sul de Santa Catarina, existe um antigo vilarejo de pescadores onde duas histórias improváveis se cruzam dentro do mesmo enredo. Garopaba viu nascer, em 1979, a primeira fábrica de roupas de neoprene do Brasil, a Mormaii, e todo inverno transforma sua costa em maternidade para baleias francas que chegam diretamente da Antártica, alguns exemplares com até 60 toneladas e 18 metros de comprimento.
De caçadores de baleias a guardiões delas
A história do município, hoje conhecido pelas praias e pelo surfe, começou com uma armação baleeira. Em 1793 foi criada a Armação de São Joaquim de Garopaba, instalada no que hoje é o Centro Histórico. Ali, pescadores capturavam baleias ao longo da costa para extrair óleo, base de iluminação e da indústria colonial.
A pesca durou quase dois séculos. Conforme o plano de manejo do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a caça comercial só foi banida no Brasil em 1973, quando os animais já estavam à beira do desaparecimento na costa catarinense. A Igreja Matriz da cidade, erguida em 1846, ainda hoje fica sobre uma pedra que pertencia à antiga armação, lembrança da época em que todo o destino dependia da matança.

Como Garopaba virou maternidade das baleias francas?
Hoje, o vilarejo é parte central de uma das áreas marinhas mais importantes do país. Em 14 de setembro de 2000, foi criada por decreto federal a Área de Proteção Ambiental da Baleia Franca, com cerca de 154 mil hectares e 130 km de costa, abrangendo Garopaba e mais sete municípios do litoral catarinense.
Entre julho e novembro, as fêmeas da espécie cruzam o Atlântico Sul saindo das águas geladas da Antártica em busca de mares mais quentes para parir e amamentar seus filhotes. De acordo com o Projeto Baleia Franca, vinculado ao Instituto Australis, é nesse período que mães e bebês podem ser observados a poucos metros da arrebentação. Praias como Gamboa, Silveira e Ferrugem se tornam pontos de avistamento espontâneos, com decks comunitários e guias treinados orientando o público.O berço da Mormaii e da capital do surfe
Foi também na rotina pacata desse vilarejo que o surfe brasileiro deu um salto. Em 1970, o médico gaúcho Marco Aurélio Raymundo, conhecido como Morongo, chegou ao destino para atender no posto de saúde local. Encontrou uma vila sem energia elétrica, sem médico fixo e com ondas perfeitas o ano todo. Para enfrentar o frio do mar no inverno, costurou em casa o primeiro sleeve de neoprene do país.
Nove anos depois, em 1979, nascia oficialmente a Mormaii, primeira fábrica brasileira de roupas técnicas para surfe. Em janeiro de 2004, a Assembleia Legislativa de Santa Catarina oficializou por lei o título de Capital Catarinense do Surfe. Conforme reportagem do Ministério do Turismo, a costa local mistura ondas exigentes para esportistas e enseadas calmas para famílias, o que ajudou a consolidar o destino entre jovens e veranistas.
O que ver nas 8 praias e no centro histórico?
São 25 km de litoral recortados por costões, dunas, lagoas e Mata Atlântica preservada. Cada praia tem um perfil próprio, do agito jovem ao silêncio da vila pesqueira. O ideal é separar pelo menos três dias de roteiro.
Entre os passeios mais marcantes, vale conhecer:
- Praia da Ferrugem: o ponto mais badalado, com piscina natural no canto sul, vida noturna intensa e ondas para o surfe.
- Praia da Silveira: santuário do surfe, com ondas que podem chegar a 12 pés entre maio e novembro.
- Praia do Siriú: integra o Parque Estadual da Serra do Tabuleiro, conhecida pelas dunas douradas e pela prática do sandboard.
- Praia da Gamboa: vila pesqueira com mirante comunitário e a maior incidência de avistamento de baleias da cidade.
- Centro Histórico: ruas de paralelepípedo, casas açorianas, Igreja Matriz de 1846 e Instituto Baleia Franca aberto à visitação.
Sabores do mar e da tradição açoriana
A gastronomia segue o ritmo das marés. Frutos do mar dominam os cardápios, com destaque para a tainha, peixe-rei da culinária local, capturada por pescadores artesanais que ainda contam com a ajuda de botos para conduzir os cardumes às redes. A safra acontece entre maio e julho.
Vale provar entre as opções mais tradicionais:
- Tainha recheada na telha: assada com farofa de banana, pimentão e camarão.
- Sequência de camarão: clássico do litoral catarinense, com bolinho, pastel, arroz e camarão na chapa.
- Peixe na crosta de banana-da-terra: releitura local de chefs jovens em pousadas-boutique.
- Cachaça artesanal do Vô Zeca: produzida em alambique tradicional na zona rural.
Quem busca destinos incríveis com praias e dunas de tirar o fôlego, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Rolê Família, que conta com mais de 141 mil visualizações, onde são mostrados 10 lugares imperdíveis para conhecer em Garopaba, Santa Catarina:
Como é o clima em Garopaba ao longo do ano?
O clima subtropical úmido marca as estações do destino, com verões quentes, invernos amenos e chuvas bem distribuídas. A boa notícia é que cada época tem seu apelo, do banho de mar à observação dos cetáceos.
Confira como cada estação se comporta na cidade:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar até o destino?
O acesso mais comum é pelo Aeroporto Internacional Hercílio Luz, em Florianópolis, a cerca de 90 km. Da capital catarinense, o trajeto é feito pela BR-101, com cerca de 1h15 de carro, com saída sinalizada para o município. Quem vem do Rio Grande do Sul tem viagem de aproximadamente 410 km a partir de Porto Alegre.
Conheça a vila que troca caçadores por surfistas e biólogos
O destino catarinense é prova de que algumas paisagens podem se reinventar sem perder a essência de comunidade. Praias amplas, ondas constantes, gigantes do mar e ruas de paralelepípedo formam um retrato do que o sul do país tem de mais autêntico.
Você precisa descer a serra e conhecer Garopaba para entender por que tantos surfistas, pescadores e cientistas escolheram chamar este pedaço de litoral de casa.




